<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914</id><updated>2012-02-16T17:35:03.980-02:00</updated><title type='text'>Mantras de Outono</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>57</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-5697585735933408339</id><published>2012-01-26T15:36:00.007-02:00</published><updated>2012-01-27T12:04:18.646-02:00</updated><title type='text'>Mantras de Outono</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Ode aos desejos dos homens, às volúpias dos homens. Comemoremos a selvageria das vozes, das declarações de barro e dos heróis de pó. Comemoremos com vinho e melancolia. Com a embriaguez surda do cotidiano. O amor passageiro, o choro noturno e notívago e sonâmbulo e sozinho, o suspiro da fé do andarilho sem chão – sem pernas. Daremos as mãos, mas não há unhas: garras, e nas garras: dor. Talvez nos encontremos peça de alguma história triste, tragédia imensurável; talvez nos encontremos tragédia de uma peça maior. Dos beijos que se descarnam quando as luzes da cidade morrem, escorrerão as salivas de outros, e passados outros, ansiando futuros muitos. O sangue que escorre do punho desferido no arame é uma gota desperdiçada nesse cosmos indiferente. Sentemos nos bancos de praça a observar crianças, e aprender os sorrisos fáceis da inocência que se esvai. E o ar que sopra nos ouvidos sempre traz uma mensagem derradeira, de uma música já finda no início, bulida em notas de aves e insetos. As flores permanecem vigilantes enquanto amassamos o chão com dilemas exauridos. Sobretudo, que venham as estações! E nas folhas de marrom-morte que acumulam os passeios do outono, vejamos o renascer de um ciclo em que a tristeza é também professora. Que façamos das nossas ações barca de altruísmo, e das nossas palavras o conforto do outro. O tempo do homem é medido em correntes de palavras e elos de ausência. O outro, o desafio maior. A maior necessidade dessa pessoa que lamenta, pois um abraço não se faz com um par de braços. Dois. Saibamos ser cinza, e ser fogo, e brasa, e lenha... Que haja força para os músculos correrem até os tesouros de nossas vidas, para os perdões que o orgulho encarcera, para os grilhões que a inapetência constrói nos covardes de alma. Que venha o avesso a cada pessoa machucada por nossos ataques, intencionais ou não. Reviremos o avesso quando no espelho a imagem parecer distorcida, e os desejos e vazios já não produzirem respostas. Quando no estômago perambular um restolhar gélido indecifrável. E que no afago haja compreensão, e não ânsia de engrandecimento, fome de completude. Que a amizade e o amor, estações distintas de uma mesma essência, sejam a flor colorida do mais tenro sentimento humano: a preocupação. A candura primordial. Flor, pra além do fruto. Um brinde a arte dos homens, sobretudo a arte escondida nas sombras de artistas tristes. E a grande árvore de raízes crepitadas abandona a seiva, e se despede da última folha corajosa...&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt; &lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;E os Mantras de Outono se dissolvem no tempo, abraçando a morte.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;(Encerrarei aqui as atividades do blog. Queria agradecer todo o tempo gasto lendo minhas linhas, agradecer pelas críticas, elogios e comentários, foi uma fase muito interessante e um trabalho feito com muito carinho. Obrigado!)&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-5697585735933408339?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/5697585735933408339/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2012/01/mantras-de-outono_5168.html#comment-form' title='11 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/5697585735933408339'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/5697585735933408339'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2012/01/mantras-de-outono_5168.html' title='Mantras de Outono'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>11</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-5742005260839461387</id><published>2012-01-20T01:52:00.004-02:00</published><updated>2012-01-20T02:22:08.231-02:00</updated><title type='text'>Insônia</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;img src="http://fc08.deviantart.net/fs10/i/2006/125/7/d/today_by_insonia.jpg" /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;O meu luto são esses olhos bem abertos, que piscam vagarosos como a lua em sua derradeira insônia. Lentamente, os cílios se beijam e tão logo se odeiam. Não há convite para lágrimas trilharem o abismo do rosto, não querem passar pelas cicatrizes invisíveis cravejadas nesses ângulos. Porque todas as fontes que deságuam nesse interior, e no interior do interior, foram bulidas ao ínfimo espaço que preenche o vapor quente que sai da minha boca e embaça o vidro do relógio. O líquido para me lavar já não existe. E também cessaram os gritos, os punhos fechados desferidos na parede nua a me presentear com escaras e cascas, tão menos dolorosas. A violência, avesso do âmago, também é o avesso da ventura: está ali, derrotada, sem energia para o giro das engrenagens. Então vocifero os maiores insultos para os outros, e para os amigos dos outros e amores dos outros (meus personagens); no entanto, sou o único e solitário ouvinte. Apenas meus ouvidos restaram para o clamor cansado da minha voz. Imagino suas faces estupefatas diante da verborragia lapidada em ofensas pontuais e consigo lá no fundo de qualquer canto sentir o tênue gosto ácido da vingança tardia. Mas no fundo, sou o único ouvinte, e ponteiros me dizem para dormir. Não. Os medicamentos tantos repousam nas caixas vazias em gavetas escancaradas. É essa pupila dilatada na madrugada quente que se vê no espelho. Um grande círculo preto, minha porta para o mundo. Culpada, portanto. E no fim não se reconhece, entre tantos traços mutáveis do animal-semente que foi descascado até se descarnar a vaidade. O homem que se projeta diante de uma estrada com os pés descalços, fantasiando futuros altaneiros; e sente a terra, sente o vento de todas as estações, mas a natureza não lhe pertence e não o deseja. A natureza é a incógnita que me repele, é uma intrusa. A subtração de mim, o universo menos eu. O meu luto são sombras numa rosa que engolem as trevas, sombras independentes da luz. Mais escuras que as trevas. E quantas sombras uma rosa pode ter? Sobretudo uma rosa condenada a perder suas pétalas todos os dias, todas as noites, forrando o assoalho com uma serrapilheira de podridão na qual se alicerça. Assim vão se desfalecendo suas raízes e caule, mas os espinhos se tocam e se ferem continuamente numa espiral de dor. Meu luto, salvaguarda primordial! São figuras transitórias entre o pavor da solidão e a tenra piedade, piedade própria, que sobrevive até mais que a esperança. A companheira final, que constrói esse cárcere invisível. Lúgubre silêncio que se come, que se cospe, que se devora a cada dia num martírio penoso e voluntário que me faz caminhar sem rumo em ziguezagues na tábua corrida, estreita. Casa pequena, essa alma pequena. E eu aqui, maestro da sinfonia com os rangeres pra lá da meia-noite. Tudo goteja e não sei onde, a madeira dilata em estalares sem ritmo e contrai em rachaduras, o coração tépido bombeia a essência que não aceito de bom grado. O luto se eterniza louvando memórias de passados felizes, costurando-as a outras memórias de passados inventados num caleidoscópio que só pode ganhar vida através da arte. A arte me engana e me reinventa, acalenta – preciso, pois não há outros olhos para se apiedarem. A verdade imiscuída nas lembranças doentias, onde? Espero que muito, muito distante. O telefone dorme, mesmo que eu o fite durante todo o tempo. Das janelas não chovem palavras (mas eu trovejo), tampouco os joelhos dobrados em súplicas de perdão imensurável. E das portas não entram arrependimentos nem cartas nem beijos muito menos presentes de aniversário. Vou me dissolvendo no nada, como a poeira que viaja nos dedos de luz da manhã, sendo sugada pelo lençol amarrotado nessa cama quase túmulo até o fim do nó, coleira e sufoco. Então surge aquela pergunta abissal, que coça gânglios nervosos. Aquela pergunta...&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-5742005260839461387?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/5742005260839461387/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2012/01/insonia.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/5742005260839461387'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/5742005260839461387'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2012/01/insonia.html' title='Insônia'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-6135272804893138613</id><published>2012-01-08T21:10:00.008-02:00</published><updated>2012-01-08T22:46:10.386-02:00</updated><title type='text'>Outros Fragmentos</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;b&gt;V&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Deambulava como uma serpente entre arbustos, entre suspiros entrecortados por fumaça. Uma folha morta que acaricia o vento de outono. Onde o outono existe, ali dentro, eternizado. Seu corpo ressequido exibia um formoso vestido de qualquer material brilhante, escarlate e de marca pobre. O conjunto todo era um quadro estranhamente deplorável: algumas ondas de pele flácida suicidando no precipício da roupa justa, sem êxito, porque a angústia de morar naquela carcaça não permitia a mais singela e apraz tentativa de fuga. E os olhos, exageradamente sombreados, realçavam os aspectos mais escuros de seus traços, a pelugem que forrava o pescoço despido de colar, e manchas violáceas. Ele, submerso em algum tipo de êxtase silencioso diante da figura incomum, sentiu o toque gélido dos dedos tortuosos da moça na sua mão esquerda e, naquela fração infinita de gesto, percebeu-a acariciando sua aliança dourada como tentáculos. Lentamente, circular... Abandonou o cigarro no firmamento e se sentou, curvada para frente, obtusa, ignorando a mesa que os separava.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;- Ah, hoje lá fora está tão quente! – sua voz roufenha eram tons envelhecidos e atropelados, e a gesticulação que a acompanhava levava suas mãos aos cabelos para uma desgrenha de fúria contorcida e retorcida – Nesses dias meu ânimo fica completamente alterado... Fico suando e a pele fica grudenta, as pessoas passam de mau humor, te olhando feio, falando sobre você pelas costas. Trombam de propósito, tentam te assaltar quando você está toda distraída limpando a testa molhada e vendo ao longe se o ônibus passa – Abriu um sorriso débil e amarelado, e a respiração que saia pela boca cantava a arritmia histérica – Tudo em vão, esses idiotas, o que eles poderiam conseguir roubar de mim? Ultimamente tenho levado poucas coisas na bolsa: a carteira quase vazia, um pente de cabelo, uma escova de dentes, sabonete e papel picado. Sabe, às vezes acho que eu deveria me defender, mas fico com medo de guardar também um canivete e acabar fazendo bobagem...&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;O semblante do homem permanecia inalterado, ainda que os músculos tamborilassem em frêmitos imperceptíveis na pele. Enraizou os cotovelos na madeira do móvel entre eles, demarcando o território que posicionava os atores da peça. Para camuflar a investida talvez imperiosa em demasia, abriu as palmas das mãos na direção de Vera, mostrando que estava aberto à escuta e predisposto a ajudá-la. Conscientemente, ela não parecia ter compreendido o significado daqueles sinais.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;- Qual a razão de guardar papel picado?&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Ouvir a indagação nessas palavras pareceu doer profundamente. Ela agora se via estupefata em suor frio, com o olhar paralisado num globo de pouca pálpebra, buscando abrigo em algum ponto do universo próximo ao chão, tão longe dele. O silêncio que viera tinha muitos cúmplices – todo o cômodo e a cidade margeante que espiava pela única janela de madeira antiga, lustrosa e lapidada. A mulher varreu a sala mirando os móveis e as paredes guarnecidas de quadros randômicos e deu olhos para tudo. E todos os quadros passaram a observá-la e todo o tapete esperava para ser pisado e todas as gavetas abririam a qualquer momento cuspindo papéis e segredos, os seus. Abraçou-se com os braços que tinha, dois, não muito, jamais o suficiente. E por um momento aquele avesso de som foi sendo sucumbido pelo arfar da dilatação e retração do peito doloroso e dolorido. Quando tudo foi bulido à erupção, ela ainda mantinha a cabeça curvada para o assoalho, misericordiosa em si mesma.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;- É minha forma de deixá-lo aos pedaços... Todos os dias acordo, bebo duas xícaras de café e um pão duro, puro. Uma metade da metade de um pedaço eu transformo em mais duas metades. Acabou que virou um hábito, sabe? Veja bem, não diria que eu sou uma pecadora por fazer metaforicamente o que ele fez em ato. Eu o rasgo simbolicamente através dessas migalhas que um dia formaram uma carta em que ele me rasgou prontamente, sem direito a gritos. Eu, mesma. O papel me rasgou toda, em milhões ou bilhões ou trilhões, não sei, de pequenos fragmentos que jamais se colarão, tal como esses picadinhos. Assim que é bom, porque nem no meu maior delírio eu poderei remontar novamente a carta. Ela está aqui, na distância de um dedo, mas são palavras mortas, e eu as mato de novo todos os dias depois do café. E o que sinto? Deleite...&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;- Mas para as palavras morrerem realmente elas precisam ser esquecidas. Ou até lembradas, mas superadas. Foi o que você fez?&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;- Eu me peguei pensando que essa luta em preencher o vazio essencial, que empurra as pessoas na busca pelas outras, é uma estrada que termina em dois precipícios, um na ida e outro na volta. Você deve concordar! – vociferou em alto tom, fazendo ecos reverberarem nas quinas com impacto, ao mesmo tempo em que raspava a nuca com as unhas, deixando rastros avermelhados e divergentes no terreno já erodido – Há egoísmo maior do que esperar que uma pessoa seja sincera e protetora e fofa e carinhosa e preocupada todo o tempo? Há, na verdade há! Esperar que a pessoa seja confiável! E que partilhe tudo, eis a maior ingenuidade dessas relações de barro que a gente vai construindo. A confiança é a tentação do egoísmo, água onde nascemos mergulhados. Você deve concordar!&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;- A confiança não pode ser filha do altruísmo, mas desconstruída por uma sombra, o sentimento de posse?&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Vera cruzou as pernas e a cabeça pendeu para trás, a fitar o teto. Seus lábios pareciam incomodados, crispados num nó de pouca carne. A garganta se irritava com algo, como se um comprimido grande fosse e voltasse em gangorra, difícil de engolir. Então pensou em comprimidos, remédios, drogas, fugas e alívios imediatos. Mas queria o sono eterno dos mortos, natural como o destino dos vivos, mas com direito a arrependimento. Ou com direito a ver as lágrimas das pessoas rodeando o túmulo num tumulto alvoroçado. Que viessem em tempestades! E ela ali, fantasma, atrás de qualquer pedra, no regozijo da vingança silenciosa, dos pudores cuspidos, da verdade tão descascada até a semente invisível. E entre os devaneios tantos que alguns segundos podem comportar, ela sentiu o aroma de jaspes. Sem nunca ter visto um. Provavelmente não possuem aroma. Mas sentiu, e era seu, em significado e significância. O aroma que o mundo deveria ter.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;- Sérgio era um homem na linha, pelo menos na linha dos mansos... Mas você nunca realmente conhece a pessoa que está ao seu lado, não é mesmo? Não até ela te mandar uma carta dizendo que fugirá e levará as filhas porque simplesmente não a suporta mais. Ah, Sérgio! Quanta força, quanta bravura, quanta maturidade! Não, não, não, essa linha que ele andava fez curva pra lá depois pra cá e ele foi longe, nem sei pra onde. Agora é que o conheço como deveria: patético, rastejante, corrupto e, entre todas as coisas e mais que todas as coisas, a repugnante característica dos fugitivos, a mesquinhez! Que me esperasse acordar para que enfim despejasse as ofensas todas mirando meus olhos! Tudo bem se eu tivesse que ouvir tudo em silêncio, mas deveria ter o direito de desferir-lhe um olhar de ódio, de frieza, de indiferença, ou de pesar. Um olhar, último, e isso me foi negado. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;- E o olhar que gostaria de dá-lo é esse que você me mostra?&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Ela gargalhou, enquanto erguia-se da cadeira. Ondas tônicas que cuspiram sua língua ao ar, latejante, tal qual cadela. Titubeou meio arqueada, orientando-se nas próprias dimensões mais uma vez, que por alguns minutos permaneceram adormecidas. Quando a situação risível teve seu fim, restou o uníssono germinar de uma sílaba morta, indecifrável, emaranhando raízes infinitas. Que comporia uma poesia em hecatombe, feita por um poeta de pés descalços na paisagem mais bela entre todas. E tão bela a poesia também! Mas sem leitores, nem mesmo o próprio poeta. Ele teria perecido à sensação dos pés, o contato execrável com o destino de tudo.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;- Querido... Eu por acaso mostro um olhar de prostituta?&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;b&gt;VI&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Quando vi aquela parede de onde cascateava uma fúnebre luz vermelha eu ainda não sabia que toda a felicidade da vida de amante iria em breve se esvair. Fiquei à espreita como realmente um animal qualquer fica num ambiente novo. Ele correu para o banheiro num trejeito tosco para despejar a cerveja da bexiga. Vi de soslaio. A cama era só um colchão grande e duvidosamente branco com almofadas pretas onde deveria estar uma bela e grande e espelhada cabeceira. Se eu fosse a sua mulher. Deitei-me e me virei para a TV pequena bem próxima ao teto. Esperei alguns segundos. Embalada pelo som irritante do chiado da dissintonia. Adequado. O homem engatinhou até mim para dar início a ventura que era o objetivo de tudo. A língua de fora meio que respirando. E deixou o chiado como a melodia daquilo. Todas as palavras e mensagens e flertes e surpresas e promessas de outrora eram as arestas do monumento que ele queria erguer ali. E destruir depois. E já estava todo erguido. Encostou a mão na minha e me pediu que o beijasse. Posição desconfortável aquela entre o sentar e o deitar. Aproximei-me e ele negou com a cabeça sem olhar para os meus olhos. Ali dentro nem sequer por um segundo conseguiu me fitar nas mais diversas alturas que eu propositalmente me colocava. Levou minha mão com chaga num pequeno montículo dórico e torto entre suas pernas e eu enfim entendi que ele queria que o beijo dormisse ali embaixo. Fiquei estupefata e todos os meus princípios poucos porém longevos queriam emergir para vociferar insultos e gritos. Não. Deixemos as reclamações para depois! E as lamúrias recalcadas para a madrugada... Então fiz. Bem. Com a nuca voltada para ele eu não poderia saber que tipo de feição ele fazia. Prazer ou angústia. Ou os dois. Não era importante. Ele deveria estar assistindo ao chiado que salpicava branco no fundo preto. Quando voltei para beijos propriamente ditos e clamorosos as roupas deslizaram pelos corpos de pálpebras embalsamadas. Não houve encaixe nem comunicação e quase nem contato. Já que o arrepio era elétrico e lembrava o prelúdio da descoberta de um segredo atroz. Tortuoso e obscuro como o que não deveria existir senão nas imaginações depravadas que coçam as quinas da mente. Eu ali... Convicta da história mais silenciosa e solitária que meus atos deturpados já escreveram em letra feia. À deriva das sensações que um dia me foram dadas apenas para provocar o apetite de mulher primitiva e encarcerada que sou. E então essas vontades são sanadas e perdidas num abismo de avessos. Não. Não havia uma história minha. Era a dele. Intrusa no cotidiano de um homem repleto de responsabilidades e convicções. Desejos e família. E a atração se deu já que eram itens que eu não detinha e talvez nunca. E quando o travesseiro amigo se dispunha a ouvir segredos ele sabia que o que eu desejava era ser a primeira. Nunca houve maior tolice para se pensar. Tampouco em devaneios essa seria a minha conclusão. Amor? A flâmula na virilha lassa se esfriou. A pira de marfim desfalecida. Cândida e quase virgem nesses ritos ardentes. O tesão fugaz amoleceu-se num triste não-jorro e gozo de líquido nenhum. Mas de angústia pela vergonhosa pequenez de tudo. Vestir a roupa! Vestir a roupa! Sem olhares. Fez mosaicos de argumentos pífios para acalentar mais os próprios ouvidos do que os meus. Meros objetos. Altaneiros nos disfarces das conveniências adultas selamos enfim um último abraço na maior distância possível em que cabem dois seres que se tocam. Já no carro me inclinei para pensar nas fanfarras dos meus próprios infernos. A paisagem dançando lá fora de felicidade diante da comédia que somos. Transeuntes rindo de quê? Fui semeada com cinzas dos restos! E raiada nesses mesmos restos! Sou compassiva do meu ser salobro e bizarro e nada mais reservo para os homens (e mulheres) senão o complacente sorriso de quem se deixa dominar.&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-6135272804893138613?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/6135272804893138613/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2012/01/outros-fragmentos.html#comment-form' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/6135272804893138613'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/6135272804893138613'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2012/01/outros-fragmentos.html' title='Outros Fragmentos'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-4893855007178257689</id><published>2011-11-20T00:30:00.012-02:00</published><updated>2011-11-20T18:17:00.155-02:00</updated><title type='text'>Fragmentos</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center; "&gt;&lt;div&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;I&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;p class="MsoNoSpacing" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Primeiro ele se aproximou até que os olhos fossem globosos como o mundo, a fitá-la num interesse para além daquilo, que viajava sobre algum ponto inalcançável do universo. Depois, acariciou a cabeleira desgrenhada da mulher, polindo seu couro com as falanges macilentas enquanto revirava qualquer coisa em lábios descarnados. Que porventura se alargavam em risinhos interrompidos. Os dela, um risco duro em madeira escura, deitavam quietos sobre o abismo da voz. O plano mais engavetado de sua consciência quis vociferar insultos, levantar da maca e ir embora de supetão. Nada a impedia. Mas aquele acordar do avesso, de gosto estranho, pareceu ter desconectado-a do que talvez chamasse, um dia, de sua única e verdadeira essência. Tudo o que fez foi nascer no ventre do silêncio e anestesiar as dúvidas com a curiosidade indiferente de quem a vida se faz surpresa pouca. E ficar ali. O semblante do homem revolvia-se e engolia-se para cuspir feições da candura ao pavor, do fogo ao pétreo, masculino e feminino imbricados. E ele se movimentava sobre o aposento de luz fraca procurando extensões de si como um moribundo desesperado. E os risinhos. Vera lembrou-se que era Vera, que era velha, que era fraca, que era suja e burra pouco menos que uma pedra. O senhor de súbito a encarava novamente, tão incisivo quanto outrora, e parecia discordar com veemência. Possuía olhos difíceis de enfrentar, que a fizeram fugir para o soslaio dos covardes. Viu que ele trazia pendendo no punho cerrado uma linha vermelha, que pendulava lentamente cantando os segundos como um filete de sangue que foge da morte. E então ela sentiu todo o sabor daquele cordão quando a agulha que ele escondia rasgou sua boca em ziguezagues desordenados. Era de uma umidade difícil de sorver, que ao precipitar sobre sua garganta seca ferveu as memórias do fundo e a levaram até Cenourinha. Seu único brinquedo, um coelho de pelúcia da cor do lodo. Sujeira impossível. Só possuía um dos olhos, e todas as vezes que Vera o notava melancólico em qualquer canto, eis uma fonte inesgotável de piedade inanimada – e por isso inesgotável. Abraçava-o com toda fugacidade dos abraços, no aperto embalado por ausências, e quando sua boca se encontrava com a pelugem do animal-mentira, era esse o gosto. Essa gota escondida que se suga com dificuldade. E agora também havia sangue, seu sangue, mas que não corria apavorado. Mergulhava, e o ferro era tudo que se sentia. Sem dor, sem incredulidade, sem martírios lúbricos. Sem dor... Como ela podia não sentir dor se ele havia costurado-a como seu mais primoroso espantalho particular? A cognição que destrói as falsas realidades denunciou, e ela partiu o pesadelo fracassado a contragosto.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span style="line-height: 18px; "&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Quando sentiu as costas suadas no lençol, veio a dor crucial da verdade. Inclinou-se rapidamente e tateou no escuro o relógio de cabeceira. O peito tamborilando numa síncope acostumada. O ar saindo pelos lábios livres da costura. Igualmente mudos. Vinte minutos haviam se passado. Queria horas, dias, vidas, mas o tempo a castigava tão somente por maldade. Na ausência de pelúcias e afagos, abraçou os joelhos e rezou a Deus para que o pesadelo acabasse. O pesadelo essencial.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;b&gt;II&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Vera,&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Não vou dizer que essa carta foi um ímpeto fácil, desses vômitos que nascem das bocas em fúria. Foram noites em claro, foram noites suspiradas, foram noites que se delongaram como um inferno gelado me queimando dia após dia. Mas há nos adultos essa coisa de tentar tampar as verdades com os dedos entreabertos enquanto o outro insiste em fechar os olhos com força. E é isso que nós dois fazemos, é isso que nosso casamento se tornou desde que foi consumado. Consumindo tudo até as cinzas em que nos afogamos sem perceber.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Éramos pouco mais que crianças, éramos apenas quase jovens quando decidimos com muita ignorância costurar nossos destinos nesse nó cego! Como haveríamos de ter a maturidade suficiente pra prescrever o futuro? A única coisa que eu sabia sobre você era das suas curvas morenas e dos nossos beijos. Nunca soube de fato quem você é, e diria que não sei até hoje. Não sei o que a compõe, essa matéria dissimulada que ergue esses muros no contorno. E ninguém passa. Nem você mesma. Não sei o que acontece dentro da sua cabeça, do seu coração. Você vive todos os dias com uma maquinaria robotizada e enferrujada, placidamente social, e quando surge até mim os beijos agora secos - eles não são nada além de tempo escarrado num ralo qualquer.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Isso que faço não é uma vontade recente. É tão antiga quanto eu e o tempo que lembro de você. Só que, essa noite, sonhei com sua morte. Uma gangue de ladrões entrou aqui em casa e disparou todas as balas de todas as armas do mundo no seu corpo. Eu, ao longe, ouvia os barulhos como quem ouve uma sinfonia em melodia rara. Quando acordei, Vera, senti sua respiração e lamentei! Quase até chorar! Lamentei como um homem que pragueja contra a própria fé.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Não tenho piedade em fazer essas linhas porque já imagino sua feição que só se limitará a erguer as sobrancelhas num atrevimento comedido. Sei que não haverá lágrimas, nem palavras, nem telefonemas, nem procuras, apenas a interiorização de tudo para a introspecção no seu mundo, onde você realmente vive. Sua intimidade vazia.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Meu único pesar é pelas crianças, mas elas também não merecem essa família de porcelana. Tenho medo que elas herdem seu caráter podre, e por isso as levarei comigo. Embora pode ser tarde demais... Talvez você até goste de ficar sozinha, talvez encontre paz dessa maneira. Não adianta me procurar, ou colocar a polícia atrás de mim. Não me encontrará, nunca me encontrou.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Guarde essa carta como prova da minha derrota, de que tanto me orgulho. Eu tentei, Vera, eu tentei, mas você é quebrada e eu não me acostumei a me cortar com seus cacos. Você não funciona, é errante, é devastada, é um erro implacável que eu me recuso a cometer novamente. E eu vou me perdoar, acredite.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Adeus,&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Sérgio.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;III&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Subir aquela rua – só com esses passos de quem finge não ter pressa. A menina Vera defletiu a cabeça em direção ao véu negro salpicado de pequenos pontos brilhantes. Gostar de estrelas era um bom refúgio. Preferia as nuvens, agora camufladas na treva, que quando banhadas pelos dedos do Sol pareciam esconder qualquer mistério execrável no dorso. Vera se perguntava se haveriam de viajar ali as pessoas mortas, num jazigo flutuante. Se um dia veria o mundo de tão alto. E seguia a contar estrelas, contando estrelas, contando estrelas...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;O portão era uma tábua de madeira sempre aberta e sempre emperrada, em que ela precisava usar toda a contração parca de corpo marasmático e exausto pelo dia de trabalho para enfim movê-lo alguns centímetros. Ao passar através da pequena fresta, esgueirando-se como um lagarto furtivo, outra pequena elevação do lote se erguia a sua frente. Por um momento buscou dentro de si qualquer fonte de força abissal, ares quentes e impulsos de origem desconhecida, porque lá dentro do âmago crepitava o medo da noite.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Um grito, desses de entranhas massacradas, irrompeu das janelas do casebre como um sopro de morte e ceifou devaneios. Por um momento Vera pensou em correr, fugir, dormir na rua, desistir. Mas o dever era seu mais hábil ventríloquo, e as linhas estavam em todos os lugares. E o estrangular completo se ousasse fugir era o horizonte em que se via. O dever de filha mais velha. E quando a mais nova lhe veio correndo e a cabeleira hirta estapeando o espaço na desordem toda que tudo era, sabia: o usual prelúdio de qualquer tragédia diária. Não sabia, era mais: a hecatombe.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;– Vera, vem logo! – pavoneou e exibiu a bocarra suja de criança, sua irmã, dois anos mais nova e cem anos mais jovem – É a mamãe, Vera! Ela tomou alguma coisa de um vidrinho e agora tá lá no chão, acho que tá morta!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Era mesmo a mãe e estava mesmo morta. A mulher parecia um amontoado de qualquer coisa e panos e cabelo embalados num sono fugidio e pálido, meio curvada no assoalho como quem sente a ardósia gélida demais. Em algum momento ela deveria se acostumar. Derrisória paisagem, mas não o suficiente para lágrimas. Ali, uma vírgula humana entre as próprias reticências. Não havia no seu rosto expressão alguma, mas a aceitação tenra de quem não contrai músculos nem vísceras. O vestido era do tecido da noite, calcinado de quaisquer tarefas doméstica extasiantes, que ela usou com frequência nas semanas anteriores. Luto?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Vera afagou a caçula roufenha a chorar em pânico, afundando com força o rosto da menina nas suas vestes agora empapadas. Os sentimentos imiscuídos eram menos que aquele vômito de silêncio, o paraíso de que sonhara. Caso a irmã interrompesse os berros. Seu mestre invisível, o ventríloquo, fez dela somente movimentos precisos e mais linhas e responsabilidades. Havia uma inveja pela libertação, a querela de um suspiro de onde vem essa anátema persistente. A fruição das sensações era mais vertente do ódio que do amor, a mãe amaldiçoara-a com seu egoísmo. Não a culpava.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Na madrugada que veio e passou, elas ali sentadas numa quina da cozinha. Abraçavam joelhos, imaginando os passos seguintes na neblina escura, a revolver uma fraternidade colossal nunca antes existente, quando os estômagos gritaram pela fome crônica. E entre os vasilhames poucos de arroz e outras coisas, também havia comprimidos. Comprimidos em todos os lugares, esfarelados sobre todos os alimentos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Derrisória paisagem, suficiente para lágrimas.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;IV&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left; "&gt;&lt;b&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left; "&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Ele lambia os cantos da boca como uma hiena.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;– Você precisa muito desse emprego?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;– Muito!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;– E qual é o motivo?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;– O motivo é que sou a melhor para esse cargo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;– Ousada, ousada...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;– Sincera.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;– Até onde você estaria disposta a ir para tê-lo?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;– Até onde o senhor iria para me testar?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;O homem de gravata prata fitava a saia de Vera e sua pupila se dilatou. Prendeu-a pelos punhos e colocou a mulher na mesa, encurvada. A despeito das formalidades, a moça de dezoito anos ensinou para ele o caminho até a umidade que guardava entre as pernas. Foi fácil passar pelo conduto de barreiras tantas, e de dois se somaram por fim em um.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;– Quantos dias você trabalharia por semana?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;– Todos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;– Você é casada?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;– Talvez.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Gemidos em suspiros derradeiros, farpas de vento no espaço morto. Vera não sentia prazer, tampouco seu fôlego se imiscuía com aquele atrito indiferente.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;– Têm filhos?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;– Talvez.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;– Conheço seu tipo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;– Talvez.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span&gt;&lt;div style="text-align: justify; "&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;– Entendi, entendi. Está empregada. Volte amanhã.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-4893855007178257689?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/4893855007178257689/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2011/11/fragmentos.html#comment-form' title='18 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/4893855007178257689'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/4893855007178257689'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2011/11/fragmentos.html' title='Fragmentos'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>18</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-5240091120166264211</id><published>2011-11-10T22:42:00.011-02:00</published><updated>2011-11-18T17:29:08.387-02:00</updated><title type='text'>Retrato</title><content type='html'>&lt;img src="http://fc01.deviantart.net/fs10/i/2006/327/b/3/another_portrait_by_Neizen.jpg" /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Ele foi buscar qualquer coisa na cozinha e me deixou ali. Estratégia maliciosa... Alguns minutos naquele quarto já seriam o suficiente para que eu não viesse a emitir quaisquer sons no seu retorno – a mais tenra tentativa de diálogo seria reduzida a uma conversa meramente fática. Talvez gemêssemos. Iríamos direto ao ponto, e depois do ponto, direto aos beijos de adeus definitivo. Ao mesmo tempo, aquele gesto de polidez falsa exibia, sem o demorado e inconveniente recurso das palavras, seu sustentáculo de homem firme, chefe de família e imperioso no reino que só dança ao sabor da sua vontade. E volúpias. Quando as intimidades se emparelhassem para assinar o contrato breve do prazer, nada precisaria ser dito nem tratado. Como se sua voz fosse o próprio silêncio: eu mando. Você, puta recalcada e burra, obedeça e vá embor&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Ah, querido, não pense que isso me ofende. A liberdade é um doce em drupa gorda. Desses que mais escorrem fora da boca do que dentro. E essa indignação que você projeta em mim, e exterioriza tão não galantemente, nada mais é do que o seu faro virgem invejando o meu melado que vaza, tal excesso em cachoeira. Liberdade é um balanço de criança de largura infinita oscilando em nuvens brancas, ancorado em tudo, controlando as direções em que o mundo se expande. Enquanto o seu se contrai até esse quarto agora quase leito do pecado. A infância dos desejos é onde eu vivo, não migrei para a infâmia onde você me quer. Não tenho limites porque limites me transformariam num todo indesejado e eu me tornaria um outro eu, cheio de pontas remodeladas e adestradas. Não, prefiro essas ranhuras que sangram. Que fazem poros e me conectam a mim mesma. Revolvo o destino nos dedos, mergulhando-o no caldo do que é execrável, animalesco, instintivo, atroz e incompreensível. Isso porque já estou totalmente afogada, meu bem, e suas palavras não chegam aqui tão fundo. O que eu quero de você são movimentos. Você, homem de superfície, existência comum. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Um cômodo grande, móveis caros e uma arquitetura simétrica como a fuga e o tempo. Nenhuma poeira, senão minhas partículas descamando no tapete felpudo. O cheiro era algo entre a essência da lavanda e da menta, misturadas, quase agradável. Um palácio estéril pronto para a mácula. Mas algo ali ressonava, inquieto no avesso do sossego, reverberando para me expelir do ventre. O corpo estranho, destruidor do firmamento familiar de ruínas remendadas. O aborto do mais profundo querer. Meus dedos raspavam na madeira que gemia no atrito tentando cravejar as farpas sem sucesso. As fotos encaravam-me num fitar de fúria, presas nas molduras plácidas. Todas amontoadas num palanque marmóreo ao lado de um espelho elipsóide. Meio escondidas, presas no soslaio por onde a mentira olha. Fui encará-las. Entre tantos eventos randômicos de felicidade duvidosa, um retrato das filhas.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;A caçula era mais parecida comigo, havia herdado o mesmo sorriso forçado. O lábio superior pendia tosco e a boca toda era de um róseo tortuoso e esfarelado. Abraçava a primogênita para arrancar vísceras, mas a irmã era um raio quieto – semente da indiferença do pai. Aquele olhar com a pálpebra na altura média e as sobrancelhas pontiagudas era o algoz de tudo. E de tudo e entre tudo, desorganizava minha já bagunça interna com mais primor. O aviso da ira: mesmo estapeando-a, permanecia. De mim, a agora menina deflorada imitava a voz roufenha, mas com venal elegância. Era a lótus para o mundo, flutuante e serena onde os pés houvessem de pisar, imiscuindo e encantando e beijando e traindo e chorando e com vestidos floridos dançando, dançando, dançando. Por vezes via Bruno latejando olhares, desejando que eu fosse ela. Não ela envelhecida. Ela. Em toda a extensão que isso me cobre em noites como essa. A pequenina era o restolhar de uma confusão mal ordenada, e todos os dias seus dramas de criança eram explosões desconexas que só encontravam ouvidos em mim. Pelo menos a parte externa deles. É, é, é isso mesmo, jura?!, entendi filha, sim, sim... Inveja do pai, ourives pesaroso. Na madrugada, ao voltar do talvez trabalho, a menina cansada das algazarras do dia dormiria quieta. Única energia que tinha que desprender era num delicadíssimo beijo na testa, sem jamais acordá-la.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Como eu queria a sombra! Morar na sombra, vendo a luz de longe. Vendo a luz como quem vê a morte, e morar na sombra como quem está vivo. Para que não me vissem. Talvez só assim me vissem. Sentindo o aroma perfumado da erva almiscareira, do amaranto e do ademais da flora eterna que desconheço. Ou qualquer outra profusão de sensações. Rasgando a pele no gramado dos prados longínquos, rodando sobre as curvaturas das curvas e esquinas de mim e então vasculhar os abismos e as cascas do passado.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Naquela fortaleza de miséria, o único horizonte disponível era no espelho de outrora ele surgindo e me pressionando contra o seu corpo, evitando meu rosto e concentrando na nuca. Quase me dobrando a ponto de derrubar a velhacaria toda no móvel com as fotografias. &lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Era um belo homem, mas não sorria. Ele estaria mais feliz se minhas costas fossem minha frente. Eu também.&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-5240091120166264211?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/5240091120166264211/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2011/11/retrato.html#comment-form' title='17 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/5240091120166264211'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/5240091120166264211'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2011/11/retrato.html' title='Retrato'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>17</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-2795044794632534045</id><published>2011-11-05T21:44:00.004-02:00</published><updated>2011-11-08T17:51:07.236-02:00</updated><title type='text'>Caricatura</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNoSpacing" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Eu porventura acordo com os olhos fervendo esperando a mudança de tudo. Pois os dias ainda deságuam na repetição imbricada de sempre – essa coisa de eu levantar e distribuir as partes de mim incompletas e quebradas para silhuetas igualmente desconhecidas, e então me afogar no etéreo gosto da pequenez disfarçada. A que ignora a fugacidade de tudo, a inconstância das pessoas, a inveja recoberta pelas cortinas da polidez, a violência que turbilhona o cosmos passando na frente dos olhos que insistem em piscar na hora exata. Qual a origem dessa carência abissal? E quando sento e fito a solidão – eis um encontro comigo mesmo, mais fugidio do que ansiado –, fico assustado por ter me desligado tanto de minhas bases. Já que me fizeram acreditar em bases, estou mais trôpego a cada manhã. E quando me pergunto quem eu sou, buscando-as, ouço a respiração arfada revolvendo a garganta e saindo pela boca, e nada mais. Ou talvez algum sentimento indecifrável no estômago, um tamborilo confuso e gelado. Não sou o que eu descrevo, nem o que sou descrito. Nem isso. Sou tudo como uma soma que diminui os montes empilhados ao vazio interno do pó, um ator exímio numa peça nômade, repartindo a atuação pelos cenários tantos. Começo a jornada um amontoado de matéria reciclada que vai descobrindo uma habilidade qualquer que retumba voz no crânio, que ensina: a morte é mais certa que o abraço amigo em noites de lágrima, sua importância para o mundo é equiparável a um grão de qualquer coisa, e que a certeza dos sentimentos de quem se ama de forma imprecisa é tão imprecisa quanto um dado lançado no chão liso. E tão logo essa certeza se enraíza, a fuga começa entre o que fora germinado. O espaço além, o vácuo preenchível somente por mentiras. E aqui é tão mais agradável, tão mais povoado! Penso que a racionalidade carrega consigo a maldição de não se saber lidar com o abstrato. O que há dentro da casca não é visto ou compreendido, a beleza do acaso genético ou sua ausência descrevem tudo o que um sujeito é. O destino então existe. Tudo mais são adereços, a roda da fortuna é um rosto belo que se desfaz no tempo. Porque precisamos dar forma a tudo para que a segurança frágil se complete. Dar forma a insegurança só poderia ser numa carcaça dos restos de nós. Frágil, pois essa forma só são os outros, uns mais ou menos afortunados, que trocam expectativas inalcançáveis porque as palavras não sobem. Ou sobem outras palavras, deformadas pela subjetividade inexprimível. Descompasso que sempre culmina num dia de tristeza, da qual todos correremos a passos largos. Esse fatídico fruto dos campos da veracidade. Não queremos aprender com ela, mas ela insistirá. Então, que compromisso eu haveria de ter com a coerência? Estou constantemente sentindo falta dessas palavras que não foram criadas, de órgãos sensoriais que não tenho, imaginando encontros improváveis e criando formatos de mim esculpidos pela vaidade. A mostrar ao outro algo que nunca fui, nunca serei, para então no universo em que mando eu, onde só eu moro, fingir que sou. Nisso o mundo roda, o verdadeiro. Essa briga com Deus pela unidade limitada em que me fez vai digerindo meus minutos. Queria ser vitral de todas as coisas, orgânicas ou não. Maldito é esse espaço pouco que eu ocupo, e portanto esse significado parco. Esse zodíaco previsível que gira com os planetas: os de pouco assoalho familiar se rodeiam de numerosos amigos de sorrisos fáceis e afagos fracos. Quem é traído quer vingança, quem se machuca um dia ataca, quem não tem fé se acha sábio. A identidade comum é inaceitável. Compremos fantasias! Mas quando a noite nasce, os esforços são em vão – no fim da jornada vamos dormir para experimentar um pouco da morte, em que as lembranças nada mais são do que retalhos disformes e sem significado em paisagens aleatórias. Quando acordamos, esquecemos a lição.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-2795044794632534045?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/2795044794632534045/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2011/11/caricatura.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/2795044794632534045'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/2795044794632534045'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2011/11/caricatura.html' title='Caricatura'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-7520679382368439637</id><published>2011-10-28T11:32:00.006-02:00</published><updated>2011-10-28T13:14:56.899-02:00</updated><title type='text'>Arte?</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;img src="http://th02.deviantart.net/fs7/PRE/i/2010/050/2/d/blood_tree_by_emohoc.jpg" height="550" width="400" /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Quando bateram na porta eu estava fazendo qualquer coisa muito humana. A última coisa humana. Meus olhos não puderam evitar o esbugalhar estupefato quando me deparei com um extraterrestre bem verdinho, com antenas pendulares e um sorriso simpático. Através de uma conexão cósmica sobrenatural, entendi suas palavras como se saíssem da minha boca e reverberassem nela mesma:&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="apple-style-span"&gt;&lt;span style="mso-bidi-background:white;font-family:Calibri;color:#333333;"  &gt;–&lt;/span&gt; &lt;/span&gt;Você foi escolhida para me provar que eu não devo destruir a humanidade. Com licença...&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Anuí – o que mais poderia fazer? Meu agora hóspede raspou os pés (de três dedos apenas) no tapete sujo, com uma polidez galante. A sala de estar que dava para a porta de entrada não poderia estar mais balburdiada, com todas aquelas roupas amarrotadas reunidas aos montes no sofá. Brinquedos das crianças em todos os cantos e migalhas da janta de ontem salpicando as quinas. Suas órbitas amarelas giravam em todas as direções daquela decoração atípica e meu estômago gelava. Não era um cartão postal nobre sobre as maravilhas da humanidade.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="apple-style-span"&gt;&lt;span style="mso-bidi-background:white;font-family:Calibri;color:#333333;"  &gt;–&lt;/span&gt; &lt;/span&gt;Eu acabei de preparar o café, você aceita?&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="apple-style-span"&gt;&lt;span style="mso-bidi-background:white;font-family:Calibri;color:#333333;"  &gt;–&lt;/span&gt; &lt;/span&gt;Sim.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Bebeu através de um sugador que nasceu onde deveria ser a boca, algo que me lembrou um desentupidor de pia. Quando o café mergulhou nele pela primeira vez, foi como se uma corrente elétrica tímida caminhasse pelo seu rosto. E veio depois um esboço de sorriso. Tentei não encará-lo, concentrando-me nas xícaras vazias da pia, mas ele parecia bastante à vontade. Arredou-me com seu quadril largo, lavou toda a louça e repetiu o café até não haver mais café. E então lavou tudo novamente.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="apple-style-span"&gt;&lt;span style="mso-bidi-background:white;font-family:Calibri;color:#333333;"  &gt;–&lt;/span&gt; &lt;/span&gt;Logo devo começar a fazer o almoço, se você quiser me ajudar a preparar...&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="apple-style-span"&gt;&lt;span style="mso-bidi-background:white;font-family:Calibri;color:#333333;"  &gt;–&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; Não posso. Já estou de saída...&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="apple-style-span"&gt;&lt;span style="mso-bidi-background:white;font-family:Calibri;color:#333333;"  &gt;–&lt;/span&gt; &lt;/span&gt;De saída? Mas... Você avaliou a sobrevivência do mundo nessa visita tão rápida?&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="apple-style-span"&gt;&lt;span style="mso-bidi-background:white;font-family:Calibri;color:#333333;"  &gt;–&lt;/span&gt; &lt;/span&gt;Claro que não! Esse é só um encontro de rotina, voltarei quando a senhora estiver dormindo.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;E ele então desapareceu numa constrição completa do seu corpo até mais nada existir, uma implosão silenciosa.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Busquei os filhos na creche para que pudessem sujar toda a casa com a janta requentada. Então vieram para dormir na minha cama, a meu chamado. Não era costumeiro, embora elas sempre insistissem, todos as noites, incansavelmente. Mas a candura das crianças poderia significar clemência e essa covardia toda poderia ser minha salvaguarda.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;E quando o gosto melado e ébrio do sonho escorreu pelo canto da boca e fez poça no travesseiro, ele estava lá, sentado numa cadeira tosca sobre a maior planície e a mais verde da Terra, com esse enorme cobertor de gramíneas que irritava os pés sonâmbulos. Quase camuflava, o E.T, enquanto acariciava as próprias antenas numa despreocupação turista. Um punhado de mil ou dois mil pássaros brancos de todas as espécies sobrevoava nossas cabeças como espectadores aflitos. Tampavam o céu. E os dedos do sol, os que não morriam ali, escapavam por frestas mínimas entre as ranhuras das aves, desenhando círculos esparsos no firmamento. Plumas choviam sobre o mundo e eu podia senti-las arrepiando meu corpo notívago.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="apple-style-span"&gt;&lt;span style="mso-bidi-background:white;font-family:Calibri;color:#333333;"  &gt;–&lt;/span&gt; &lt;/span&gt;Bem, é agora. Prove o valor dos homens.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;E algo dentro da minha mente já sabia o que fazer, um processamento de comandos e ritmos e movimentos que talvez estivessem gravados em mim desde o meu nascimento para que eu executasse ali, naquele momento fatídico. Onde o destino seria subjugado.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Acomodei-me na minha cadeira igualmente tosca e materializei uma harpa, a maior que eu consegui. E quando ela surgiu sua beleza paralisou tudo. O universo cravejou ali seus olhos. De sua ponta mais distante duas grandes asas de cobre planavam, e as plumas pararam de precipitar, medrosas. Suas curvas eram de simetria perfeita, marmórea e de brilho tilintando. Apologética. As quarenta e seis cordas paralelas eram delgadas beirando o invisível. Uma bela criação humana, ele haveria de perceber. Talvez a única, a arte. Todo o resto corrompe essências. Portanto eu me faria ser ouvida pela expressão do que eu era em tons desordenados. Os raios solares encontraram espaço e se acomodaram como ouvintes educados. Mergulhei no vazio de mim.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;Quando os dedos dançaram nas cerdas e vergastaram toda a sua extensão, o silêncio foi brutalmente rasgado, docilmente substituído. A canção era de um lúgubre agitado, como uma cachoeira que ferve. Retumbando em pedras grandes e turbilhonando por onde passa. Era imperfeita, como eu e todos. Um vitral com peças faltantes. Tropeçava e levantava em harmonias mais fortes e por vezes trovejava, sem calma, naquela planície desertada. Para enfim convergir numa brisa litorânea e perene. O alienígena nunca tinha visto cachoeiras ferventes e tinha medo de descargas luminosas, eu podia ver na sua feição. A música era aquela respiração contida da pessoa que ama, mas teme, porque respirar é permitir que o tempo passe. E depois dele vem o fim... O fim que está em tudo, renegado pelos amantes. Que leva as mãos de tragédia a tampar nariz e boca.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;E quando todas as incertezas humanas combinadas foram canalizadas e aspergidas ao instrumento, horas se passaram demoradas, e minhas mãos resistiam pouco naquela luta pra provar o eterno. Alguns filetes vermelhos pintaram o antes quase invisível, eis a pele frágil. E o sangue tingia tudo e o plumeiro era agora escarlate e caía novamente de terror. Mas os dedos se mantinham. Árvores vermelhas germinaram e tão logo germinaram suas folhas padeceram, e outras germinaram. Sulcos e fendas abriram no assoalho em direção ao infinito e os tremores abissais modelavam vales e montanhas e cumeeiras. Tudo era uma viagem ao caos, e depois um retorno ao nada para começar de novo. Rumo ao silêncio das coisas planas. E ele sentado ali.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;As notas exauridas, dissecadas e retorcidas, dramatizadas pelo meu âmago que nada tem a ver com o que é simples, eternizaram-se no longínquo poder da memória, núcleo dos homens e dos pesares.&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;O sonho terminou de rompante, como os sonhos fazem. No fim, ele voltou no dia seguinte e pediu mais café, fez sua última implosão, voltando satisfeito para seu planeta.&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-7520679382368439637?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/7520679382368439637/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2011/10/quando-bateram-na-porta-eu-estava_28.html#comment-form' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/7520679382368439637'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/7520679382368439637'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2011/10/quando-bateram-na-porta-eu-estava_28.html' title='Arte?'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-2723725046795463687</id><published>2011-10-23T09:23:00.002-02:00</published><updated>2011-10-23T09:25:19.806-02:00</updated><title type='text'>Fugacidade</title><content type='html'>&lt;img src="http://fc03.deviantart.net/fs71/i/2011/295/b/c/dye_by_imustbedead-d4dnv6l.jpg" width="640" height="380/" /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Naquele átimo impenetrável, em que tudo que existe se dissolve nos limites redundantes que separam dois caminhos. Ele quis tocar o queixo de sua donzela, mas tudo o que fez não foi mais que um sorriso estupidificado sem contornos, a emitir grunhidos. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span class="apple-style-span"&gt;&lt;span style="mso-bidi-font-family: Calibri;mso-bidi-theme-font:minor-latin;color:#333333;background:white"&gt;–&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; Você é tão linda...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;As têmporas eram gradualmente preenchidas pelo borrão escarlate da vergonha, tais palavras em vômitos assim atropeladas... Os pés da moça costuravam círculos trêmulos no firmamento gramíneo. Do outro lado, ela nada ouvia. Havia ali um pouco de uma sujeira bonita, barro puro que a ungia no execrável da beleza temível de se aproximar. Por isso ele grunhia tanto! Seu peito por onde fazia caminho aquela flâmula irritada era não menos um cárcere que o acorrentava em respirações rápidas, ofegos interrompidos e piscadelas de sustos entrecortados. Era como adoecer para se curar e então adoecer no instante seguinte.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span class="apple-style-span"&gt;&lt;span style="mso-bidi-font-family: Calibri;mso-bidi-theme-font:minor-latin;color:#333333;background:white"&gt;– &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;Se me dedicasse ao menos um segundo dos seus...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Adoeceu desde a primeira vez que a viu através do vidro da floricultura, ela embebida em candura cantando baixo para as orquídeas de plástico. O sintoma primordial foram os ponteiros paralisados. Ficou ali, extasiado pelas sensações novas que se dissolviam em suas artérias, ouvindo o coração bombeá-las num tamborilo em frenesi macerando a racionalidade pouca. Lá dentro, tão longe, tão perto, a moça estava sempre dançando ao ritmo das notas do silêncio. Seus movimentos não tocavam nada, tampouco o assoalho. Eram repetidas flutuações delicadas, como o beijo de uma violeta que abraça a morte. Era também qualquer coisa acima da dança, da arte e da humanidade. Carregava consigo a origem de todas as pétalas. O púrpura violento que era a cor de seus olhos por vezes encontrava o marrom plácido e triste do rapaz, em descargas tempestuosas que o faziam sentir um vento vindo de qualquer lugar, revolvendo pêlos e eriçando nucas e beijando-lhe a face seca tão secamente. Nas laterais da boca da bela jardineira por vezes irrompia o rascunho do nascimento de um sorriso. Mas então a quase certa ilusão se perdia nos abismos tantos da memória tendenciosa de um doente.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;&lt;span class="apple-style-span"&gt;&lt;span style="mso-bidi-font-family: Calibri;mso-bidi-theme-font:minor-latin;color:#333333;background:white"&gt;–&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; Voltarei todos os dias, e em todos eles repetirei. Eu juro.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Desaprendeu a caminhar, comer era um mergulho de esquecimento e os sonhos eram caricaturas randômicas. De lá pra cá pareceu largar partes de si porventura intrínsecas enquanto se desmanchava para renascer. Os dias se resumiam nas horas em que se prontificava a observá-la, como uma daquelas plantas, esperando o toque derradeiro que teceria o destino do mundo. Conversava um pouco com o vidro amigo e ignorava a porta sempre aberta. Sempre ali no soslaio, indicando o caminho fácil. Dar as costas era um rasgo de ponta a todas as outras pontas, seguido de muitos olhares por cima do ombro até o horizonte engolir tudo. Mas as margaridas estavam em todos os cantos, margeando tudo! Toda a botânica terrestre se voltava para abraçá-lo. A Terra era verde e outras cores e pensamentos que em segundos germinavam brotavam davam frutos e apodreciam e tudo novamente. Em extensos jardins voluptuosos onde um dia se deitariam. O gosto que desvanecia nos lábios era difícil de identificar. Antes de abraçar o sono com a dificuldade habitual, sempre se perguntava sobre sua origem. Desafio grande, deglutir a felicidade sem temor...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Ela chorava na calçada, a floricultura fechada. Seu semblante de cacos rachados podia ser visto por entre todas as ruas e quarteirões que recortavam a cidade. Tal tragédia que emanava! A lua matutina era um olho ao norte orando por ela, pois dependia dela a sua existência fugaz. Forças de todas as origens, de profundezas oceânicas e vulcões dormentes, ergueram o homem renascido em pernas ágeis num galope arruinado, enquanto poesias de todas as eras se transcreviam nas fibras latejantes: para que servem as flores, quando longe de seus vasos? E a moça e sua tristeza de motivo a saber foram apenas diminuindo, diminuindo, diminuindo, até a ínfima dimensão de uma semente nua e só. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Pois ele corria na direção oposta. Felicidade &lt;span class="apple-style-span"&gt;&lt;span style="mso-bidi-font-family:Calibri;mso-bidi-theme-font: minor-latin;color:#333333;background:white"&gt;– &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;essa fuga eterna.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-2723725046795463687?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/2723725046795463687/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2011/10/fugacidade.html#comment-form' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/2723725046795463687'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/2723725046795463687'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2011/10/fugacidade.html' title='Fugacidade'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-8231144987166755129</id><published>2011-10-15T21:35:00.008-03:00</published><updated>2011-10-15T21:58:45.634-03:00</updated><title type='text'>Demência</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;img src="http://fc00.deviantart.net/images3/i/2004/151/1/7/NECK.jpg" width="550" height="600/" /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;A janela era um círculo pequeno listrado por finas hastes de aço. Ainda assim, dedos de luz escapavam daquela pequena prisão e chocavam-se na parede branca na maior velocidade permitida por Deus, às vezes ricocheteando na cama de panos também brancos, esquentando meu pé revestido em casca dura. Tudo ali era branco. E há no branco o fogo tímido próprio do que é luminoso, um martírio de cores que turbilhona as águas onde se dissolvem essências revoltas em trevas. Mas como fogo que é e se faz, tímido ou não, queima. Meus olhos dardejavam na órbita em todos os limites das pálpebras em busca de tons diferentes – mas minha pele empalidecia num tecido imberbe e coalhado onde não mais se fazia refúgios. Que saudade do verde das folhas e seu cheiro de qualquer coisa orgânica indecifrável! Quando Maria e eu deitávamos no gramado do sítio pra desenhar nuvens era de verde que nos banhávamos, e havia a inocência sublime dos braços que se levantam para tocar o céu e pedir a bênção do azul. Sinto o gosto de tâmara ocluir a garganta... Suas palavras eram veludo e poesias, pequenos cânticos, odes secretos que apenas eu orquestrava. E nada me interessava saber no mundo senão de seus segredos, de sua intimidade, daquela criptografia alienígena que tecia seus movimentos de corpo e de rompantes de insanidade perfeita em volúpias vermelhas. Aqueles cabelos de topázio líquido...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Agora eram quase pretos. Quando entrou no quarto olhou-me redonda numa desconfiança trôpega e devastada por qualquer coisa que se desenhava no meu rosto. Não quis perguntar, ela geralmente não respondia sem enigmas. Caminhou arqueada nas pernas estranhamente venosas em cordões púrpuras sobre terreno róseo. Ainda possuía a austeridade dos lábios crispados contendo as várias palavras que queriam nascer, porém já germinadas na sua feição toda ângulos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;– &lt;span class="Apple-style-span"&gt;Você não parece nada bem, João. – sua voz era um trovão eterno. Um lamento triste que ansiou retumbar em cada osso e carne e cartilagem e tudo além. Não havia a umidade da chuva pra precipitar em mim, somente suas lágrimas que pingavam no meu couro cabeludo em goteiras preguiçosas. E um abraço frouxo cheirando sal.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Como não conseguia falar - lacerações na língua -, tateei. Desenhei na sua cintura, com o indicador em meia unha, caracóis extensos que nasciam em círculo grande e morriam no abismo do ponto.&lt;span&gt;  &lt;/span&gt;Onde morava seu umbigo grávido ocluído pelo vestido carmesim. Tortuoso, sem jamais embarcar na estrada do reto. Pois são das curvas de quem não vê a si mesmo que ladrilhei meu caminho em direção a desgraça. O torto que representa o falho, o errado, o atroz. Dos farelos celulares que ficaram pelo caminho levando consigo o líquido da memória e da estrutura desgastada que aqui lhe sorri em sangue coagulado. Minha viagem ao vazio era solitária – e a mulher não compreende. Ela construía ao redor do volume que meu corpo ocupava no mundo o contorno de uma identidade que eu não mais possuía, através do teor ácido das lembranças que eu quase podia ver escorrendo por seus poros. O silêncio cheirava a culpa que ela cuspia de soslaio pela expectativa que nunca se cumpria. Vitral sem conserto, eu. Para ela: movimentos randômicos sobrepujados por loucura, e nada mais. E de que adiantariam suas palavras, fossem trovões ou veludos?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Tampouco pupilas que cravejavam em mim toneladas de piedade despertavam alguma faísca da faísca de alguma coisa. Maria... E essas cicatrizes invisíveis, você não vê? Quando foi que seus cabelos ficaram tão escuros?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;– &lt;span class="Apple-style-span"&gt;Verônica e Roberto estão bem, sei que você pensa muito neles. Outro dia a professora de matemática do Beto me disse que ele seria um excelente engenheiro, de tão inteligente que é! Eles sentem muito a sua falta, você sabe... – falava como se tivesse lendo um texto o mais rápido que pudesse, oferecendo para deleite sua nuca, enquanto fingia olhar para além da pequena janela com o nariz em conta gotas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Desbastado pela tormenta, irrompi na direção da senhora para degolá-la. Brandido em fúria. Seu pescoço, pano a rasgar. Roberto seria seu novo amante? Não poderia... Ela deveria me amar até o seu último suspiro! Essa fora a maldição que concordamos em nos lançar a cada beijo por línguas de fogo e seus nós de bocas unidas debaixo da alvorada de todos os dias. Ah, como é execrável cruzar a barreira do insano! Perdi a compreensão e a manifestação da linguagem que nos mantinha pessoas do mesmo universo. E se não há mais palavras que reclamem à incompreensão, eis a violência que somos todos nós, uns mais ou menos polidos, porém ainda partículas desse cosmo de hecatombes reunidas. Não há mais volta.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Talvez também não a compreendesse bem. O nome Roberto já morava em algum lugar das terras incendiadas de minhas memórias. Irresgatável nesses campos inférteis. Mas estrangulá-la ao som de seus ruídos de dor suspirada, como quem não quer chamar atenção do mundo para a besta, dava-me certa dose de prazer. A pele fina quase rasgando era a minha força provando o amargo sabor de quem olha altaneiro perante a vítima derrotada. Logo ela também cruzaria a fronteira. Larguei-a.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;O choro agora era cachoeira vívida tropeçando sobre suas mãos em rocha que apertava as sobrancelhas, como se ali fosse o ponto único, a rede ímpar para agarrar-se a si mesma. Debruada sobre a cama de visitante, consumiu-se em desalento. A desgrenhada cabeleira morena, tão rala quanto conseguia, desprendia-se pelos dedos em punhos semicerrados. Flutuando até o chão numa viagem demorada. Sim - Maria despedaçava-se, deixando partes de si antes de partir. Borracha imprestável no emaranhado de sua fuligem. A verdade raramente se apaga. Mas existe a morte, muito viva em suas preces notívagas, eu bem sabia.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Sua figura inteira se contorceu num rompante ao dissabor da desordem. E ao deixar o quarto, cuspiu com o supetão que espreita o dissabor do descontrole. A nódoa de saliva caminhou gelada nas minhas têmporas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Até cair na garganta, e ser digerida em doces lembranças.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-8231144987166755129?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/8231144987166755129/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2011/10/janela-era-um-circulo-pequeno-listrado.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/8231144987166755129'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/8231144987166755129'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2011/10/janela-era-um-circulo-pequeno-listrado.html' title='Demência'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-5952171205838495437</id><published>2011-10-02T15:35:00.007-03:00</published><updated>2011-10-02T20:45:07.524-03:00</updated><title type='text'>Remetente</title><content type='html'>&lt;a href="http://fc02.deviantart.net/fs71/f/2011/117/0/0/empty_by_navidoutlaw-d3f1fdx.jpg" onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 600px; height: 400px;" src="http://fc02.deviantart.net/fs71/f/2011/117/0/0/empty_by_navidoutlaw-d3f1fdx.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Meu caro Daniel,&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Parece que ela dormiu (ou finge com a triste inocência de boneca que não é), então agora posso vomitar essas letras bravamente contidas nas camadas de mim que quase caem no esquecimento.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Sobre dormir. Labuta pesarosa como nunca foi! Quando os ponteiros já se cansam de anunciar o arrastar dos segundos e o sono pesa as pálpebras em sarcófagos temporários, Débora evita olhares. Seus túmulos particulares. Caixões negros de detalhes vermelhos em gotas de sangue. Vira-se para a parede e repete, noite após noite, a mesma sinfonia pétrea, calcária e inóspita: a que suspira de seus dedos retinindo incansavelmente na parede. E retinindo e retinindo... Como se escrevesse nas linhas de argamassa as palavras que não ousaria me dizer em costuras incongruentes, indecifráveis. De tecido podre. E eu me torno cúmplice do seu martírio silencioso, tocando seus ombros que me repelem em arrepios. Beijando suas costas de choro corredio. E sei que ela não deseja, que não há desejo, mas são as diligências de um casamento. Eu, o marido - o faço em busca de qualquer coisa que antagonizasse aquele silêncio crepitante de almas, em busca dessas almas talvez inscritas nas ranhuras daquelas quinas que ela desbravava mais que a mim. No fim, meu corpo padece à morte – infelizmente – temporária, temporariamente.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Dois dias atrás percebi na sua silhueta agora esguia e sem vida o impulso desesperador de quem não suporta ver os firmamentos cederem. Agarrou-me com a ferocidade (e o fedor) de um animal e cravejou as unhas longas no meu pescoço. Roçou a língua áspera no meu queixo e eis as primeiras palavras proferidas naquelas noites de tortura: pediu, no tom monocórdio de quem implora, que a penetrasse. Animalesca como nunca outrora. Os pudores são detalhes esquecidos pra quem fora esquecida pelos detalhes. Eu sou menos que isso. Não reagi, observando-a patética na tentativa de se despir, desajeitada, descompassada, fazendo nós nas próprias vestes e irrompendo em lágrimas ao se dar conta de que já não há mais firmamento. Abaixo de nós um abismo que engole tudo, e nada mais. Senão o meu toque frio e indesejado.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;O telefone bem próximo ao abajur e não há ninguém do outro lado. Amigos? Nenhum. E essa culpa que ela deposita no arquejo dos meus ombros talvez eu não seja capaz de diluir. Sozinho assim. Nasci de um ventre com pouca vontade, e minha relação com a culpa sempre fora de maiores faíscas. A vida sempre atrelada à culpa de viver. E há na figura masculina essa responsabilidade pela integridade de sua prole, e talvez os gêmeos sucumbiram porque minha essência não era boa o suficiente. Ou pelos pecados dessa vida e de outras, pelo bel azar ou macumba ou olho gordo ou não sei. As respostas são várias e as perguntas, infinitas. É um presente de Deus que eu não compreendia, ousaram me dizer. Podia sentir a pulsação na garganta de Débora pela vontade de esbravejar pros meus ouvidos e para os vizinhos que a razão da hecatombe toda sou eu. Mas esse mesmo Deus de intenções misteriosas pôs no meu quarto essa mulher tão mergulhada na piedade de si mesma! Eu também teria o que vociferar, e ela não estava disposta a ouvir. Esse contrato silencioso nos silenciou. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Essa ideia em tormenta que turbilhona aqui e ali e quer virar verdade, mas é repelida. Inutilmente, pois já é a verdade desde que germinou: não sinto tristeza pelas crianças. Nem escassas fagulhas nos cantos mais obscuros de mim - certeza, pois procurei por longas horas de auto depreciação, durante chuvas extensas salpicando a janela... Sem sucesso. Afinal, morreram antes de existir. Nenhuma dor. Talvez tenhamos poupado aflições tantas! Ou são meros argumentos pra justificar minha mesquinhez? Ainda assim, não encontro no baú de mim lágrimas para homenageá-las. Mas lágrimas por essa solidão intrínseca que devora o mundo e além, lágrimas para os olhares piedosos, que julgam em palavras felpudas e também lascivas. Pelas vontades que evaporaram no poço raso que nos tornamos e por essa figura putrefata que me acompanha como uma maldição nas noites de comum zelo. Parca polidez das ocasiões sociais, segurando a mão dela na união perfeita de casal que não somos e jamais seremos, corrói a sanidade limite com a qual redijo. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Sou um tecelão de poucas linhas, um escrivão de palavras curtas e interrompidas por muitas vírgulas. Minha música é a melodia sem notas que compõe o silêncio e meus episódios de vida são quadros borrados por poucas cores. E cores sem vida. Meu sorriso é na fração inexistente do imediato e a dor é eterna, e a única a me manter firme nos dois pés fraquejados. A crueldade existe, enovelando cada palavra dessa cartilha, e sou eu. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Eu os culpo e os odeio, estes filhos que antes de nascer já tiraram tudo de mim. Escarro feito, assim termino.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Perdoe-me, se for possível.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;Daniel.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-5952171205838495437?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/5952171205838495437/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2011/10/remetente.html#comment-form' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/5952171205838495437'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/5952171205838495437'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2011/10/remetente.html' title='Remetente'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-5917724178622731184</id><published>2011-09-16T19:37:00.004-03:00</published><updated>2011-09-16T19:58:15.626-03:00</updated><title type='text'>Sanidade</title><content type='html'>&lt;a href="http://fc06.deviantart.net/fs50/i/2009/292/7/1/Dead_Beauty_by_Last_Savior.jpg" onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 600px; height: 600px;" src="http://fc06.deviantart.net/fs50/i/2009/292/7/1/Dead_Beauty_by_Last_Savior.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;a href="http://fc05.deviantart.net/fs26/f/2011/070/6/6/66631e7cdf90613cfafe4b9ac17dc95a-d5nrzz.jpg" onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}"&gt;&lt;span&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;[00:45]&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;A mão espalmada no azulejo frio e o suor em gota única escorrendo pela testa no seu sinuoso caminho breve da vida breve que tinha até respigar na privada e bolhas sujas saltitando depois. A pulsação resfolegava no peito nu na iminência da dor já conhecida. Que veio numa torrente amarelo-opaco impetuosa e ardida e áspera e quente e se tingiu no fim pelo escarlate enegrecido do meu líquido vital. Coloriu o enlameado de outrora com tintas de desespero e fechei os olhos lacrimejados na resignação torpe de quem quer clemência pelo sofrimento constante. E quando o gosto do silêncio se desvaneceu nos meus lábios secos desisti da piedade e acionei a descarga para quebrar aquela sinfonia maculada pelo podre de mim. Respirava pela boca como um vira-lata febril.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;[3:13]&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;O sono não havia de durar muito e eu sabia mesmo nos meus anseios mais infantis. Abri os olhos desejando o anúncio da morte mas o que veio foi um escarro verde que desmanchei na fronha branca. Numa olhadela rápida em mim mesmo eis um relevo erodido por feridas exaustas na tentativa de cicatrização com manchas decorando o cenário do meu âmago dolorido. O espelho logo ali era o algoz da noite. O vidro da realidade costurava no reflexo a silhueta de um homem sadio a turbilhonar sobre si mesmo na cama no chão na parede sem motivo aparente. Tateei nas trevas e encontrei o termômetro. A luz da lâmpada pareceu queimar meus olhos crepitando lentamente e nada na minha vida eu conseguia explicar. Além do frio justificado pelos quarenta e um graus exibidos no visor.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;[5:00]&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;- Alô, Laura?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;- ...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;- Eu sabia. Sabia que você não ia me atender! É sempre assim quando preciso de você.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;- ... Vinícius? Eu estou dormindo. Ainda está escuro... São cinco horas! &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;- E daí? Será que não posso interromper seu sono de donzela? Você pode, não é? Você pode me deixar aos pedaços nessa desgraça de quarto!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;- O que aconteceu? Por que está falando assim?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;- Estou doente, e você sabe. Sabe que é a causadora! Que desde então eu sou esse moribundo de merda que fica contraindo tudo que existe e você nem se importa!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;- Vinícius, eu já disse, você precisa se tratar. Entenda que acabou. Como tudo na vida. Tenta seguir em frente, pode ser?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;- Vou, vou seguir em frente.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;[5:38]&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;É tão vergonhoso além de fraco e até demente pensar que eu um dia acreditei que havia alguém ou ela por mim como eu por ela. Por vezes me imaginei em estradas desertas só o asfalto e o mato verde. Ela estaria logo do meu lado como a extensão mais particular do meu corpo e com aquele sorriso desmesurado que ela sempre lançava quando queria alguma coisa eu seguiria em frente e nada mais precisava existir. Que todos morressem! Assim eu seria o único alvo daquele olhar lascivo azul e grande que só ela tinha. O sentimento que te nutre pra viver também te mata naquele instante em que a pessoa colocada sempre ali e sempre ali parece imortal e portanto pode-se nela descarregar a ira dos dias de chuva. Ainda assim como entender que num relapso num relâmpago num lampejo de segundos a chama que inflamava o amor foi engolfada pelo sopro do vazio? É nesse momento que todos os alicerces ruem e a racionalidade se esvai e com ela todas as memórias se apagam no tempo. Deus sabe que eu faria tudo. Esse Deus que agora existe tanto! Penso nele como o sorvedouro de pífias esperanças jorrando em fontes escondidas. Faria tudo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: center;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;[6:44]&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"&gt;A cada elevação do tórax na inspiração entorpecida ela cravejava com mais força as raízes a perfurar as ranhuras ictéricas da pele. A planta se erguia majestosa bem diante dos meus olhos e os galhos muito verdes retorciam no ar só se limitando ao teto. As raízes remexiam qualquer coisa dentro de mim mas não era nada tão doloroso quanto aquela epopéia fastidiosa que eu haveria de escrever não sem pesar com sangue lágrimas suor escarros e pus. As folhas esfareladas cujo verde agora morria num podre marrom padeceram sobre meu corpo-solo e ali mesmo montaram serrapilheira. A erva daninha brotou das paredes e saltou até a quase árvore de modo também quase vampiresco em busca da seiva da vida que eu nunca mais haveria de provar. Trovejei sobre mim mesmo palavras de êxtase e insônia. A mão não podia ser engolida e portanto eu não conseguia desaparecer num ponto insignificante do universo e ali ficar. As raízes mesmo mortas já atravessavam pelas minhas costas e uma nova árvore surgia em direção ao chão. A cama que se quebrou num estampido agudo e ao mesmo tempo me apontava o abismo entre a sanidade e a loucura convidativa. Caí ali no pandemônio escuro que se revolvia num líquido fluído e espesso de morte. E acabou... Já não estou mais doente.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-5917724178622731184?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/5917724178622731184/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2011/09/sanidade.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/5917724178622731184'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/5917724178622731184'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2011/09/sanidade.html' title='Sanidade'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-8571282204634534895</id><published>2011-07-22T01:27:00.006-03:00</published><updated>2011-08-06T12:58:31.466-03:00</updated><title type='text'>Quinas</title><content type='html'>&lt;a href="http://th04.deviantart.net/fs9/PRE/i/2006/031/2/4/INSONIA_by_coxao.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 317px; DISPLAY: block; HEIGHT: 288px; CURSOR: hand" border="0" alt="" src="http://th04.deviantart.net/fs9/PRE/i/2006/031/2/4/INSONIA_by_coxao.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Num desses momentos em que olho para minha sombra e vejo que ela se inclina até você. Foge de mim. O que é isso? Isso é o encontro entre a parede e o teto, que vejo aqui da cama. Esse encontro limítrofe e ao mesmo tempo absoluto de dois planos que se cruzam irremediavelmente. Como nós. Todas as quinas somos nós. Você foi dormir, mas ainda estou sem sono... O vento frio que a janela cospe na minha nuca. Sento.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;E há na minha boca o fastio da espuma de palavras que morreram no início do silêncio. A contingência da solidão na madrugada que se demora e se demora e aponta a insônia lá no fim do escuro. E vou sem medo. E os armários abertos. Estampam roupas que nada mais são que retalhos de momentos tantos. De cheiros, martírios, silêncios e suspenses e segredos e sibilos. Da tripulação de inocência carreada por quem ainda desconhece o verdadeiro apego ao amadurecimento da candura de quem se entrega até do avesso. Avesso, onde tudo mais encanta e mais machuca... E nada cicatriza. Avesso que hoje sou eu, e não mais meu avesso. Não fecharei essas portas, para que as lembranças que viajam nas teias do tempo se coagulem na consciência e aí façam morada.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Vejo pelo canto dos olhos o instinto humano e sua busca visceral por respostas que aqui estão, no cubículo do quarto. Ficarão aqui, e ninguém virá buscá-las. Nas minhas têmporas ruborizadas ao bel sabor da memória e sua parafernália orgânica consequente. Na flexão quase involuntária dos membros de quem quer proteger alguém do frio intenso. Esse alguém tão distante, encasulado no confortável sono dos anjos! Esse paradoxo que pinta telas com as tintas do passado, do presente e do futuro nessas fotografias que me roubam a letargia. E também das lágrimas que são tudo que existe e não existe, entupindo veias, coalhando o olhar e então se fazendo cadentes no firmamento do mundo. A evidência clara e abissal da transformação de qualquer coisa em matéria. E da matéria em vida.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Abraço os joelhos e então sou pedra. A pedra que compõe qualquer paisagem que você queira. Dos lugares que quiser conhecer. A pedra também para o descanso. E quando fecho os olhos e as divagações fazem ondas na areia, já não sei se as mãos que me envolvem são minhas ou suas. Quando lentamente deixo que as pálpebras abram as cortinas vermelhas da peça, vejo que na verdade são as minhas. Mas na verdade são as suas.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Dormir... Sem sonhos, pois tenho ânsia de sorver a magia que vejo na realidade. Quero somente um salto nas horas. Adiantar o relógio até o minuto e o segundo em que sua voz fará estrada nos meus ouvidos, aquecendo tudo que encontra. E depois eu penso no café da manhã, nos compromissos. Em respirar.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Você fez da minha alma terra fértil para qualquer coisa. Depois plantou um infinito da mais bela arte: a de compreender o sentido da vida.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Esvaziado e extasiado - obrigado, agora posso dormir.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-8571282204634534895?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/8571282204634534895/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2011/07/quinas.html#comment-form' title='49 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/8571282204634534895'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/8571282204634534895'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2011/07/quinas.html' title='Quinas'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>49</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-4346270375228807057</id><published>2011-07-16T22:20:00.017-03:00</published><updated>2011-07-18T09:48:09.710-03:00</updated><title type='text'>Escapismo - Caim Castellamare I</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://fc01.deviantart.net/fs8/i/2005/360/b/d/The_MASK_by_mok1.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; DISPLAY: block; HEIGHT: 300px; CURSOR: hand" border="0" alt="" src="http://fc01.deviantart.net/fs8/i/2005/360/b/d/The_MASK_by_mok1.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Príncipe Caim, com sua licença, a Rainha me mandou dizer que exige pontualidade para essa noite.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;A voz de Dolores era sempre uma balada doce. Suas bochechas fartas da gorda que era retumbavam para fora e para dentro da boca abaulando sua pele de cera como um instrumento orquestral. Naquela frase, porém, eu sentia notas de uma ironia ácida gotejada sobre o forro de discrição que sua posição impunha – afinal, minha mãe sempre e sempre se atrasava. E na previsibilidade dessas cordialidades tantas, que nas repetições ensinam, eu já me encontrava devidamente vestido. Ainda assim, assenti respeitosamente. Gostava daquela senhora. Muito.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Senhora e tia. Dolores é bastarda de meu avô. E para não ficar à deriva de seu destino maculado foi forçada a ser minha criadora. Mas parecia não se incomodar. Seus sorrisos de dentes marfinizados eram nada mais que um retrato do paraíso onde vivem os que com nada se preocupam, e apenas gozam da bênção da parcimônia, da ignorância. Sem ser nem por um segundo ignorante, mas um paradoxo espantoso e sobretudo angelical. Sabia muito de história, das cordialidades dos nobres e das engrenagens enferrujadas da política. Quando surgia pela manhã ondulando na fortaleza do próprio corpo, fitava-a sempre na esperança parca de que fosse minha mãe, já que era provavelmente a mais próxima dela em aparência. Quando a questionava, ela dizia num murmúrio vergonhoso que sua irmã tinha a beleza do dia, da tarde e da noite. Era o crepúsculo e o alvorecer. A mesma frase, ouvi durante anos... E nas terras férteis das minhas divagações de criança eu sentia não curiosidade, tampouco orgulho, mas uma frieza no âmago que se configurava num sentimento novo muito próximo do pavor absoluto.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Duas irmãs com destinos tão opostos. Sentia-me inclinado a proteger Dolores já que minha mãe roubara dela não somente toda a possibilidade de poder, mas também a arma mais poderosa que uma mulher poderia empunhar: beleza. Ou talvez as duas coisas estejam intrinsecamente conectadas, beleza e poder. E as raras vezes que a Rainha se dirigia particularmente a mim com aquela máscara cicatrizada na pele, a insensibilidade de suas palavras eram como uma extensa carta sobre a mais sôfrega resistência e toda a amargura do mundo. E a um fascínio secreto e persistente. Mas como podia um abismo tão grande separá-las, se vieram em parte do mesmo sangue? Entendi depois que somos todos feitos de abismos, e são as diferenças que reinam na escuridão que nos controlam e nos completam, e escrevem todos os destinos. Hoje, na ilusão de sensatez do quase adulto que sou, abandono um pouco o sentimentalismo exacerbado de criança e coloco a indumentária da seriedade que faz um homem se impor. Sou príncipe, antes de pessoa. Portanto escondo a piedade em gavetas mofadas.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Pois então vamos, já está na hora.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Numa reverência plácida, seguiu-me com os olhos enquanto eu saía do cômodo e apenas o estalar dos meus passos desconcertava a monotonia do silêncio. Para depois a cuidadora então me acompanhar.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;O salão real era a alguns corredores dali, corredores quase desertos. O tom do mármore que estava em todos os lados, pois tudo era mármore e o mármore era tudo, sempre refletiu sobre meus olhos uma brancura extasiante, longe de tudo que é agradável. Parecia esconder a sujeira, disfarçá-la. Em algum lugar do castelo nascia uma sinfonia triste, nos dedos de algum pianista triste, que retinia nas quinas e nos cantos e debulhava-se nos meus ouvidos, impregnando-me com a sensação da lamúria de sua harmonia de sono e de morte e de silêncio. Passos depois, percebi que vinha do salão real. A música – meu guia.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Encontrei no fim dois guardas que inclinaram o pescoço em respeito. Sorri sem exibir os dentes. A porta escarlate que estava ali dava acesso ao local da reunião. O rangido metálico era o som que precedia minha entrada costumeira, teatral e, aos olhos de alguns e até de mim, cômica. O trompete explodiu num grave ensurdecedor que ocluiu o piano de outrora. As portas se abriram, um qualquer anunciou meu nome e então passo a desfilar tortamente no tapete vermelho e aveludado. Irritante. Meus passos já não fazem mais barulho. Nada faz barulho. Uma mulher que nunca vi antes flexionou o pescoço como se a musculatura cedesse na ausência do som, seu alimento. A pianista. Ela se encontrava um degrau acima de onde as poltronas dos nobres se alinhavam na horizontal. Era bonita, e eu não sabia dizer o porquê, já que sua face era totalmente escondida pela sombra de uma boina de renda, azul e aparentemente feita por um artesão raro em habilidade. Tudo nela parecia frágil. Magra, as mãos extremamente finas e seu único fragmento visível, a boca, não era nada senão um detalhe róseo sobre a pele pálida, mas sem exibir cansaço. Não parecia curvar-se para mim, mas para o piano.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ah, para quem vive mergulhado nas águas densas do poder, aquilo que é grácil, mimoso e sutil é algo muito além do belo e se transfigura num convite de folha dourada. A uma paisagem de céu laranja-roxo, nuvens livres e vento raso a esfriar a canela, com poças também rasas aqui e ali. Atraente, mas tão distante! Que me faz intocável a tudo, e tudo intocável a mim.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Quando me sentei na grande cadeira dourada a esquerda de duas outras vazias, uma da Rainha e a outra do falecido Rei, notei que a musicista, agora às minhas costas, privara-me de perceber todos os outros ali presentes. Talvez três dezenas de pessoas sorriam para mim na placidez comum daquelas ocasiões. Poucas eu realmente conhecia o nome, a feição, a história de vida. Provavelmente todas mais interessantes que a minha. Retribuí.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Haveremos de esperar mais alguns minutos, como todos já sabem. Até lá, donzela da música: continue.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Algumas risadas cordiais precederam a nova melodia. Eufórica em demasia, lasciva e lancinante. Convidava-me a olhar por atrás do meu ombro, mas não o faria. Enquanto os dedos da graciosa subiam e desciam cada vez mais rapidamente, o teste se tornava árduo. Ela queria contar sua história, ao mesmo tempo contando a minha por querer. Brotou na consciência a lembrança de Dolores cuidando de um corte que eu abrira em minha própria mão, na tentativa de cumprir a etiqueta dos banquetes e das facas. Tão preocupada, num dos poucos instantes que seu rosto se retesava num franzido completo e paralisado. Enfaixou-me com um tecido branco banhado num líquido qualquer. Mas no seu olhar que sempre se comprimia quando algo estava errado comigo, ela sabia: eu causara aquilo para chamar a atenção de Vêda. E à noite, eu exigia dormir mais cedo para sugar toda a expectativa que era fixar o olhar na porta do quarto esperando que ela irrompesse, nas suas vestes sempre imperiosas, para oferecer um carinho raro, materno. Cada estampido comum da madrugada era um sopro gélido de esperança. Ela não vinha. A tia que surgia. E antes de gratidão, sentia na boca o gosto áspero da raiva contida. Maldita Dolores! E crescendo e vivendo onde os papéis não eram claros - tia que era mãe e todo o resto, mãe que era máscara e nada mais, pai que era defunto e nem memórias -, onde eu encontraria a mim mesmo? Naquela melodia, talvez.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Rangido na porta. O trompete explode ainda mais alto. Breve silêncio. O anúncio.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;A Rainha.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-4346270375228807057?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/4346270375228807057/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2011/07/escapismo-caim-castellamare-i.html#comment-form' title='16 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/4346270375228807057'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/4346270375228807057'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2011/07/escapismo-caim-castellamare-i.html' title='Escapismo - Caim Castellamare I'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>16</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-9144663950723766278</id><published>2011-07-10T18:12:00.022-03:00</published><updated>2011-07-10T19:36:49.012-03:00</updated><title type='text'>Escapismo - Vêda Castellamare I</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 357px; DISPLAY: block; HEIGHT: 519px; CURSOR: hand" border="0" alt="" src="http://fc08.deviantart.net/fs36/f/2008/277/7/b/mascarade_2_by_LunaXxinXxexile.jpg" /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Era de um tecido tão fino, parecia seda! O paradoxo de uma seda metálica. Pendia sobre minhas mãos como se desistisse da própria existência. Bordada sobre si, caracóis disformes, verdes na essência, criavam redemoinhos que viajavam em todas as cores por sua extensão, e preenchiam o que seriam minhas têmporas – tão cansadas têmporas! A superfície bege sofria o dissabor do tempo ancestral que crepitava minha alma fugidia num fogo azul e vermelho, de inverno a verão. Eterno. E era pouco observado naquele caleidoscópio de cores vivas que o transformavam numa abóbada de falsa riqueza, falsa alegria, falso poder. E os redemoinhos banhados num macerado brilhante precipitavam ao redor das narinas, onde pequenos furos me permitiriam a dádiva do respirar. O abismo maior, circundado pela ideia de meus lábios estreitos, não era nada além de uma abertura para o vazio. O vazio de minhas palavras de dor inexprimível, ou de destino insosso, ou até de uma desgraça de sobremaneira, gélida e sem razão. A razão, tão aclamada, mas nada bem vinda nesses tempos. Os olhos permaneceriam em cárcere, haveriam de enxergar por entre as fibras daquele pano, o que não era tão difícil quanto parecia. A imagem da justiça cega, justamente o detalhe que me fazia uma figura tão imponente na corte. E tão frágil na solidão do próprio leito. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Eis minha geniosa máscara! Minha única fonte de liberdade que me salva do pavor absoluto que é ser eu mesma. Fui ao seu encontro, como que oferecendo um beijo, e ela ocluiu cada poro em resposta, colando em mim como um membro que reconhece sua verdadeira gênese. Senti meu cabelo padecendo ao resvalar do vento que zunia pela janela pouco aberta. Os fios de cobre, tão longos quanto as cortinas brancas, debatiam sobre si mesmos. Temendo aos arrepios a previsível mudança de comportamento. Sentada na cama, vislumbrei as montanhas forradas por neve que emergiam no horizonte. O emanar da tranquilidade, tão perto. E intocável. Alguns segundos se passaram... Meu rosto, outrora gélido, agora já podia sentir o rubor da pele que não respira. Era o sinal do dever que chama. Preenchi os pulmões com os ares daquelas montanhas, a única porção delas que eu poderia obter. Levantei-me na imposição de minha alcunha: a impiedosa e justa Rainha Mascarada.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Cornélia, Liz, Arlene!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Tão logo a voz ecoou no primeiro anteparo, as três fidalgas, identicamente decoradas num longo e denso vestido azul escuro entremeado por fiapos de prata, surgiram com os semblantes pétreos numa reverência deveras teatral. Na face externa da porta, admirei o brasão – o castelo esculpido em mármore e o mar tentando desfazê-lo. A fortaleza que resiste às ondas gigantes, às intempéries. A qualquer coisa! Um nome que perpassa gerações... E vários fardos que morrem com elas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Das três, que nada mais eram do que qualquer coisa entre a estupidez e a falta de beleza, apenas Arlene me interessava naquela noite. No silêncio salgado na boca que envolve quem manda e quem serve, as empregadas iniciaram seus fazeres noturnos sem delongas. O jantar na corte exigia um preparo minucioso para minha apresentação, sempre tardia, que trazia consigo as desejadas expectativas. Liz, que já empunhava o pente fino em cabo de madeira, alisava meus cabelos com uma força suspeita, segurando o couro cabeludo na altura da nuca. Sentada numa cadeira de mogno defronte ao espelho, eu podia ver seu rosto contrair em cada energia gasta, e aquilo me alimentava num amargo lascivo. Embora não soubesse ao certo que sentimento inundava o coração da tosca moça, podia até sorrir por trás do manto em resposta ao estranho prazer. Mas na honra que ela deveria sentir por ser fidalga pessoal da rainha, se percebia qualquer reação, recolhia-se sabiamente na mesquinhez de si mesma. Eu não precisei proferir uma sílaba sequer, e Liz sabia: reuniu quase todos os fios num coque horizontal, e deixou que em quatro pontos, exatamente simétricos em torno do centro, eles pendulassem livres, chegando à altura da cintura. Apenas um olhar em direção a porta e ela se retirou, não antes de reverenciar-me novamente.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Cornélia trouxe o vinho real, especialmente dedicado a mim, encheu dois cálices fitando-os como quem sente o paladar ser inundado por saliva seca e o gosto só no plano etéreo e fugaz da imaginação. Reverência. Foi-se.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Restou Arlene, negra e de seios mais fartos que os meus. Que os de qualquer uma. Lábios profusos. Olhos, bocas e cabelo também muito pigmentados. Meu antônimo perfeito. Prostrada a alguns centímetros, eu podia sentir o cheiro sujo de seu suor. Nojento.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Seu marido veio?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ela assentiu. Arqueei levemente as sobrancelhas como quem ordena a retirada. Ela assentiu. E apenas quando chegou ao limite da porta, virou-se para uma reverência que foi até a metade de altura das outras duas. Fechou a porta, que em menos de dois segundos foi novamente aberta.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O homem que surgiu, de meia idade, de meia altura, cabelos meio grisalhos e alma totalmente corrompida, entrou aos passos tímidos - embora frequentasse sempre aquele quarto. Levantei-me e fui ao seu encontro. Retirei a máscara e senti quase de imediato o toque de suas mãos ásperas analisando meu rosto. No vício e ao mesmo tempo reféns do silêncio, trocávamos nossa intimidade travestida na urgência do tempo que era pouco. As paredes de fato ouvem, haveria mesmo de ser daquela forma. O homem então calculava a textura, os traços, as curvas. Os dedos viajaram por tudo que residia acima do meu pescoço e por onde caminhavam devolviam a vivacidade e o rubor para o meu todo de palidez. E o sorriso quase risível que se desenhava em sua feição alongava-se gradativamente. Como quem perde a inibição num supetão de falsa intimidade, bebeu do vinho que sobrenadava no cálice dourado e vi seus olhos fechados como o convite do paraíso. Aproximei-me o suficiente para que só coubessem beijos ou palavras. Vieram palavras:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Parece que tudo vai bem, minha rainha! Um resultado notório, além do esperado, eu diria... – a voz morosa num suspiro rouco, excitava-me por trás de minha realeza de obelisco, e eu resistia – Mas continuarei te visitando, se isso não for problema para Vossa Majestade.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Parei de resistir. Despi-me, num ritual costumeiro no nosso pacto particular, e fiquei nua para que ele me moldasse da forma que bem entendesse. Que me tocasse. E vieram os beijos, apascentados em pressa. Virou-me e, por trás, envolveu-me num vestido totalmente dourado, que ondulava sobre si mesmo e no assoalho. O busto escasso bem oculto. Eivado. E soprou ao meu ouvido que eu lhe lembrava o sol, o visitante mais raro. Mas eram beijos frios, que talvez só encontravam calor no terreno quente e desmesurado que Arlene deveria ser.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Antes de Hector me deixar, resguardou um último olhar, silente. Devassada pela névoa de seus olhos opacos, coloquei-me à deriva de um sentimento que eu traduzira como o mais tenro desgosto. Talvez eu não fosse a sua experiência oportuna e primorosa. Encarcerada naquele invólucro de pele. No meio do bramido da porta se fechando na sua cruel despedida, ouvi sua voz de terra infértil pela última vez naquela noite.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Não esqueça sua máscara.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Sem reverência.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-9144663950723766278?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/9144663950723766278/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2011/07/escapismo-veda-castellamare-i.html#comment-form' title='29 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/9144663950723766278'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/9144663950723766278'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2011/07/escapismo-veda-castellamare-i.html' title='Escapismo - Vêda Castellamare I'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>29</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-4223854040000911970</id><published>2011-06-24T16:23:00.013-03:00</published><updated>2011-06-25T11:56:05.876-03:00</updated><title type='text'>Narrador Personagem</title><content type='html'>&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 329px; DISPLAY: block; HEIGHT: 400px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5621869979068997362" border="0" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/-DFPHqTh4YiQ/TgTk9cPXHvI/AAAAAAAAAEw/-3isv6bQWH4/s400/imagem.JPG" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Não lembro bem se primeiro em mim brotaram os olhos ou essa gota opaca de consciência. Vieram juntos, talvez. A consciência com uma única imagem. Moldada do barro etéreo do solo das ideias do qual germinei.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;A única imagem: um deserto de areia branca e uma tempestade de penas negras, que dançavam ao dissabor da própria loucura (e não do vento) criando pequenos e efêmeros eclipses. No assoalho arenoso e também no céu igualmente alvo.&lt;/span&gt; &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Soube depois que todas as suas criações começam com um recorte de uma realidade tresloucada. Um misto de fantasia de lugares que nunca foi com sentimentos de infância, juventude e ao resvalar de seus mistérios. Ao visualizar a minha paisagem particular, selei o pacto. O segredo que nos uniria pela eternidade. E ao fim da minha construção eis a sensação que eu teria que devolver: da areia branca e as penas loucas reverberando em seu âmago. E mais que isso, os significados que dormem por baixo. Sei que ele olharia pra mim ao final de tudo com o olhar altaneiro de um criador e exigiria de mim o retorno. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;E a gota de consciência dobrava-se sobre si mesma, crescendo em bolhas em grumos em poças e em rios.&lt;/span&gt; &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;E a primeira imagem que se refletiu nos meus olhos foram os próprios olhos. Flutuando defronte a um espelho, para que eu compreendesse minha própria gênese. Ele haveria de estar em algum lugar por ali, mas eu ainda não tinha a voluntariedade de meus movimentos. Então me vi. A íris primeiramente pintou-se de um tom ambíguo entre o verde e o azul. Desmanchou-se em branco e precipitou por fim no negro da treva e do inverno. Ele não me faria diferente, me faria comum como as garotas comuns de dias comuns. Para que me lessem e encontrassem o delírio dos loucos na figura mais patética. E, portanto, em alguma ilha patética dentro do oceano de si mesmos. E seu questionamento tilintava em algum lugar dentro de mim que ainda haveria de ser criado: de que vale a beleza pálida de olhos coloridos se ela sempre tropeça e falece no abismo da inexistência? Lendo-o e, por conseguinte, vendo-me, todos haveriam de ler e ver um pouco de si mesmos. Já que ler é exibir os olhos da alma: o livro de páginas infinitas e de fórmulas complexas que cada um é.&lt;/span&gt; &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;O rosto que se emoldurou ao redor me parece com uma personagem de sua própria vida. Pela prontidão que foi moldado e pela familiaridade que eu não sei de onde vem. Não haveria de estar totalmente abstido de sua própria vida, uma vez que toda sua arte seria em menor ou maior grau reflexo de suas próprias experiências, ainda que modificadas. Conclusões que já me vieram prontas. Talvez devido aos fragmentos de alma que compartilhamos. Mas enfim: uma face pontiaguda, pouco simétrica, de queixo profuso e maçãs inchadas. A boca era quase que uma linha rosa desenhada a lápis na pele morena. Um pequenino nariz e uma cascata de fios espiralados em cor de ferro. Eu não me imaginaria de outra forma.&lt;/span&gt; &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Ele estava atrás de mim, agora que eu podia vê-lo. Sei que ele não retribuiria o olhar até que todos os seus sentimentos confusos precipitassem numa arquitetura sublime. Que eu ainda não era. Mas era bom vê-lo. Não muito diferente do espelho. A mão esquerda do jovem ancorava a testa como se os conflitos pesassem. As ideias em ebulição que não encontram um meio de explodir para o mundo! Pois ele, o artista que era, dobrava-se sobre a maldição dos pobres sentimentais. Ele haveria de expressar tudo, e nem tudo as palavras abrangem. São criações do homem, o imperfeito homem! As emoções seriam como galhos espinhosos a perfurar-lhe o íntimo que até doía. Então usaria os segredos por trás das criações (as paisagens), os detalhes por trás das palavras, as vicissitudes dos cenários e enredos oblíquos e difíceis. A maldição solitária colocava-o no fim como única testemunha. E talvez por isso ele me criava, como testemunha virtual – minha triste limitação. Mas se ao fim os galhos puderem ser cortados pela proficiência de seu labor, borbulhará na garganta um regozijo também solitário. E por isso tão almejado. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;O monitor do computador emitindo a única luz do quarto escuro. Eu não conseguia ler, mas sabia que ali se emparelhava todo o código do meu nascimento, onde se bordava com linhas de seda os retalhos que comporão meu destino. Num supetão desorientado, levantou-se e deixou o quarto. Eu ali, ainda sem corpo... &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;E na triste cacofonia do silêncio, veio-me um lampejo. Minha primeira sensação autônoma, fruto da liberdade que quase faz de mim uma pessoa. Faria dele também meu, de pacto a contrato justo. O rapaz esguio, crítico e decerto deveras solitário, seria também algum fenômeno dentro de mim. Paisagem?&lt;/span&gt; &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Uma árvore morta flutuando no ar, as raízes pendulando lentamente.&lt;/span&gt; &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Com pouca noção do que é vida, eu já sabia: antes que eu fosse a sua tempestade de penas negras, ele me devolveria uma sensação de morte. Morte rápida para alguém que nem sequer sentiu a firmeza do chão, e só meramente levitava. Como a árvore. Entrou no quarto, acendeu a luz e pela primeira vez me fitou. Trocamos um olhar de resignação e de mútuo respeito, que durou a menor fração de um piscar. As linhas de seda se desintegraram. Um suspiro: o retorno não viera. A experiência fracassada, a labuta postergada. Sem encarar o monitor, desligou a máquina. Desapareci – diferente de morrer. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Porque entre suas penas e desertos, me faço imortal.&lt;/span&gt; &lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-4223854040000911970?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/4223854040000911970/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2011/06/narrador-personagem.html#comment-form' title='16 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/4223854040000911970'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/4223854040000911970'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2011/06/narrador-personagem.html' title='Narrador Personagem'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-DFPHqTh4YiQ/TgTk9cPXHvI/AAAAAAAAAEw/-3isv6bQWH4/s72-c/imagem.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>16</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-6406215518700738847</id><published>2011-04-21T21:09:00.021-03:00</published><updated>2011-04-21T21:32:20.504-03:00</updated><title type='text'>Comatoso</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; DISPLAY: block; HEIGHT: 400px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5598193635061251666" border="0" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/-Mis0o--eWn0/TbDHc1mtvlI/AAAAAAAAAEk/kwoUoOCy9C8/s400/___fear____by_biszkopciik-d337uq5.jpg" /&gt;&lt;br /&gt;Como ela poderia estar tão inebriante em beleza? Os cabelos de seda negra cascateando defronte aos miúdos olhos falsamente marejados. Os traços finos suicidando no precipício do queixo, todos juntos na perfeição do retilíneo inviolável. A pele talhada num moreno lascivo que ousava brilhar. E maquiagem, não era ocasião pra maquiagem! E no útero do ódio de onde eu nascia a cada instante, nasci e odiei Marília mais uma vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Queria nela o caos! Os fios negros reverberando ao estapear desordenado do vento. A palidez, também dos lábios. Os punhos cerrados em revolta. Gritos, que viessem! Que tudo viesse e fosse fruto do descontrole de quem teme e de quem ama. Mas não da compostura gélida em máscara de etiqueta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas só há compostura. E meu ódio-amor na dicotomia mais tenra e insaciável eram linhas que ela tecia sobre mim para o controle. Costurando na minha feição uma moldura pétrea de resignação. Costurando a boca com agulhas finas. Eu olhava. Embebido pela beleza da beleza e pela beleza de sua podridão. Pois até seu podre era belo. Erguendo-se sobre mim como uma aranha de patas em veludo. Eu na maca, prostrado em velório a mim mesmo, nada tinha senão as cartas vazias que se joga no silêncio. Os olhares cúmplices.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah, meu amor, fiquei tão preocupada com você!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E cada sílaba carregava consigo toda a estiagem do mundo. Com secura de trincar minha pele já em fase de esfarelar. Seis meses que perdi. Seis meses em coma. E o soro gotejava calmo num sussurro de morte suave e longínquo, familiar. Eu olhava. Como ela estava bonita! Aproximou-se de mim como quem se interessa por um animal exótico, mas ainda com nojo. Aquela atração execrável pelo sujo. A sobrancelha tremulava alguns milímetros, ziguezagueando. Eu conhecia bem aquela postura: a de quem não suporta o fardo do segredo. E nem o fardo da verdade. Por segundos me pus a imaginar. Os outros romances. Outros presentes. O desejo ácido de que eu partisse (até eu o tenho!). Mas não sou mais receptáculo para emoções. Não sinto gosto da lamúria. As emoções não me salvaram. Então, eu apenas olhava, quieto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senti sua aproximação e a teia se formando. Tocou-me, mas eu não a sentia. Paralisado, via minha mão tocar a dela sem tocá-la. E toda força que havia dentro de mim era nada senão um comichão em todo lugar, em lugar nenhum. Uma coceira na base do pensamento. Um arrepiar de tudo e um impulso sem destino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu olhar pendulou sobre meu punho. Claramente decepcionada. Talvez houvesse em sua postura temerosa a curvar-se um átimo de piedade a fornicar-lhe a mente. Piedade não de mim. Mas de querer encontrar em si mesma alguma fonte própria de benigna consciência. Buscando em si o que fora outrora, mesmo que teatralmente. Buscando em si os valores que a todos pertencem, ou deveriam pertencer. Pude senti-la cavando sua essência a procura de compaixão por aquela massa humana deitada afronte. Mas numa baforada de impaciência seguida de um mergulho de ambas as mãos na cabeleira fez-se a desistência semeada e germinada e crescida e regada. Os frutos degustados. A semente, cuspida na minha face. Fui dissecado. O corpo exaurido, imprestável, varrido por um obelisco feminino aos pedaços, ainda que por fora intacto. Eu: o vegetal de olhos abertos que nada podia oferecer senão a ausência de palavras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um estridor reverberou nas paredes brancas do meu último leito. Aquele som estava em algum lugar da minha memória, perdido entre tantos outros arquivos prontos para serem queimados. Era seu celular.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Alô? Sim, estou com ele. Não posso falar por muito tempo. Não se preocupe, não se preocupe. Não demorarei aqui. Passei para ver se ele podia falar. Mas não pode. Não se preocupe, não se preocupe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que estranho, ela nunca gostara de jóias! Mas um colar de safiras retinia num azul singelo, coroando-a tímido, porém imperioso. Ela gostava de azul, então eu só comprava gravatas azuis. Mas nunca jóias. E meu último movimento, meu adeus à humanidade, fora tingido de azul. Na escada, antes do firmamento padecer, pintava num azul bem leve o quarto do nosso filho que viria e não sei se veio. Ah, talvez eu seja pai...&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-6406215518700738847?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/6406215518700738847/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2011/04/comatoso.html#comment-form' title='17 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/6406215518700738847'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/6406215518700738847'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2011/04/comatoso.html' title='Comatoso'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-Mis0o--eWn0/TbDHc1mtvlI/AAAAAAAAAEk/kwoUoOCy9C8/s72-c/___fear____by_biszkopciik-d337uq5.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>17</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-8752413675466331214</id><published>2011-04-11T21:44:00.025-03:00</published><updated>2011-04-21T13:42:28.278-03:00</updated><title type='text'>Mesmerizar-se</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 407px; DISPLAY: block; HEIGHT: 557px; CURSOR: hand" border="0" alt="" src="http://fc04.deviantart.net/fs70/f/2011/100/5/e/ocean_green_by_sugarock99-d3dngxs.jpg" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Abriu os olhos. Na parede, o sol se refletia em laranja, e a cortina mofada de renda costurava com a sombra pequenos eclipses disformes. Sabia: era a hora exata de acordar. Acordado já estava – há quanto tempo? – mas ficaria ali a observar seu caleidoscópio particular por mais alguns segundos. Na cama pequena, desajustada para seu crescimento desajustado. Que o limitava a uma única posição lateral, de pernas flexionadas, com a possibilidade de talvez um giro pelo próprio corpo para fitar a janela. Mas havia luz demais do outro lado, e ele não podia encará-la. Havia espaço, havia liberdade. Havia um bonito campo verde ao fundo pra onde outrora planejara em fracasso fugir. E aprendeu, ao dissabor de várias surras, que ele era e sempre seria o antônimo de tudo que é livre. Encarcerado na sua própria grandeza, as costas suadas de um pesadelo já esquecido, os olhos marejados de sono e tédio, as articulações em frêmitos da circulação comprometida pela prisão que era dormir. Mas ainda melhor que acordar.&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;E no desalinho de sua completa desproporcionalidade, ergueu-se. Sentado na cama, vislumbrou mesmerizado seus membros artisticamente dilacerados. Na perna, uma mancha esgueirava-se pela maior parte de sua coxa. As bordas em crosta, denunciando uma ferida recente. E cicatrizes concêntricas à queimadura criavam uma tatuagem de um sol meio negro meio roxo. Tatuagem em tinta de ódio. Que infiltrava nas veias e anestesiava seu corpo. E seus olhos. Aquele olhar em nebuloso do garoto era um poço sem início e sem fim. Apenas com o vazio familiar de quem a nada se apegava não por frieza, mas por não ter escolha. E uma leve constatação nos braços de uma constelação de outras pequenas máculas diversas. Eram poucos centímetros de pele preservada. Aquilo era sua capa, sua carcaça, sua casca, sua casa.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Vestiu uma calça e uma camisa de manga comprida. Queria mesmo é uma máscara. Fazia muito calor.&lt;/span&gt; &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Leonardo não tinha apelido. Pronunciavam seu nome grande tal como era. Talvez porque sua face talhada em crateras e cortes não inspirava nenhum tipo de doçura por parte de ninguém. Só secura. Ou porque diminuir seu nome significaria criar um laço cujo fardo não haveria a quem encarregar. Mas ele se chamava de Leo, em seus pensamentos migratórios a mundos fora da Terra onde metabolizava toda sua subjetividade em fantasias abstratas, funestas e até eróticas. Leo então era Deus, e os outros meros servos a seu bel prazer. Nisso, pessoas lambiam sua cútis podre como se tivesse o sabor do Elísio. Chamavam-no de belo, de único, de especial. Elevavam-no a uma divindade pelo dom que possuía. E poderia escrever destinos, e até mesmo o seu... Eis seu universo particular: a vingança semeada e cultivada por toda uma vida. Vingança por quem o fez diferente, essa experiência falha para a vida, mas pronta para o descarte. Pela escravidão da alma - se é que tinha - aos grilhões frágeis de quem nada tem. E por não saber que palavra era aquela que borbulhava nos lábios de todos: amor!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Leonardo tinha doze anos. E não sentia de dor. De nenhum tipo. Nenhum resquício. Nasceu assim...&lt;/span&gt; &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Embebido em descrença! Aprendeu na escolinha que papai do céu fica triste quando os filhos desrespeitam, xingam, batem ou odeiam seus pais. E ali, debruçado sobre a pia gordurosa por guloseimas que nem sequer viu, questionava-se se esse mesmo papai do céu não se comovia com suas lamúrias. Se Ele não ficava triste quando os pais desrespeitam, xingam, batem ou odeiam seus filhos. E também se esse papai do céu, acomodado em seu trono celestial, plantaria, algum dia, amor no seu coração para com aquela figura amebóide que recebeu de algum infeliz a alcunha de pai. Difícil... Ao olhar por cima do ombro e vê-lo imperioso em seu gigantismo assimétrico, esparramado flacidamente pela extensão do sofá, uma confluência de sentimentos ácidos complexos de descrever jorravam uma saliva amarga na mucosa crispada e sanguinolenta do garoto. Mergulhado num espectro infantil de reconhecimento da realidade, não saberia nomear aquela sensação irritadiça como o próprio sentimento do qual o suposto Deus supostamente se chateava: ódio. O arrepiar em frenesi que normalmente sentia em momentos como aquele, em que ouvia o ranger da movimentação de seu pai no atrito de sua pele membranosa em contato com mais pele membranosa. Os calafrios da iminência de um pesadelo ricocheteavam em seu corpo por inteiro, trazendo lufadas geladas ao seu estômago. Concentrou-se na louça. Mas aquele barulho familiar do atrito somado à pressão de passos firmes no assoalho de madeira era a trilha sonora de tantos outros momentos vistos, previstos, sentidos. Não esquecidos...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Primeiro os passos. Depois a voz que esbravejava ofensas que ressaltavam a inutilidade de Leonardo, a incapacidade, o talento para desastre e sua feiúra sem limites. Vociferava que devia tê-lo abandonado como a mãe fizera, ou sugerido o aborto. E, não com aquela falsa sinceridade de quem está magoado e finge ser forte, mas com uma sinceridade límpida de quem não entende o acaso da vida: o menino sinceramente concordava. Quase sorria meio débil. Porém, os lábios não se abriam para consagrar o ultimato da resposta. De alguma forma aquelas sensações estranhas e perigosas que fulguravam em seu interior e gritavam em uníssono para cada canto do seu íntimo trancavam as portas. Trancavam a boca de onde de dentro destoam os gritos.&lt;/span&gt; &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Pois quando ele elevava a mão inchada para desferir-lhe um soco contra a face menos marcada, não havia nada senão a sensação incômoda de ser deslocado para outro lugar bruscamente. Humilhantemente esgueirar-se e ir dobrando-se e desdobrando-se e redobrando-se para o equilíbrio. A feição continuava estéril, pétrea, de cera, focalizando qualquer coisa no rosto do pai, qualquer detalhe macabro que talvez o fizesse sentir aquilo que todos temiam. E se agarravam. O sentimento que faz o homem se ajoelhar em pranto e agonia, mas que também o faz erguer-se sobre seus traumas para respirar mais forte que outrora. Cerrar os punhos contra os próprios fantasmas e ceifar o desalento de toda uma vida. Foi puxado pelos dedos gordos cravados em sua nuca para que padecesse contra as próprias pernas. Naquele momento, em que se precipitava de encontro ao chão como uma fruta podre que se desprende para se decompor, descompôs-se enfim. Fechou os olhos.&lt;/span&gt; &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Água. Seu corpomovia-se lento, pois o oceano de uma água cálida, estática e quente, abraçava-o todo num esmero zeloso e confortável. E respirava. O horizonte verde-azul era como um abismo de paz, um poço de uma tranquilidade anestésica que o fazia prolongar-se a cada piscar temeroso da realidade. O silêncio... Ninguém. A pele íntegra, curada, movia-se em desordem, como uma criança na experiência de um universo completamente novo. O gosto doce de possuir por completo os próprios movimentos. Desenhar com os membros as figuras cicatrizadas na alma. Se soubesse desenhar seus próprios vórtices de tristeza... Fez com o dedo um redemoinho. As possibilidades tantas: giros, cambalhotas, contorções. Com a boca, bolhas! Que subiam... Mas havia acima de si uma lâmina de espelho d’água que não refletia nada senão confusão. E depois dela a incerteza. Voou até lá numa zarpada eivada pela curiosidade de menino. E emergiu submergindo em mais água. Em mais nada, silêncio, ninguém. E de onde de tudo no fundo de si e além, a verdade: a solidão. Gélida. Era água e só. Liberdade crua. Não era uma praia com sua mãe observando como ele nadava. Não era uma piscina e seus amigos pulando e brincando. E focando a visão, todo aquele azul costursuturado em verde era senão um túnel negro. Era ele, sem nada, sem tudo, sem luz, sem dor. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Abriu os olhos. A água extravasou do inconsciente e reencarnou em lágrima. A primeira! Escorreu sequiosa, tremulou no nariz e faleceu no chão.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-8752413675466331214?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/8752413675466331214/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2011/04/mesmezirar-se.html#comment-form' title='15 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/8752413675466331214'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/8752413675466331214'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2011/04/mesmezirar-se.html' title='Mesmerizar-se'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>15</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-2588245742304439319</id><published>2011-01-22T17:34:00.002-02:00</published><updated>2011-01-22T17:41:12.922-02:00</updated><title type='text'>O que cortar?</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://fc05.deviantart.net/fs46/i/2009/243/1/4/Open_your_eyes_by_glitterscene.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 398px; DISPLAY: block; HEIGHT: 399px; CURSOR: hand" border="0" alt="" src="http://fc05.deviantart.net/fs46/i/2009/243/1/4/Open_your_eyes_by_glitterscene.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Abro os olhos como quem sai do coma. As pálpebras hesitam, mas se afastam devagar. As cores surgem meio agressivas num caleidoscópio desordenado. Muito, tudo muito vermelho. Eu adoro vermelho... No fim, há só um teto. Daqueles de tijolos dispostos em pares, formando fileiras de quadrados entremeadas por grossas faixas brancas. Não parece bem uma residência típica do centro urbano. Mas eu estou aqui. Somos eu e o teto. E nenhuma parede - meus olhos não são capazes de viajar nas órbitas. Estão estáticos, vidrados. Não sei do resto do meu corpo. Não o sinto... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Mas há uma música! Uma mulher e um piano. E ela não entoava palavras. Apenas um suspiro de morte enquanto o pianista brincava com as notas de uma dança macabra. Um suspiro longo. Que viajava de um temor sôfrego a uma excitação frenética. E depois se debulhava numa somente respiração cansada. Passam-se alguns minutos enquanto aquela música parece me anestesiar. Por dentro, já que por fora eu não sinto nada. Nada, o vazio completo da consciência. E fico. Coisas como vida ou morte não fazem sentido debaixo daquele teto de tijolos. Pois aqui é o nada.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Há quanto tempo vejo essa mulher? Ela não surgiu gradativamente no campo de visão. Apenas apareceu, como uma foto costurada à minha retina. Os cabelos vermelhos precipitando em ondas de sangue. A primeira fonte de luz daquele cômodo. E o rosto forrado de uma pele desbotada, algo próximo do cinza, num relevo acidentado de manchas roxas discretas, como se a mais forte maquiagem ousasse construir uma máscara de normalidade. Inútil, era a face da tristeza se abrindo para um sorriso de maldade. Um sorriso que me mostra uma garrafa de vidro e um punhado de criaturas. Insetos: abelhas, formigas, escaravelhos e outros. E de tudo o que eu mais odeio e entre tudo o que eu mais odeio e mais que tudo, ela acertara. Insetos. Despejou-os sem delongas na altura do meu abdome. Mas eu não os sinto. Apenas fito sua face diabólica contorcendo-se numa satisfação doentia. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Dor? Não a física, mas pior. Imagino os insetos comendo e carcomendo minha pele com suas garras e presas. Dilacerando a extensão do que eu era e infectando-me com sua podridão. Sugando sangue, depositando em mim os ovos de sua prole. Dói! Mas não há grito não há movimento não há contração dos músculos. Dói dentro. Onde tudo o que penso se converte em desespero sólido. Em pesadelo vívido. E não consigo mais fechar os olhos. O que eu era apodrecia diante de mim e eu não podia ver. Primeiro, meu corpo. Agora, minha alma. Só restaria a mente para que pudesse ainda degustar daquela dor. E toda a força que eu desprenderia num clamor de fúria se volta contra mim e rebate no meu âmago ao me revelar que o que eu via bem ali, a mulher ruiva que se tornara meu algoz, eu já conhecia. Sim, como as memórias podem ser cruéis! Escondidas nas gavetas mais sujas da consciência. Ao som da melodia fúnebre que orquestrava o meu inferno particular, abrem-se, uma a uma. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Uma rua uma mulher um beco. Um homem uma faca. Aproximei-me dela cambaleante como usualmente fazem os bêbados. Tão sozinha e tão linda! Ah, como amava aqueles fios vermelhos que dançavam alegres ao sabor do vento! Seu rosto, ainda imaculado, era fino e frágil como uma flor de primavera que desabrocha para a noite. E desabrocharia agora para mim... Toquei-a com meus dedos oleosos e sujos e senti que já não havia como voltar atrás. Ela também estaria corrompida. Mas debatia-se como uma fera! Quando a levei ao beco tentando calá-la com meus beijos de álcool, ela gritou muito. Ora, que afronte me pareceu! Um tapa de força mal calculada a lançou no assoalho áspero. E o grito se reduziu a um gemido. Estava muito tarde, ninguém viria salvá-la... Firmei os joelhos posicionando-a entre minhas pernas. Ela se desesperava olhando aos arredores. E para si, pois eu rasgava sua blusa de rendinha com um único puxão e deixava marcas vermelhas em sua barriguinha branca como uma estrela da noite. Minha estrela! Como ela chorava! Calei-a com uma das mãos. Brinquei com a outra. E a mulher ainda se debatia! Tentava a todo custo me chutar nas costas ou me jogar de lado. Mas era uma flor, fraca como uma. Não me impediu de me despir e limpar o meu suor fétido naqueles cabelos ruivos tão lindos! Esfregava-os na minha face torpe e sentia um aroma calmo, gostoso. De rosas. Minha língua viajava na sua pureza semeando a maldade por onde passava. Não me importava de fazer de sua dor o meu prazer, talvez por realmente nunca me importar ou por não estar lúcido o suficiente para isso. E fiz, então, o contato. Unifiquei os corpos e ela era como um ímã que me rejeitava. Mas quando foi que eu comecei a aceitar rejeição? Uni, fundi, colei-nos contra a sua vontade. E contra a vontade divina. E descolava a meu bel prazer, e colava de novo. Pois ali, no meu mundo, eu era o Deus e ela uma serva resignada. E parou de se debater, então, e aceitou como uma dama deve fazer a dança que eu majestosamente propunha. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Um intruso. Um besouro pousou no corpo dela no meio da dança. Encostou suas patas sujas de estrume no terreno que era meu. Fui tomado por uma fúria descomunal e espanquei-a como bem merecia. Como ela permitiu? Reuni todo o meu ódio em punhos cerrados, em socos e tapas frenéticos que deixariam as marcas daquele pecado encravadas em sua alma. No fim, mergulhado nas águas salobras do nojo, cuspi. Cuspi e cuspi de novo. Nojo! Deixei-a com o seu inseto e me retirei. Ainda haveria a ressaca para eu lidar. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;E, por rasgar sua feminilidade e pôr do avesso sua intimidade, agora eu me coloco aqui. Vendo-a torta entre insetos e sorrisos diabólicos me corroendo, ambos. O ritmo da música se findou numa hecatombe de sons agudos. Agora sinto o pavor do silêncio. Parecendo extasiada de satisfação, largou os insetos. Suspirou... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;E trouxe uma faca. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-2588245742304439319?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/2588245742304439319/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2011/01/abro-os-olhos-como-quem-sai-do-coma.html#comment-form' title='21 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/2588245742304439319'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/2588245742304439319'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2011/01/abro-os-olhos-como-quem-sai-do-coma.html' title='O que cortar?'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>21</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-9154774491452847401</id><published>2010-12-23T00:34:00.004-02:00</published><updated>2010-12-23T01:43:17.021-02:00</updated><title type='text'>Anti-Metamorfose</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/TRK1VOmb6pI/AAAAAAAAAEQ/94ddGnU4TEA/s1600/anti.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; DISPLAY: block; HEIGHT: 300px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5553700666802432658" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/TRK1VOmb6pI/AAAAAAAAAEQ/94ddGnU4TEA/s400/anti.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Não consigo esquecê-lo. Sinto sua pele seu cheiro seu gosto seu gesto sua marcha sua voz entremeada em suspiros. É fina como um sussurro é grossa como um rugido e é fogo e incendeia e até hoje me curvo à janela a única janela no meio do cômodo e quero mesmo é ouvi-la essa voz e senti-la mas ele não está lá e então ela não está lá. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;E eu estou aqui. E essa sala é tão quente... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Quente como a voz e a foz dos meus desejos que precipitam no meu busto e eu aperto o meu busto e gemo um pouquinho pra ninguém. E de uma quentura que vem queimando o solo podre das paixões às águas sujas das paixões aos ventos lascivos das paixões. De vez em quando fica morno como o chuveiro que abençoava nós dois nas danças em chamas molhadas de entrega e eu me entregava como um presente (inútil) na sua ausência que viria depois e dançava e éramos um quando éramos dois. E então só faltava sair fumaça de onde é brasa o amor de outrora de onde são cinzas as cartas escritas que agora eu abro e mal leio porque dói. Felicidade dói tristeza dói ciúmes dói ódio dói amor então mais ainda. É quente e dói. Um espelho na sala e me vejo dramática torpe maldita suja puta execrável condenada fadada ao eterno martírio da solidão. Feia. Aqui (e só hoje) é quente como vulcão quente como sopro de dragão e sinto pêlos crepitarem e o tilintar da loucura pulsar minhas artérias obstruir a garganta colabar os meus pulmões a respiração começa a falhar. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Desespero. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Cambaleante eu vou para a cozinha meio tonta meio querendo ficar tonta mesmo já completamente embriagada e medíocre insípida nessa história de gente perdedora. Meus dedos não encostam com firmeza são todos flébeis são como extensões da minha alma tão minguante que em nada se fixa que nada cativa que em nada consegue se firmar porque firmar exige força e não há isso (nem nada) em mim. E na excrescência do já falado desespero escorrego com esses dedos de barro um dois três quatro cinco talvez até seis goles que viajam pelo meu corpo esguio de boneca boquiaberta melindrosa e a quentura se potencializa e o suor é o banho que eu não vou tomar. E o ponteiro vai zombando de minha cara e vai lento sem querer girar direito parece até que caminha ao contrário ou são meus olhos a vagar? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Eu sou a borboleta que perdeu a asa mais colorida e vai rodopiando e derrapando em pleno vôo em círculos em caracóis em redemoinhos que a levam ao mesmo lugar que é o duro do chão o implacável (e eterno) soco da realidade. Pois essa mesma borboleta aleijada quando casulo se fixou numa árvore hostil e foi comida foi tragada foi decomposta por outras lagartas famintas que ali mesmo defecaram numa cena risível tal qual patética. E os restos o vento dissolveu na extensão infinita dos ares de amarguras e asperezas até mesmo avarezas de sonhos estúpidos que eu ou o casulo ousamos sonhar. É difícil respirar. Era difícil respirar quando lagarta mesmo antes de casulo num rastejo em meio à bosta da minha vida decomposta que eu insistia em comer de novo nesse calor de deserto que é a fornalha dessa sala. E ao suor juntam as lágrimas lágrimas de lagarta manca que se afunda e se entristece eu me entristeço eu padeço nessas águas que não são as dele que eu sonharia em beber. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Mas são as únicas em que posso fenecer e então com toda a força que me resta das palavras das letras das linhas desse livro fino desse livro pobre e que ninguém vai ler do qual se teceu minha torpe vida com toda a força que reúno de minhas lamúrias: choro e choro e choro. E ainda está quente... &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-9154774491452847401?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/9154774491452847401/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/12/nao-consigo-esquece-lo.html#comment-form' title='24 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/9154774491452847401'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/9154774491452847401'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/12/nao-consigo-esquece-lo.html' title='Anti-Metamorfose'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/TRK1VOmb6pI/AAAAAAAAAEQ/94ddGnU4TEA/s72-c/anti.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>24</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-1606108673212239804</id><published>2010-11-18T22:47:00.013-02:00</published><updated>2010-11-19T00:05:07.032-02:00</updated><title type='text'>Dissecação</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://fc06.deviantart.net/fs23/f/2007/326/1/5/dream_on_by_Orzz.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 233px; DISPLAY: block; HEIGHT: 351px; CURSOR: hand" border="0" alt="" src="http://fc06.deviantart.net/fs23/f/2007/326/1/5/dream_on_by_Orzz.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É bem verdade que me pus naquela situação de uma forma nada espontânea. Fingi um atraso e, sabendo que ele sempre se assentava nos fundos à direita, foi nessa direção que caminhei meio que trepidando, como se não tivesse escolha. Mentira: aquele era exatamente o espaço que eu mais almejaria estar em toda a Terra. Há uma carteira de distância. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Cruzei os braços e aninhei a cabeça, numa postura que poderia ser interpretada como tediosa ou sonolenta. Para que eu pudesse observar, e só observar. E aqui estou. Antes que eu me perdesse em pensamentos fantasiosos e alegres que me erguessem ao reino do amor, percebi de imediato que eu já não estava no meu próprio universo. Nunca antes houve tão pouco ar entre nós dois, e sinto agora que em seu mundo o ar tem uma consistência diferente. Sobretudo o aroma. Não é nada parecido com perfumes convencionais. Nem doce, nem ácido. Eis um cheiro forte, que exerce certa pressão confortante. Tento localizar sua fonte, mas não consigo. Tampouco sei se é de fato um perfume, um desodorante ou simplesmente uma aura natural que ele exala – o que me parece bem plausível. Entrou até pelos meus olhos e me vi abrindo um pouco a boca na estupidez da tentativa de sorver mais daquilo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Calor... &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Meus olhos titubeiam na margem das pálpebras. Hesitando. Eu estou hesitante e só. A exposição dos outros sentidos carrega uma percepção subjetiva mais acolhedora. Mas a visão é muito delicada. A imagem crua da realidade surge para mim uma possibilidade ofensiva em demasia. O meu desejo estando ali, ali poderia estar também minha maior dependência. Minha maior fraqueza. Minha maior utopia. Eu sairia da confortável atmosfera da ilusão para adentrar no que é concreto, mas talvez intangível e, por esse paradoxo, algo lascivamente sôfrego. E mesmo sobrenadando tantas reflexões sei que, como um ímã escravo da magnetização, meus olhos certamente se alinhariam nele. Decido por antecipar o inevitável. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;E como jamais amá-lo? Como jamais me atentar outrora para aquela silhueta que surge como qualquer coisa entre o desalinho perfeito e um desajuste coeso? Afundo mais em mim. Era para ser uma dissecação visual fria e precisa, mas veio de dentro, de onde não tenho acesso. Eis diante de mim, a boca. A terra fértil de minhas volúpias. Os lábios quase crispados se contorcem numa diagonal de pouca curva. Nas margens onde eles se encontram há pequenas rachaduras. Ali o superior e o inferior nascem gloriosos. Ambos num tom de carne viva e assim se cora meu rosto. O de baixo mais proeminente, invadido por pequenos sulcos que me levam a bancarrota. Vão desenhando raízes e raios e rotas e rugas. Logo lateralmente ao centro, duas regiões de maior protuberância exibem um pouco do vermelho líquido da mucosa interna - uma fornada de desejo. E duas de arrepios. Volto. Volto porque as portas daquelas terras daquelas volúpias se abrem o mínimo exato para me paralisar. Dois dentes se mostram. Um pouco fenestrados ao centro, mas simetricamente poligonais. Até pontiagudos nos cantos. E o conjunto – boca e dois dentes –, que não era extremamente carnudo ou pateticamente fino beirando o feminino, leva-me ao espasmo da harmonia execrável. Essa era a palavra que borbulhava fria no meu estômago: harmonia. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E a viagem prossegue. Sem exaustão. Só do pescoço pra cima. Não tenho as rédeas de meu controle e as balizas de minha promiscuidade. Portanto, do pescoço pra cima. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Abaixo do queixo a pele é bem rente e isso me felicita. Dá pistas sobre seu corpo... Preciso de força. Ele não pára de exalar esse aroma! Pequenos fios de uma pelugem – absurdamente! – organizada salpicam a região para-bucal em círculos concêntricos na bochecha. Como gramíneas a forrar um relevo acidentado. Acne pregressa, parecia-me. E mergulho em devaneios: na hemiface esquerda uma pequena cicatriz me provoca. Quais seriam os segredos? Quais tipos de frustrações e anseios ele teria? Ah... O amargo interesse pelo pecado, pelo erro, pelo atroz. Por sorver o que havia acontecido por cima daquele relevo e por entre aquelas gramíneas negras. Estar ali e escavar até o subsolo com a mão. Para separar o barro. E quem sabe comê-lo? Sorver os momentos de raiva, de solidão, de punhos cerrados desferidos sem motivo nas paredes que sustentam suas dores. Cuspir na sua privacidade. E que ele cuspisse na minha. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Suas têmporas, que se coloriam de vermelho de tempos em tempos e isso eu já observara de antemão, estavam agora bastante pálidas. Ambas avançavam alguns centímetros da linha dos olhos como se temessem perdê-los dissolvidos. Duas ondulações configuram-no como marcadamente retilíneo. Um belo paradoxo... Onde tudo se afina até chegar ao queixo numa perversa simetria. No queixo, numa serena brutalidade, as linhas de pele vindas de todas as direções encontram o derradeiro precipício. As imperfeições eram como quadros caros numa parede branca: nem sempre apresentáveis, mas, por serem caros, são orgulhosamente exibidos. Eu não saberia dizer com precisão, ainda que eu faça das palavras as armas de minhas guerras e as guerras de meus dias, o que se escondia naquele mapa que o fazia detentor de tanta magnitude. Porque eu não ousaria chamar de beleza, simplesmente. Vai além. Quase sou capaz de tatear uma consonância do que há dentro com o que há fora. Como se a forma que o esculpisse fosse reflexo de sua trajetória. Cada curva, um desalento. Cada cicatriz, uma vitória (a do dedo mindinho, a do queixo resignado). Tatuagens naturais que a alma faz. Vi-o engolindo qualquer coisa e quis ser essa coisa. A entrar sem pensar em onde parar por não querer parar nem para pensar. Para quê pensar se a lógica é amar? E então abro os olhos, de verdade. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;E, nessa mesma desgraçada verdade que me põe aqui de cócoras, dou-me conta: não havia ninguém ali. Somos um espelho e eu. Vejo alguém bebericando o fim de seu delírio como um viciado aspira o último resquício da droga.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-1606108673212239804?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/1606108673212239804/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/11/dissecacao.html#comment-form' title='18 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/1606108673212239804'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/1606108673212239804'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/11/dissecacao.html' title='Dissecação'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>18</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-3680042602470635310</id><published>2010-10-20T20:47:00.012-02:00</published><updated>2010-10-21T23:35:16.435-02:00</updated><title type='text'>Seu Desabafo?</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://fc03.deviantart.net/fs21/f/2007/233/2/d/Alone_by_Hidden_target.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 438px; DISPLAY: block; HEIGHT: 436px; CURSOR: hand" border="0" alt="" src="http://fc03.deviantart.net/fs21/f/2007/233/2/d/Alone_by_Hidden_target.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Não venha esperando coesão nessas linhas que, sem rigor nem consciência, vou desenhando meio tortas por aqui. Coesão é pra quem a vida constrói histórias bem montadas. Roteiros bem escritos. Coesão, nexo, coerência, estabilidade... Não. E lhe digo que estou embriagado demais pra ordenar minhas lamúrias. Também de álcool. Mas mais daquele cansaço seco, sôfrego, que deprime os ombros e obstrui a garganta sequiosa com respirações cada vez mais entediantes. Um cansaço que vem de lugar algum, e ao mesmo tempo de todos os cantos que posso enxergar. Sem motivos, sem raízes, sem cerne. Simplesmente não sei. Como disse, não fiz pacto com a coerência. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Sei é que esse mundo não tem para me dar o que eu quero. Não está aqui. Não criaram a palavra e nem a imagem e nem o sentido do que minha alma anseia. Talvez eu seja só um deslocado. Tresloucado. Porque não há nos olhos das pessoas a correspondência da brasa que eu queimo viva a cada palavra, das cicatrizes que eu faço em mim mesmo a cada gesto, sacrifício, resignação. Não há correspondência para os amores tantos. Eu sempre quero mais. Pois faço mais, e por mais que eu imagine levantando o escudo do altruísmo, quero sempre mais do outro. E nunca, nunca o tive. E não entenda errado: não culpo ninguém. Tive porventura a falta de sorte de nascer escritor. Escrevo romances, suspenses, aventuras e comédias que não passam de abstração. Eu vejo os pássaros e sinto inveja. Os namorados e sinto inveja. Os ricos e sinto inveja. Os talentosos, os de fato escritores, músicos, atores. Os famosos. Os políticos. Os amantes. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O cansaço que me entope as vias e me impede a reclamação. Passei desse estágio. Se na Terra os símbolos que sustentariam meus ensejos de fato existissem, eu teria a quem culpar. Mas não. E essa mácula faz de mim um eterno descontente e prisioneiro de mim mesmo. E em pensar que as coisas poderiam ser mais simples... Que as pessoas poderiam entregar-se umas as outras sem as amarras das frustrações, do passado. Seria bom se toda paixão louca fosse correspondida. Que todos de fato tivessem a oportunidade de se doar e ver seu íntimo completamente exposto, aceito e respeitado. E por que não é? E me sinto patético. Que tamanho tem a ausência desse amor ao lado de quem não possui nem sequer amparo da família? Cerro os punhos ao me ver parte desse quebra cabeça difuso em que me disponho tortamente. E passo horas e horas e horas dissecando uma única palavra: justiça. Que palavra é essa? Onde está a balança dourada que bagunça isso tudo? Mas o problema não é esse e só: vai mais no fundo, no subsolo, nas profundezas das mentes que acompanham o coletivo e vão se pervertendo, subvertendo. Não há aperto de mão sem a empunhadura da ameaça. Não há favor sem chantagens. E eu me perco. E eu me perco e me perco e ainda assim, vejo cada rosto sibilar um mistério tão instigante que vou, sem hesitar. Degusto cada sonho como uma criança que ganha o mais caro brinquedinho. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;E amar essa vida torpe é a mais linda contradição. Essa que me põe de cócoras e lágrimas a cada decepção frequente. Em cada história de amor que não dá certo. Em cada linha esperançosa que eu, escrivão, vou tecendo para mim e que se desmancha e se desfaz, ao mero sabor do acaso. E mesmo assim amo amar e viver. Sonhar. E essa felicidade maculada e profunda que é o combustível de cada passo lento de superação, que ergue os joelhos para outro enfrentamento. E a cada início de batalha - coitado de mim - sei que acredito numa justiça invisível que reserva um segundo de recompensa. Ao menos um! Que permitirá que eu me abstenha da rotina lancinante do trabalho para um dia ver a relva, de mãos dadas com o fruto da minha inspiração, bebericando qualquer coisa e falando de sentimentos. Que permitirá que eu me faça controlador de todas as variáveis da vida e uma pessoa de instabilidade inviolável. Que permitirá que cada palavra de preocupação seja reconhecida e valorizada pelos outros. Que me fará ser amado em plenitude. Que me reservará alguns dias sem tristezas, sem desagradáveis surpresas. Não quero precisar da embriaguez. Quero remontar essas cascas de vidro que me tornei para recompor um vitral mais ou menos coerente. E quase gargalho alto ao ver até onde a insanidade faz sustento. E me sustento aí. Abraço os joelhos e esqueço que sofri, começo a cantar e a balançar a cabeça. O cansaço, posso suportar. E sigo em frente...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Pois o que mais é o amor?&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-3680042602470635310?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/3680042602470635310/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/10/seu-desabafo.html#comment-form' title='38 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/3680042602470635310'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/3680042602470635310'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/10/seu-desabafo.html' title='Seu Desabafo?'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>38</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-638279409439926980</id><published>2010-10-14T21:30:00.004-03:00</published><updated>2010-10-16T15:46:00.533-03:00</updated><title type='text'>O Tecelão de Sonhos - Parte I</title><content type='html'>&lt;a href="http://fc06.deviantart.net/fs46/f/2009/192/8/0/Cemitery_Gates_by_powertangerine.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 397px; DISPLAY: block; HEIGHT: 409px; CURSOR: hand" border="0" alt="" src="http://fc06.deviantart.net/fs46/f/2009/192/8/0/Cemitery_Gates_by_powertangerine.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Era ela a razão proeminente de toda a minha existência. A razão de tudo. Dez passos distante, e estava bem ali: o verdadeiro motivo pelo qual minha existência fez-se necessária. A experimentação devidamente germinada e crescida. Experimentação profusa de todos os sentimentos em uníssono, reverberando em cada canto das saliências de meu íntimo. O ápice das sensações humanas, da parafernália sentimental que outrora eu me fazia descrente. Pois eu não haveria de me focar naquele caixão, ainda que fosse o berço do cadáver de meu pai, enquanto aquela silhueta de fogo insistisse em me queimar com as chamas de sua beleza diabólica. Diabólica...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lágrimas, sobretudo as lágrimas dos falsos. E a multidão se ocupava em zumbidos perfumados pelo odor de doce morte, das rosas tantas. Mas eram naqueles lábios mais vermelhos que aquelas rosas que eu me perdia. Nas inúmeras ranhuras que desenhavam infinitos labirintos num terreno de pecado. E eu me perdia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À mercê de uma erupção nunca antes sentida de inúmeras cenas pecaminosas que salpicavam minha mente, invadiu-me um torpor ludibriante. Uma ou duas pessoas - e até mesmo meu irmão - vieram jogar palavras pífias ao vento e eu respondi com meros arqueares de sobrancelhas, sem o pesar na consciência que a polidez dos ricos manda. Pensaram que minha postura pétrea era o símbolo da tristeza avassaladora que um filho primogênito normalmente sente diante da morte de seu pai. Enganaram-se: minha relação com o morto era de apenas gratidão. Afinal, ele que promovera aquele encontro. E essa indiferença gélida fora outra descoberta do arcabouço fosco que eu era para mim mesmo até então e até agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E por minutos permaneci, como uma estátua viva, alheio às perturbações externas. Pois não havia energia para desprender em nenhum movimento expressivo sequer, senão a que eu necessitaria para me manter ali, estático. A energia que me impediria de contrair toda a minha musculatura e ir ao encontro daquela mulher para tomá-la entre os braços e fazer dela minha posse, minha prece, meu prêmio e recompensa. Em pleno velório... Mas energia para desviar o olhar, não - essa eu jamais teria. E ela respondia! Dentro de suas órbitas grandiosas reinavam pequenos círculos azuis, de resplandecência equiparável a um cristal. E todo o meu campo visual precisava se cruzar ali, para compreender a perfeição daquela obra, o que fez desaparecer todo o resto da Terra numa névoa disforme. Só nós dois, encarando-nos como conhecidos de uma eternidade, restamos de pé naquele palco de morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não saberia precisar por quanto tempo permanecemos até que cada convidado evacuasse o cemitério. Por quanto tempo aguardamos, aos frêmitos nos corações, o almejado momento de consumar o contato que nossos corpos e almas sentiam sede. Mas, ao perceber que finalmente a polpa de sua feminilidade poderia agora ser degustada pela minha fome, disparei ao seu encontro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela foi mais rápida. Antes mesmo que eu pudesse vê-la se movendo até mim, sua boca sequiosa emaranhou-se na minha, como se almejasse vasculhá-la em busca do sorvedouro daquele êxtase doentio. As mãos afundaram por dentro de minha camisa. Tinha força! Ouvi o barulho do tecido rasgando, mas não ousei abrir os olhos para ver a que trapos minha camisa se reduzira. Abri-los significaria emitir um convite à realidade. O que eu queria era a fuga. A evasão do significante, a ausência de significado. Que fosse quimérico, escabroso, perverso e até nojento! Por minutos, que eu me permitisse fugir das amarras dos preceitos sociais, da boa conduta. E ao passo que meu corpo ia sendo conduzido por aquela silhueta estranhamente gelada, eu mesmo construía no breu da mente o retrato daquela cena: dois maltrapilhos que procuram se fundir para preencher o vazio que são. E por serem dois vazios, quando se unem, nada encontram. Prosseguem procurando. Prosseguem expressando nas manobras corporais as frustrações, as cicatrizes que a auto-piedade habilmente destaca. Depois, percebi que estava enganado: o único vazio dessa triste peça era eu. E hoje, ainda mais. Infinitamente mais vazio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ruiva movia-se com selvageria. Ao líquido prazer que serpenteava minhas veias, adicionou o tempero da dor. Dor física. As engrenagens da insanidade giravam rápidas demais. Eu já não sabia se era tarde ou noite, se fazia frio ou calor. E não abriria os olhos. Não conseguia lembrar detalhes do cemitério, se meu pai já havia sido ou não enterrado, como meu pequeno irmão fora embora para casa. A respiração entrecortada da desconhecida eriçava os pêlos de cada centímetro de minha pele. Eu já não sabia o que ela estava fazendo comigo, as sensações adormeciam aos poucos. Um estúpido anestesiado, eu. Era apenas silêncio, culpa e angústia naquele vórtice que me levava ao desespero. E eu não abriria os olhos, agora por medo. Mas o fiz, imberbe no meu último impulso de orgulho. Eis que encontro, finalmente, quando a vejo mordiscando-me abaixo da mandíbula, uma sensação fácil de ser reconhecida: dor. Seus caninos em espículas mergulharam em minha pele. Então, como um final desafinado de uma música triste, surge meu último pensamento enquanto humano: fui tolo em imaginá-la sentimentalmente envolvida...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando abri meus olhos novamente – e nesse momento eu não sabia que estava morto -, a silhueta feminina agora nem um pouco atraente exibia uma face de escárnio petrificada, como se fosse parte de sua feição mais natural. Como não reparei antes? Olhava-a, na busca de entender o motivo da absurda dominação que ela outrora exercera sobre mim. Afugentei os pensamentos, concentrando-me no que poderia ter acontecido. Quando sua voz irrompeu nas paredes daquele cômodo escuro, que eu não sabia precisar a localização e nem mesmo há quanto tempo estava ali, senti a ausência de vida em cada tom que sua boca sibilava. E sibilava devagar, bem devagar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você herdará a empresa do seu pai, não é? – desenhou um sorriso de meio lábio e continuou, antes que eu respondesse – A resposta é não. Eu herdarei. Quero todo o dinheiro, e tenho certeza que você será solícito em sua colaboração! Volte para a empresa amanhã, e só trabalhe à noite. – aproximou-se e, num átimo de segundo, colocou-me de pé utilizando apenas uma mão, que me abraçara o pescoço com voracidade. – Eu não irei atrás de você, não se preocupe. Na verdade, você virá atrás de mim...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A marca de suas falanges eram como brasas crepitando. Sentia estar dentro de um corpo que não era o meu, o verdadeiro. E, portanto, não encontrava nele forças para reagir. No fundo, sabia que não poderia. E mesmo diante do que ela dissera, não havia expressão nenhuma de minha parte. Era como se eu desconhecesse o sabor dos sentimentos. A despeito de a dor estar bem latente. Como se eu suportasse o peso de uma casca morta. Gélida. Uma carapaça acinzentada que, naquele instante, estava criando um laço de dependência para talvez toda uma eternidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Virá atrás de mim quando sentir fome. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-638279409439926980?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/638279409439926980/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/10/o-tecelao-de-sonhos-parte-i.html#comment-form' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/638279409439926980'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/638279409439926980'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/10/o-tecelao-de-sonhos-parte-i.html' title='O Tecelão de Sonhos - Parte I'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-7739066480872731525</id><published>2010-09-23T20:56:00.008-03:00</published><updated>2010-09-25T11:55:37.558-03:00</updated><title type='text'>O Maestro e a Bailarina</title><content type='html'>&lt;a href="http://www.elenamorando.com/images/dead%20flowers/0815-dead-flowers.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 319px; DISPLAY: block; HEIGHT: 378px; CURSOR: hand" border="0" alt="" src="http://www.elenamorando.com/images/dead%20flowers/0815-dead-flowers.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Três semanas... Três semanas e eu ainda não havia entregado o buquê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pouso meus olhos sobre a plástica capa que o cerceia. Há pequenas gotículas negras... Não digo que acordo. Não durmo. Levanto, porque os feixes de luz me incomodam. Esquentam as ranhuras das sobrancelhas. E quando volto a fitar as pétalas carcomidas, adormecidas na base da janela, deprecio sua aparência ao dar vida a um suspiro quente e lúgubre. Aquelas gotas eram gotas de quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tempo, o frio, o vento... Mesmo na base da janela, o que havia esfarelado a haste verde antes tão rígida? Com espinhos antes tão incisivos... E vem uma lufada de agonia a contrair meus músculos. Uma constrição no peito que dói, muito! Ele precisava viver! E se não estivesse vivo – pois não sei quando um vegetal morre –, só me bastaria fingir. Não vejo com clareza a linha que separa minha vida de uma mentira viva. E com a falsa disposição de um bom mentiroso, tomo-o entre minhas mãos enlameadas de suor e vodka. Protejo-o...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou seria o contrário?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o caminho era, embora curto, deveras pedregoso. Comumente, detenho-me no próximo cômodo. Os ombros arqueados, a respiração em frêmitos. O olhar fugidio a buscar abrigo na pequena sala de estar, outrora tão acolhedora. O olhar fugidio que cedo ou tarde decai sobre aquele armário. E decai, e decaio. Eis o móvel de sucupira. Majestoso, imponente, como se me enfrentasse pela milésima vez, já certificado de sua vitória. Ocupava dois terços da extensa parede que se alinhava à janela do lado oposto. Poucas gavetas porque não havia o que esconder: tudo estava bem ali, todas aquelas fotos que costuravam com o tecido de minha alma as memórias que minha mente lutava em afogar nas águas turvas da miséria que eu era e sou. Cerro os punhos ao redor das flores já frágeis e observo, resignado como um mendigo diante do almoço sujo, algumas pétalas pendularem até o chão, cristalizadas na morte. E invejo-as, pela profusão da liberdade que aquele fenômeno representava. Partir e partir-se sem dor. Num silêncio etéreo e absoluto. Talvez... Talvez fosse possível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imberbe no cenário florido de suicídio, retorno. Sou desse mundo. Desse mundo sou carne e dessa carne sou dor e dessa dor, prazer. Dor e prazer, miscíveis em cada lágrima desprendida e em cada sorriso de derrota. Pois não consigo desatrelar os motivos que me mantém vivo do sofrimento que minha vida transpira. O sofrer é o único meio de me conectar ao que eu realmente sou. A única forma de me exteriorizar e me reconhecer em meio a tantos desconhecimentos e estranhamentos como verdadeiro controlador do meu corpo. E que aqui me reteso, com os ombros ainda mais arqueados. O inevitável: retorno às fotos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que me surpreendia nela era que tudo o que a compunha era dança. Quando me atento ao porta retrato no centro, em que ela se abria toda para um sorriso e enforcava-me num abraço de veludo, sou capaz de vê-la em cada um dos seus movimentos tão penetrantes, ainda que delicados. Seus cabelos, os passos serelepes a correr ao meu encontro. Tudo era dança. E eu: o esquálido maestro. Suzane era a personificação de tudo o que compunha o meu paraíso. E nesses momentos que busco na minha memória seus atributos tantos, odeio-me com fervor por saber que algo dela eu estou perdendo. Que o tempo leva de mim, aos poucos, cada fragmento de sua vida breve. Porque no fundo eu sei do amor, sei que fui inflamado. Mas há algo faltando! Já não tenho certeza se lembro de sua voz. Depois de inúmeras noites esbaforindo-o, e quase bebendo-o, o perfume se esvaziou por completo e seu aroma se foi. Sei que era de flores... Qual? Mas as imagens estavam ali... E jamais sairiam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nossa paixão consumiu-se num fogo de chama única. Embebidos na euforia doente que acomete os apaixonados, decidimos por dividir uma casa. Essa casa. Esse espaço que foi do leito de intimidade ao covil de um caixão escuro. E vivemos dias raiados em beijos e beijos... Que secaram ao longo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois a dança findou-se. Quando irrompia pela porta da casa, já não se abria em sorrisos. Já não corria ao meu encontro. Algo fragmentara os alicerces que a sustentavam e a semente desse mal desgrenhava suas raízes a cada dia. E nessas raízes que germinou o cerne de meu martírio: pois nada fiz, nada falei em consolo, nada expressei em preocupação. A mulher que eu considerava perfeita chorava de madrugada, na cama ao meu lado, e nem sequer um questionamento sobre seu estado saíra de minha boca rachada. Eu simplesmente dormia. Ranheta, por completo. Com os olhos titubeando nas periferias, eu tudo observava, mas fulgurava dentro de mim um medo que me deixou estático. E os pensamentos cômodos tantos (Devia ser uma fase. São coisas do serviço dela...)! E as engrenagens do tempo, implacáveis, não me perdoaram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a saliva ácida corrói a base da minha língua. Quando me coloco aqui, diante desses portais do tempo que são essas fotos. Portais de lembranças somente minhas, onde somente eu sou responsável por sua existência. O que significa que basta eu deixar de existir, e que a música que movia a dança de Suzane se esgotaria por completo. Não, ainda que fosse essa melodia triste, não podia interrompê-la! E era por respeito – e mais num autoflagelo de pura soberba – que eu precisava entregar aquelas flores. Mesmo mortas. Mesmo ela morta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não, mas ela liquidou o sofrimento, com uma faca a ceifar seu próprio pescoço. Trêmulo, passei dias vagando como um completo zumbi humano. Fétido como um. Sem sinais vitais expressivos, desejos ou sonhos. O laudo do Instituto Médico Legal alegara que, semanas antes do incidente, minha futura esposa tinha sofrido um abuso sexual. E afundando mais no mar de minha própria covardia, não procurei saber mais nada sobre o ocorrido. Cheguei a me convencer (e ainda penso nisso como algo plausível) de que tudo era um engano. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;E desde então, da cama suja para esse cômodo. E nada mais. Das vodkas que me sequestram dessa realidade maldita para os tapas na cara que esse passado aqui desenhado me desfere. E muitas dores que não me causam dor. A pele quebradiça que me reveste já se pode ver margeando os flancos de músculo. Era um nojo pensar em comida. Mas o nojo maior sou eu. Encurvado feito um animal tendo piedade de mim mesmo. E a carne esfarelando. Nos pensamentos mais sórdidos que me circundam, percebo: nunca a amei. E não a amo, ainda. E talvez nunca ame ninguém. Porque todo aquele culto a sua imagem era um amortecedor para a minha consciência putrefata. Pois de nada vale a paixão sem coragem. Já que é, em sua totalidade, fruto de uma obra esculpida pelo tempo para que fique intacta. Eu, maestro patife e escultor torpe, concluí a obra cedo demais. E ao perceber isso, rendo-me:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixo as flores padecerem ao chão. E vou junto.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-7739066480872731525?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/7739066480872731525/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/09/o-maestro-e-bailarina.html#comment-form' title='14 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/7739066480872731525'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/7739066480872731525'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/09/o-maestro-e-bailarina.html' title='O Maestro e a Bailarina'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>14</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-1647384914683398840</id><published>2010-08-25T23:05:00.003-03:00</published><updated>2010-08-26T20:09:32.742-03:00</updated><title type='text'>Lábios de Lodo</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/THXMKCx_4xI/AAAAAAAAAEA/DmkpBVa-iY0/s1600/Hidden_in_falling_by_crocodylian.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5509534192075006738" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; HEIGHT: 324px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/THXMKCx_4xI/AAAAAAAAAEA/DmkpBVa-iY0/s400/Hidden_in_falling_by_crocodylian.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Eram nos seus lábios de lodo que eu encontrava o sorvedouro daquele torpor. Um torpor de líquido azedo, de gangrena ácida. Que se alastrava por cada palmo de meu corpo. E de tremores extasiados na nuca seca. Naqueles lábios de ranhuras tantas, de digitações tamanhas - como fendas num campo virgem. De carne e carne e deveras carne rósea a ser inflamada pela chama do animal humano. E degustada e sugada até o lúmen da insanidade. Porque não havia mais nada senão aquele momento, aquele instante que alongava os segundos. Mas encurtava a vida. E creio que todos deveriam se voltar para nós dois, observando a proeminência de nossa entrega mútua à essência da qual germinamos. A semente do pecado que nos envolve em sua casca podre, as ramificações do que é errado e circula em nossas veias senis. As raízes do nosso amor que se fazia amor só no silêncio de cada beijo áspero: a traição.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ali, nos prensávamos numa quina de parede. Eu com a mão espalmada. A parede gelada. A cabeça encurvada. E a postura... A postura de completa resignação, de clemência por misericórdia. Misericórdia divina? Mas se há Deus para todos, há para os traidores. Não fora ele quem nos ascendeu ao pecado? Talvez em busca de minha própria misericórdia, então. E crispávamos nosso lábio num só nó, cego, que não avistava o fim da noite. E ainda assim faltava fôlego. Aquela secura na garganta que precede a dor. Afundei a mão direita e puxei-lhe os cabelos desgrenhados para mais desgrenha: pois eu era uma bagunça só. E talvez eu projetasse ali o meu infortúnio. Eu provava do que eu era. Eu afundava nos mares de sua intimidade para me conhecer. Aos meus limites, às feridas tantas que se esconde por sociabilidade e que são proibidas de boiar e respirar. Às cicatrizes mal feitas e latentes. Latejam rente ao ouvido na pulsação eufórica. Quero que a dor passe.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Amor... Quem virá me falar de amor? De amor puro? Quem virá falar de fidelidade para alguém que nunca foi amado de fato? Quem ousa evocar honestidade sem vestir a carapuça que é essa desgraça de corpo e de mente que me encarceram? Pois que julguem! Que gastem toda a saliva para proferir os mil júbilos de má fé! Fingirei que não me importo. Melhor, perderei mais tempo mordiscando essa boca gorda para não pensar nisso. E para provocá-los e me provocar e provocar essa organização turva que alicerça a existência que já nasce morta brincando de viva. Não sei se nasci pra conveniências, pra coisinhas pré-determinadas e regras inquestionáveis. Se um dia eu me atrelei nesses compromissos, hoje me arrependo. O que tenho não é só para uma pessoa. Há força demais dentro de mim para eu desprender numa silhueta só. Há chamas demais que me queimam para uma pessoa só me salvar. São tantas e tantas cadências. No meu passado – tantas saliências. E reticências. Há em mim um céu de covardia tão lindo. Sou covarde...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;E o fim do beijo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Eis o efeito colateral: o que antes era belo exala um cheiro enojado. Diálogos toscos, frases de prontidão. Eu quero logo é o silêncio profundo. A calmaria que a solidão dá, antes do martírio da consciência. Sentei no chão e cobri os joelhos com as mãos suadas. E a corpulência toda se reduz a uma esferinha de homem. E o suor das mãos sinto também no rosto empalidecido de um medo cru. O suor de um quente culpado. Culpado... E o celular toca:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Eu atrasei no serviço, meu bem. Em meia hora estarei em casa.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-1647384914683398840?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/1647384914683398840/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/08/labios-trincados.html#comment-form' title='20 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/1647384914683398840'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/1647384914683398840'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/08/labios-trincados.html' title='Lábios de Lodo'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/THXMKCx_4xI/AAAAAAAAAEA/DmkpBVa-iY0/s72-c/Hidden_in_falling_by_crocodylian.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>20</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-3063076881294466483</id><published>2010-08-10T17:34:00.005-03:00</published><updated>2010-08-14T11:48:06.001-03:00</updated><title type='text'>Guardanapos - Parte III</title><content type='html'>&lt;a href="http://fc03.deviantart.net/fs28/f/2008/086/d/1/no_smoking_2____by_tarikkeskin.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 433px; DISPLAY: block; HEIGHT: 665px; CURSOR: hand" border="0" alt="" src="http://fc03.deviantart.net/fs28/f/2008/086/d/1/no_smoking_2____by_tarikkeskin.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;- É... – e dois extensos segundos se passaram – acho que nosso lugar no inferno está garantido!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;E foi dobrando e dobrando e dobrando até que o guardanapo tornou-se um pequeno quadradinho. Guardou no bolso da jaqueta. A mulher, que seguia o papel se diminuindo nas mãos de cera do homem, não sorriu. Como se nem ao menos tivesse ouvido o que João Paulo dissera. No entanto, ouviu para muito além do ouvido. Retiniu no crânio e borbulhou na mente. E questionou-se sobre inferno, coisa que nunca fizera em vida. Era coisa pra mortos se preocuparem - seu costumeiro ideário. Mas o inferno lhe pareceu tão convidativo! Nele, os pecadores não a mirariam com olhos de julgamento. Com aquela expressão de sobrancelhas mortas e lábios crispados em meia lua que tanto odiava. A piedade estampada nas feições... Afinal, seriam pecadores como ela! Ou, se olhassem de um jeito pedante, ela também poderia fazê-lo. E fez, para a mesa que viu na sua frente, imersa em suas conjecturas fantasiosas. Naquele instante o inferno configurou-se como talvez a única expressão de liberdade que ela poderia sorver. Porém, não pensou em morte.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Acho que você precisa de cigarros... – murmurou para si, derramando um maço inteiro diante de Gabriela – Fume e diga alguma coisa, moça.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Havia mais tempo. Ele lhe dera mais tempo. Sem cerimônia, fumou a tragadas fortes. Permitiu-se contemplar a paisagem que bordava pequenas linhas vermelhas e costurava o céu, ainda lutando para fortalecer o tom azul tão prematuro. Mais um dia e ela nem dormira. Alguém encerrou a música que se repetira durante horas nos fundos do bar. Uma gorda surgiu, quebrando a dualidade daquele cenário. Lavava pratos sujos sem muita paciência, o rosto carrancudo. O som da água arranhando a louça era a nova sinfonia daquela cena.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Não tenho o que dizer. – pontificou, com a voz impregnada de uma rouquidão áspera que nem ela mesma se sabia detentora.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Conte-me sobre como isso tudo ocorreu, então...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A gorda rangia os dentes. Dois barulhos: os dentes e a água. Os dentes e a água... A torrente alternava a vazão numa lógica incompreensível. Gabriela pôs-se a fitar a torneira enferrujada. Como queria um banho! Pensou que talvez pudesse ser como uma daquelas louças. Que debaixo da água, despida de quaisquer pudores acerca de suas máculas, pudesse se purificar. E que a exibição das tantas feridas fosse, em suma, a penitência que a limpeza exigiria. Mas ela teria que lavar a si e a outros. Pois pecados não acinzentam a alma apenas do pecador. Há a vítima. Vítimas. Vítimas que já se foram e que então não poderiam ser simplesmente lavadas numa água sacra. Que glosa ingênua, a que perpassara seus pensamentos... Elas estariam no inferno, essas vítimas? Voltou a caricaturar o inferno. Só conseguia pensar em fogo e cinzas. Desconhecia o cheiro de enxofre... E a simples ideia que ela ouvia no subconsciente fugia por todas as quinas da consciência. Ela não queria pensar. Não queria enfrentar. Uma pergunta que ela nunca poderia se fazer: teria mandado dois filhos para o inferno? E antes de concluir já imaginou um acervo de respostas. Não! Claro que não! Eram apenas fetos, o que poderiam ter feito para merecer o inferno? A voz da mãe ao pé do ouvido: quem suicida, quem nega a vida e a benção de Deus, tem um destino muito claro...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Mas fui eu quem os matei! – vociferou de imediato, afundando as mãos nos cabelos curtos em impaciência.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A gorda olhou de soslaio. Nem uma nesga de reação - provavelmente não ouvira com detalhes. João Paulo pareceu interessado naquele torpor eufórico, mas ainda assim sorria. O cenho franzido. Gabriela se deteve naqueles dentes pontiagudos... De cobra. E aquela brancura lhe pareceu diabólica. E voltou a desconfiar com o fastio de sanidade que lhe invadia. Não se lembrava direito como aquele indivíduo surgira há algumas horas atrás, tampouco no que o fizera sentar-se ali, tão próximo em sua distância. Ele estava sorrindo. Estático. O casaco de couro curtido era entrecortado por feixes de luz matutina. Havia algo nele de atraente. Porém perigoso: e talvez atraente por isso. Uma identificação entre duas almas corrompidas e malignas. Que mesclava no mesmo caldo sujo pecados inconfessáveis já confessados. Um líquido de que ela poderia embebedar-se e banhar-se e afogar-se sem medo. A purificação pelo avesso. Pois ele deu a ela algo que ninguém jamais ousou. Tempo. Pela primeira vez Gabriela olhava os ponteiros do relógio na parede sem sentir aquela dor inexplicável que ceifava seu peito. E lacerava seus dias com as lágrimas tantas. Não sentia fome ou sede. Senão a fome de liberdade e a sede por misericórdia. Os ponteiros revelavam a iminência de algum juízo final o qual ela não poderia ser submetida. Ali, naquele vórtice ilusório, sentia tranquilidade. E uma vergonha incipiente. Já que ele estava bem ali, o dono de seu tempo, e ela respondia somente com silêncio – sem saber que esse mesmo silêncio era sua maior paixão. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Podíamos sair daqui. – e apontou para a gorda com uma leve inclinação de cabeça - Não falarei o que houve nesse lugar. – desdenhou, retomando a vivacidade do rosto e dos lábios já fendidos de secura.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Por mim tudo bem. Eu estou de moto, posso levá-la onde quiser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vamos para a minha casa.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ele acenou, agora mais sério. Ela, em síncope. Pela primeira vez se fez vítima de um olhar tão penetrante. E cogitou cenas. E só cogitar doía. Sua cama estaria arrumada? O homem colocou-se de pé e pareceu-lhe muito mais corpulento. A feminilidade em ebulição. Fervilhava a garganta. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Não tem problemas com moto? – um roto cortejo?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Nenhum – uma talvez mentira.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Vou buscar a moto e espero em frente o bar, então.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Gabriela concordou. Quando a silhueta de João Paulo sumiu nos corredores, a mulher pôs-se a catar cada cigarro da mesa e afundá-los em sua bolsa com a gesticulação própria de um esfomeado. Aprumou o busto, retocou com cuidado o batom carmesim no vidro embaçado e ensaiou algumas palavras incisivas. Uma risadinha de impaciência consigo mesma. Quando enfim levantou, notou que o companheiro esquecera uma pochete no banco em que estava acomodado. O zíper entreaberto a impediu de ignorar: um revólver.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Pegou a pochete e foi. Como uma ratazana à caça.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-3063076881294466483?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/3063076881294466483/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/08/guardanapos-parte-iii.html#comment-form' title='20 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/3063076881294466483'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/3063076881294466483'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/08/guardanapos-parte-iii.html' title='Guardanapos - Parte III'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>20</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-645298395641126871</id><published>2010-08-05T16:02:00.009-03:00</published><updated>2010-08-05T18:12:24.795-03:00</updated><title type='text'>Memórias Amargas</title><content type='html'>&lt;a href="http://fc05.deviantart.net/fs20/f/2007/295/a/3/Cup_of_Tea_by_ERIN_boo.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 484px; CURSOR: hand; HEIGHT: 339px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://fc05.deviantart.net/fs20/f/2007/295/a/3/Cup_of_Tea_by_ERIN_boo.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Você não vai ver seu pai, Matheus?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Que chá amargo! Como um rio furioso que dissolve suas margens - minha garganta. Esse chá amargo. Portanto bebo-o devagar. Um gole, três ou quatro pensamentos. Tem muito chá nessa xícara gorda! Poucos pensamentos, na mente vazia. Então os mesmos se repetem. E se repetem... Duas bolachas de queijo. Beberico, mordisco. Queijo enjoativo!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Todos os seus parentes estarão lá... &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Levanto-me num supetão desengonçado. Precisava de música! Uma frequência qualquer numa rádio qualquer. Samba? Até que está bom... Poderia sorver aquele som ao mesmo tempo em que respirava. Inspirava, expirava. O diafragma se contraindo descontroladamente. Sinto como se a quentura do chá amargo fosse incapaz de desfazer a gélida sensação que preenchia meu interior. E que fazia até o chá parecer frio. Além de mim. Tombo a cabeça ao assoalho. Pendulo no eixo encarando meus próprios pés. E pendulo... O samba no clímax. Dois passos pra lá, um passo para cá. Em qual mês mesmo foi o desfile das escolas de samba? Quem venceu? E os passos me levam à janela. E me debruço. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Vão perguntar por você. Acho melhor desligar o celular. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Lá na rua poucos transeuntes. Há uma mulher com uma sacola grande. Meio verde... Penso que são frutas. Toda em forma de ameba, ela. E atravessa... O sinal também verde, mas não há carros. Nem mesmo um barulho de cidade. Apenas o samba. O cabelo encrespado num coque, posso vê-lo agora que ela vira a esquina rebolando. Seriam mesmo frutas? Vou até a mesa e desligo o celular. Apenas hoje não quero a voz de ninguém. Nada de parentes me aborrecendo. Nada de amigos. Nunca os tive e agora eles aparecem... &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Não vai demorar muito até que venham até aqui... &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Mas que merda! Não entendo essa mania de me perseguir! Todos fazem o que querem, no momento que querem. Quem são para me julgar? Meu irmão não dá as caras há anos. A irmã, fugiu o quanto antes para o exterior... Quem são eles para falarem qualquer coisa que seja comigo? Eu já nem ouço mais o samba... Esse ódio fulminante retumbando no crânio. Dor de cabeça... Desgraçadas, essas normas de boa conduta. Volto ao chá. Amargo! &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Mas você passou tanto tempo com ele! &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Alguém cala essa voz! Não adianta balançar a cabeça, esmurrar a parede. Já tentei... Por favor, alguém a cale! Imploro! Eu sei que passei muito tempo com ele. Lembro-me muito bem: horas e horas fitando aquelas paredes brancas carcomidas pelo tempo. O assoalho de porcelana refletindo qualquer coisa. Sentava-me na cadeira branca, a olhar para qualquer coisa. Já não tinham revistas antigas que eu já não as tivesse lido por inteiro. E meu irmão cuidando de sua familiazinha de etiqueta. A caçula usurpando algum otário por aí. E eu lá... Meses e meses a fio. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Tenho certeza que ele gostava tanto de você! &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Cale a boca! Cale! Já fazia mais de um ano que ele nem sequer olhava-me no rosto. Não sabia quem eu era. Chamava-me pelo nome de meu tio, de meu irmão. Até pelo nome de minha mãe! Quando as complicações mais sérias surgiam, ele dizia que eu não cuidava bem dele. Que eu era um estorvo, uma despesa que deveria ter sido abortada. Eu olhava resignado, no esforço de não tampar os ouvidos. Com o olhar cético de um resignado complacente. E como aquilo doía! Todos os dias, ao acordar, rezava – mesmo sem Deus e sem fé e sem amor – para que ele ao menos pudesse me abraçar em sinceridade. E eu perdoaria tudo. Bastaria um abraço... Apenas um. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Essas complicações acontecem... &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;E o abraço nunca veio! Não conseguia se mover, nem esboçar qualquer reação diante do mundo. Nenhuma lágrima fluiu de meus olhos, eu simplesmente sentava e pegava uma revista. Fingia que lia. De meia em meia hora olhava-o, desconfiado. Esperava uma reação milagrosa. E ao mesmo tempo preferia-o quieto. Em primeiro plano, que a memória retornasse! Os enfermeiros entravam e saiam trocando olhares comprimidos, um ou dois suspiros. Larguei o emprego, a dedicação precisava ser integral. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- E você não queria... &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Evidente que não! Quem quer desprender horas e horas de seu tempo para cuidar em vão de uma peça humana que se reluta em morrer de uma vez? E todo momento em que penso nisso, um silêncio tenebroso envolve-me como um manto. Fúnebre em toda a sua extensão. Mas ele era um cadáver vivo, e nada mais. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Você desejou. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;E não posso vê-lo nesse velório, sabendo disso. Ele não me deu um simples abraço que tanto esperei. E eu não o verei. Afundo em amargura, apodreço em azedume. Esse fardo é eterno. Mas, enquanto houve tempo, eu fiz o que pude. E sei que ninguém jamais reconhecerá.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Tudo bem. Sente-se. Beba outro gole de chá.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-645298395641126871?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/645298395641126871/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/08/memorias-amargas.html#comment-form' title='16 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/645298395641126871'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/645298395641126871'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/08/memorias-amargas.html' title='Memórias Amargas'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>16</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-8013764973094339111</id><published>2010-07-27T19:27:00.006-03:00</published><updated>2010-07-27T19:43:41.825-03:00</updated><title type='text'>Guardanapos - Parte II</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/TE9dtxAjdQI/AAAAAAAAADw/oaKJUIx6cFs/s1600/Baby_Cradle_by_Kaitrosebd_Stock.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 311px; DISPLAY: block; HEIGHT: 400px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5498716710873822466" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/TE9dtxAjdQI/AAAAAAAAADw/oaKJUIx6cFs/s400/Baby_Cradle_by_Kaitrosebd_Stock.jpg" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;br&gt;&lt;br&gt;Pouco se poderia dizer sobre aquela pequena silhueta. Nada mais que uma pequena silhueta. Crianças: ou são agitadas ou quietas. Bonitas ou bonitinhas. Choram ou não. João Paulo ascendia glorioso em seus cinco anos sem muitas lágrimas, resignado sempre e de traços retos. Já masculinizados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;?xml:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Mas onde estava o cerne de sua beleza? A fonte era desconhecida... Pois quem o olhava via-se diante de uma presença que era só presença. E só. Contemplava um olhar enevoado que nada focava, mesmo encarando todos que se colocavam diante de si com uma austeridade infantil que não divertia a ninguém - amedrontava. E os sorrisos que pareciam ensaiados, as gargalhadas entrecortadas tão sociais. Assistia aos seus desenhos como que por obrigação, com as mãos repousando nos joelhos. O volume sempre baixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Pois entre tudo que seus sentidos sorveram até os completos cinco anos, o silêncio era o que mais o agradava. Acalentava de modo a fazê-lo invejar os surdos. Não precisava de vozes ou de sons, nem mesmo do atrito áspero do ar abandonando as narinas. Necessitava apenas de ouvir, ver, tatear, aspirar e engolir o silêncio e ser engolido por ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Os vizinhos poucas vezes o viam com a mãe. Não sabiam se ali morava um pai. A mulher de poucos amigos saía cedo, altaneira. De vaidade escarlate. Os cabelos soltos em ondas vermelhas. E o quadril ondulava pelas ruas, indo. E vindo - só se já era início de noite. Então descobriram que João passava muito tempo sozinho. E da perplexidade do que muitos considerariam abandono, nascia uma maior e corrosiva: nada mais o garoto fazia, senão se colocar no sofá, com as mãos deitadas, simétricas e paralisadas, sobre os joelhos delgados que procuravam crescer para atingir o assoalho. E nada ele parecia esconder, nada parecia se deteriorar em sua realidade solitária. Apenas uma presença, um ponto no universo. Que os vizinhos espreitavam pela única janela que recortava a sala de estar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Notaram que a mãe engordara, os mesmos curiosos. João Paulo sorriu complacente ao ver o irmão, pouco familiar, ocupando o berço que outrora fora seu. E em semanas a mulher galgava novamente pelas ruas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;No decoro da boa conduta, ofereciam ajuda para mimar o recém nascido. O primogênito arqueava o cenho em agradecimento. Mas recusava qualquer oferta, fechando a porta aberta sempre em ângulos rasos. O bebê chorava alto, espavorido, estridente, agudo, até que o início da noite então chegava. João Paulo entendia: era a ausência da mãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Noutra tarde o caçula berrava como costumeiro. Pela janela quadrada uma senhora mais curiosa que as outras sentia o coração titubear ao sentir a imensidão do vazio daquela silhueta pétrea que parecia flutuar no divã. Os soluços agonizantes que engasgavam o recém nascido de minutos em minutos não pareciam exercer nele um frêmito sequer de reação. Mas dentro do garoto as coisas eram diferentes. Tudo queimava, tudo era fogo. Tudo doía e encarcerava e corroia e dilacerava sua paz silenciosa! Crispou os lábios ao perceber que era vigiado. Agora já alcançava o firmamento. A mulher não suportou o olhar etéreo da criança e se foi. Mesmo assim, João Paulo tampou as janelas com as cortinas brancas. E foi até a cozinha. Pegou alguns brancos guardanapos. E se dirigiu ao quarto do irmão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Entrou a passos calmos. E aquele som que reverberava em cada quina de parede parecia cortar-lhe a pele, ceifar-lhe o espírito. Mas não exibia um gemido de dor. Sequer um suspiro. Passos calmos o levaram até o berço. Já era alto o suficiente para um olhar imperioso, que encontrava o bebê como um raio que despenca em terra virgem. E ele ainda chorava. A boca fatalmente aberta. Bem diante de si, ali, encarando-o. O seu maior e único algoz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;A boca de onde toda aquela torrente de notas destoantes invadia-lhe os ouvidos sem autorização. A boca de lábios encharcados do caldo de saliva e lágrimas. A boca que tampou sem hesitar, com os guardanapos que empunhava. Pressionou-os com uma força que não sabia ser detentor. Que nascera de todo aquele cárcere em que sua alma se alojava. Da chama que o consumia e que fazia dele sua própria pólvora e cinzas. Os olhos da criança vibraram nas órbitas. E depois ficaram estáticos. Retirou-se sobre os mesmos passos calmos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;E enfim foi engolido pelo silêncio novamente. E para sempre.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-8013764973094339111?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/8013764973094339111/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/07/guardanapos-parte-ii.html#comment-form' title='14 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/8013764973094339111'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/8013764973094339111'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/07/guardanapos-parte-ii.html' title='Guardanapos - Parte II'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/TE9dtxAjdQI/AAAAAAAAADw/oaKJUIx6cFs/s72-c/Baby_Cradle_by_Kaitrosebd_Stock.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>14</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-5967466418001169592</id><published>2010-07-12T23:48:00.012-03:00</published><updated>2010-07-13T00:42:54.121-03:00</updated><title type='text'>Guardanapos - Parte I</title><content type='html'>&lt;a href="http://th05.deviantart.net/fs12/PRE/i/2006/268/4/e/Smoking_1_by_SEA3886.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 360px; DISPLAY: block; HEIGHT: 561px; CURSOR: hand" border="0" alt="" src="http://th05.deviantart.net/fs12/PRE/i/2006/268/4/e/Smoking_1_by_SEA3886.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;A cabeça se inclinava para a janela. Preguiçosa. A fumaça do cigarro se misturava ao vapor inebriante do café quente. E embaçava. Mas não tinha o que olhar do outro lado do vidro. Seus olhos, também de vidro - de cacos de vidro – se limitavam a observar a mancha fosca se alastrando em seus tentáculos. Os cabelos de um loiro quase branco estavam eriçados de um jeito pouco feminino. Rebeldes. Lábios róseos, levemente crispados. Rosto pontudo, maçãs sobressalentes. Olheiras profundas... Ela e a janela: foscas. E pela analogia que ela mesma fizera sobre tal semelhança, desprendeu-se um longo e triste suspiro. Voltou-se a xícara, esfriando o café em sacudidelas circulares. Do outro lado da vidraça não era possível dizer se era noite ou início de dia. Do outro lado de Gabriela, encontrava-se alívio ou simplesmente...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dor?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia uma melodia calma que se repetia aos fundos do bar, já que ninguém estava ali para trocá-la. Que se alternava do grave ao agudo como se acompanhasse a velocidade dos pensamentos daquela mulher. Não saberia dizer a quanto tempo estava sentada ali, na última fileira de aposentos, com as pernas diagonalmente cruzadas. Mas tinha passado o suficiente para que a música se impregnasse em sua mente de tal maneira que era capaz de ignorá-la por completo. Como se tivesse sido elaborada unicamente para ser a trilha sonora de seu mais profundo íntimo. Uma canção fúnebre, sem voz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espalhados sobre a mesa, restavam seis cigarros. Apenas seis. Eles eram seu relógio, cuja iminência do fim despertava-lhe um medo feliz, capaz de dar vida a um sorriso de dentes à mostra. Qualquer sensação, até mesmo esse medo voraz, era completamente bem vinda. Ela poderia se sentir viva, afinal. Não que se importasse tanto assim. Ao galgar o pescoço de um lado para o outro como uma notívaga, submergia na crua indiferença dos assassinos e fazia daquele mesmo sorriso uma expressão sem vida. Vida, morte, amor, ódio... Já não eram símbolos que ela considerava fundamentais. Interessava o que era fugaz, transitório e prazeroso. Tudo se resumia ao presente momento, pois não existia conforto no passado. Resumia-se ao som que silenciava ainda mais o silêncio. E calava seu peito. Ao tempo. Aos cigarros que desapareciam sem ela ao menos perceber.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Àquele homem...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma silhueta que surgiu ao sabor do repentino. Embora parecesse fazer parte intrínseca daquele cenário desde o início. Foi apenas uma troca de olhares, mas Gabriela pôde ver com clareza aquela feição que destoava por completo de todas que já vira. Um rosto ofídico, de nariz puntiforme. Onde dois olhos enevoados faziam cratera. E fremiam de um lado para o outro da órbita como se estivessem sendo traídos. O semblante de um traidor. Ou de um traído.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A dúvida pareceu-lhe sufocante. Com a ponta da língua, molhou seus lábios secos mostrando-o o sorvedouro de sua sensualidade. Uma sedução salpicada de azedume e mergulhada em amargura. E um risinho de meio lábio – falsa provocação. Falso desdém. E dois longos segundos para se sentir completamente patética. Mas que passaram – até a autopiedade era falsa. No terceiro ela ouviu, pela primeira vez, aquela voz que a marcaria por definitivo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Posso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De eco em eco, os fonemas retiniram em seus ouvidos. Acenando em afirmativo, viu-o colocar-se diante de si. Não o fitou. Bebeu mais um gole de café, o último gole, com a face retesada para a mesa e suas cinzas acumuladas. E tudo pareceu prendê-la. Um homem desconhecido, numa hora desconhecida. Num momento onde nem ela mesma se conhecia. Encarcerada nos próprios enleios, arrependeu-se impaciente por provocá-lo outrora. E ele com as sobrancelhas descansando tão calmas... Parecia confortável, quando pegou os guardanapos. Gabriela recebeu dele um, com uma caneta tirada de um bolso de sua jaqueta. Ele detinha o próprio par dos mesmos objetos. Sem entender, mas ao dissabor do tédio diante daquela atitude para ela tão piegas, esboçou um gemido de questionamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Escreva qual é o seu problema aí, nessa folha. E trocaremos os papéis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atônita, viu-o curvar-se sem cerimônia para redigir. Aqueles olhos miúdos conseguiram perpassar a sua alma translúcida? Não entendia se ele estava de fato preocupado ou com o mero objetivo de exibir suas próprias cicatrizes. Poderia ser simplesmente louco, também. Mas não aparentava... Ao contrário, seu arquétipo era decerto familiar. Sendo isso ou aquilo, a possibilidade de evasão daquele torpor a fulminou como um choque.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escreveu, sem controle. Os dedos tremiam numa excitação ácida. Era apenas uma frase. Apenas uma. Mas que a libertava da crisálida em que se alojara. Mesmo que apenas para uma pessoa. O retângulo branco, por segundos, foi como uma dimensão onde ela seria Deus. Que vai criando e recriando histórias e falsas verdades. Que pode apagar o que lhe machuca para desenhar casinhas simples e flores ao lado. Poderia inventar, causar a impressão que quisesse. Estava farta, porém. Diria a verdade. Mancharia de azul aquela superfície com a mais pura verdade da mentira que ela era por completo. O seu resquício de existência seria pintado ali. As consequências de pintá-lo - não importavam. Há muito abandonou as razões da consciência para abraçar o ilógico. O fosco, de contornos abstratos. O que tinha razão de ser, abandonaria. Como abandonou. E regurgitou: essa é a segunda gravidez que aborto. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E trocaram, sem ao menos dobrá-los.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ao ler o guardanapo dele, foi tomada pela descrença. Na humanidade. E mais ainda nela. Por sua falta de humanidade. Pois foi incapaz de sentir medo ou piedade ou comoção ou até mesmo fúria ao ler: matei meu próprio irmão. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-5967466418001169592?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/5967466418001169592/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/07/gurdanapos-parte-i.html#comment-form' title='27 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/5967466418001169592'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/5967466418001169592'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/07/gurdanapos-parte-i.html' title='Guardanapos - Parte I'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>27</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-7832476144477110518</id><published>2010-06-26T19:24:00.007-03:00</published><updated>2010-06-26T19:41:05.101-03:00</updated><title type='text'>Samanta</title><content type='html'>&lt;a href="http://fc08.deviantart.net/images/i/2003/9/1/b/Fat_Man.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 323px; DISPLAY: block; HEIGHT: 399px; CURSOR: hand" border="0" alt="" src="http://fc08.deviantart.net/images/i/2003/9/1/b/Fat_Man.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;É amanhã, o dia do ultimato. Ela virá amanhã. A dona de meus devaneios virtuais virá amanhã. Samanta...&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;?xml:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;O singelo deslocamento de algumas centenas de quilômetros que ela faria bastava para configurar aquela noite como palco do mais patético teatro de horrores. Sentado na cama, eu, com as mãos sobre os joelhos, penso em algo para pensar. As luzes já estavam apagadas, o pijama colocado. Recolocado. Mas deitar significaria um completo rompimento com a data presente para mergulhar na posterior. Quantos meses eu esperei? Quatro ou cinco... Quatro ou cinco meses de jejum sincero dos envolvimentos carnais. O banquete viria amanhã. E eu me imaginava degustando-o com uma voracidade lenta, como um esfomeado que tem pouco. Por ser pouco. Seria tudo tão mais simples se fosse questão apenas do corpo! No coração, a arritmia de um peregrino desconcertado. E mentiroso. Menti suficientemente bem para viver na mente momentos que eu sabia serem puramente ilusórios. Minhas fotos, minha profissão, meu peso, meu salário. E da sinceridade dessas tantas mentiras que eu me vi escravo. Queria aquele romance, idealizado nas várias juras de eternidade e proteção, e acreditava. Veemente. Deito, de olhos abertos. Há uma única fresta de luz que desenha um raio na parede.&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Passo o cobertor por cima da cabeça. Sem de fato enxergar, vejo na escuridão daquele casulo manchas coloridas vagando pra lá e pra cá. De dentro dos meus olhos. Havia ali, e em mim, um clamor por ar puro – que latejava. E pisco, viro, estico os braços, dobro as pernas. O que eu faria com a doçura daquela mulher? Nas poucas vezes que nos falamos por telefone, sentia, em arrepios mornos, a suavidade de sua voz suspirada. Gargalhava sem maldade de sua inocência. Nem sabia como comprar as passagens... Ora, meu sentimento era sincero! Pensava nela, em presentes, em viagens. Na textura dos beijos. Eu distorcia os fatos para concretizar o nosso relacionamento que seria distorcido de qualquer maneira. Pela distância, por Deus ou pelo acaso. Reguei as terras do nosso amor com falsas verdades. E a paixão germinou. E tanto, que sinto medo. A pulsação me incomoda na orelha... Quero ar! Empurro a coberta para o lado. O risco de luz na parede... &lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;E era sempre ela que ligava. Mandava mensagens aos montes. Acordava no meio da madrugada querendo ouvir minha voz. E aquele mel que escorria de sua meiguice me saciava. Era ela, sempre ela... Uma abelha sem ferrão. E foi ela que tocou na palavra amor pela primeira vez, com uma timidez preguiçosa. Amor? Mudo de posição. Ouço um gotejo tímido na cozinha. E me chamava de lindo, de príncipe, de tesão. E como ator principal vesti a indumentária de cavalheiro que eu não era, de uma maneira tão exímia que eu mesmo passava a duvidar – o que eu era, afinal? Mas há um espelho, cruel em sua realidade, logo em frente à cama. Eu o miro, e ele me vê: uma massa disforme de gordura. Uma quase esfera, amebóide. Patética. E goteja, e goteja. Se era amor, poderia ela entender essa fragilidade? Decerto, eu não aceitaria se ela fosse, na realidade, metade do que eu sou. Essa paixão egoísta, minha amargura. Era a esperança que sondava furtiva as minhas lancinantes conjecturas, a esperança que ela perpassasse minha aparência. E o que tinha depois? Uma mentira. Uma gorda e asquerosa mentira. Não queria chegar ali, na verdade despida, e só ali conseguia ficar. Está frio, e suo por todos os poros. Fome. E goteja. E goteja. &lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;A torneira estava devidamente fechada. Como já estava na cozinha, aproveito para comer mais dois pedaços de pizza. E durmo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-7832476144477110518?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/7832476144477110518/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/06/samanta.html#comment-form' title='18 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/7832476144477110518'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/7832476144477110518'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/06/samanta.html' title='Samanta'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>18</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-4102515572505147001</id><published>2010-06-14T17:53:00.006-03:00</published><updated>2010-06-15T13:40:02.319-03:00</updated><title type='text'>Bianca</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/TBaXGGlDHAI/AAAAAAAAADk/px_IHDTOT2g/s1600/letters_by_breakfast.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 398px; DISPLAY: block; HEIGHT: 400px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5482735727471172610" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/TBaXGGlDHAI/AAAAAAAAADk/px_IHDTOT2g/s400/letters_by_breakfast.jpg" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;E entre desventuras e dissabores, aqui estou. Afogada em amarguras. Entre essas cartas, de tantas cores, de tantos tamanhos. De tantas palavras. Formatos e formatações e épocas distintas. Mas a mesma grafia miúda. Em meio a essas folhas de letras já mortas espalhadas como um vitral sobre a cama. Fico de pé, eu: a tecelã desesperada. Diante de uma ruína que exerce um tipo magnético de fascinação. Meus olhos se estatelam de estupor. Mesmo já morto, o acervo. Mesmo tendo seu conteúdo extirpado pela mentira. Era isso o que eram: mentiras, e só! Extensão de uma alma que imprime sua fugacidade na escrita. E eu de pé, na tentativa de remendar aquelas migalhas do tempo de minha vida. Os cacos de vidro. Como, se eu nem sequer conseguia tocá-las? Então me dobro sobre a nuca e pendulo os olhos da cama para o teto. Para que as lágrimas resvalem pelas bordas, sem tocar os lábios. E no cárcere do silêncio eu me calo de boca aberta, mas me ocorrem lembranças...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Era um poeta em sua essência de ser, o Roberto. E se não houvesse um veículo para escrever seu turbilhão de ideias, recorrente em demasia, ele recitava ao mundo, ainda que meio a esmo. Numa faceirice... No modo de falar era trovador, vozeirão grave. Espécime raro de prógnato. Imponente em sua aparência esguia e por pouco mais baixa que a minha. Debates e debates e debates, até esgotar a fonte etérea de seus argumentos. E empurrava os óculos de aro pobre encimando o nariz. Irritado com a futilidade de nossa juventude e seus ídolos de barro. Lastimado pela supervalorização das aparências nos diversos julgamentos das pessoas, e se empertigava até com os mais silenciosos. Até nos olhares furtivos. Decerto sabia bem de sua pequenez como mero homem, mas elevava-se mesmo sem intenção. E queria mudanças. Também poeta pelo amor, que surgia em erupção em cada singelo afeto. Nos mimos diários, no telefonema preocupado quando eu me atrasava de propósito. Quando assentia compreensivo a cada tropeço meu, nos ciúmes e carências de mulher. Poeta pela vida: ao sorrir pro céu, pras crianças na rua. Ao chorar o desamparo da mendicância. Como eu queria esquecer essa benevolência toda! Seria injusto, mas que Deus me desse espaço para a injustiça! Ele me dizia ser “a” musa – e se negava a dizer “minha”, por maior que fosse meu esforço -, e eu não conseguia conter o rubor das têmporas. É bem verdade que em sua presença o que mais dava em mim era ficar vermelha! É o vermelho a cor do amor? Ou a dor dele que é? Pois permaneço.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;A modéstia me impede de ir muito além, mas sou musicista. O que talvez me faz melódica até a raiz da palavra. E da forma como minha desenvoltura diminuta permitia, eis meu sorvedouro: amava-o em cada sibilar de nota, muito embora me incomodava dividir esse calor com o amigo violino. Queria algo que fosse inteiramente meu, nos enleios de minha falsa candura. Que existisse em minha função. Minha. Se devaneei, agora retorno a mirar a cama. Com a incisão de quem quer respostas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Pra isso preciso recolocar os fatos. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;A cidade entrou numa grande balburdia quando uma missão artística estrangeira viera selecionar alguns jovens para o aprendizado na Europa. Adolescentes ensaiavam apresentações perfeitas e sonhavam os ares de fora. E lá fomos nós, um alicerçando a auto-estima do outro. Sem fazer planos. Sem exigir nada. Ele com sua literatura e eu com minha música. Passei no teste e recusei a proposta, resoluta. Aleguei um motivo não de todo uma mentira: a superproteção de minha mãe. Não por isso.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;E sobre o teste dele. Vejo-o diante de mim, quase brilhando, numa cópia de brochurão que me fizera da poesia que apresentaria a julgamento. Inspirado na musa... E minha inspiração, a de ar mesmo, é longa, para que eu possa abrir a folha mais uma vez:&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;?xml:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Da temperança de meu torpor me faço súdito&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Tresloucado na aquiescência de seus lábios tão perjuros&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;E na cadência de cara respiração prometo auroras&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Com meu suspiro rente a pele – singelo profuso!&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;E pra sorver a sua essência interpelo lágrimas&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Ao repisar e destoar os bálsamos de dor&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;E alquebrado me exorcizo dos fáceis júbilos&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Me recolhendo ao cerne de meu labor:&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Tu és a boêmia musa de meus sonhos resolutos,&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Meu amor!&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Aos soluços agora crescendo aos vômitos, de eco em eco, retomo quase titubeando: Roberto se apresentou aos juízes e foi reprovado. Foi o que me dissera, com uma postura de complacência que me fez ruir inteira em dó. Mas no fundo não importava tanto: aqueles versos eram para mim. Passando ou não no teste que fosse, nasceram pra homenagear a minha existência. E se eu o acariciava com afagos de piedade, por dentro eu era só gargalhada. Aos frêmitos em minha crisálida de ignorância. E me sinto idiota só de lembrar. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Idiota, sim. Ele foi. Primeiramente ele me dissera sobre a mentira, redimindo-se. Disse que era o sonho dele aspirar os ares de outras culturas e que preferia dizer a verdade a simplesmente desaparecer. Irada, contraí em ódio, em frenesi pela infidelidade. Pior: por ser desleal a mim. E mesmo que ele dissesse a verdade: ele não poderia ir, ele não poderia nem sequer pensar nisso. Pediu para que eu compreendesse, que me amava muito, mas era o mais lógico a se fazer, naquele momento. Lógico? Quem ousa falar de lógica aos apaixonados? Então gritei, completamente histérica (o que despertou um olhar de piedade que jamais esquecerei) para que fosse logo, o mais cedo possível. E que nunca voltasse! &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;No fim, virei as costas para ele e para mim. Suas últimas palavras, ditas com uma doçura cruel “É uma pena, Bianca, queria muito que viesse comigo...”, pareceram ricochetear pela eternidade, de quina em quina, parede em parede. Do passado ao futuro. O intervalo exato para que todas as imagens de momentos perfeitos me viessem à mente. Fiquei paralisada por minutos do tamanho de séculos, como estou agora, estupefata, desejando no abismo do meu âmago rasgar essas cartas. Queimar. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Mas elas eram minha única fonte de vitalidade. Ali estava minha bonança mesmo que atrelada ao passado. Não importa. Não vejo muita diferença entre minhas elaboradas ilusões e esses amores de chamas curtas. No fim, somos apenas eu, minha cama e minhas amadas cartas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-4102515572505147001?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/4102515572505147001/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/06/bianca.html#comment-form' title='13 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/4102515572505147001'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/4102515572505147001'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/06/bianca.html' title='Bianca'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/TBaXGGlDHAI/AAAAAAAAADk/px_IHDTOT2g/s72-c/letters_by_breakfast.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>13</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-5785566682708873374</id><published>2010-06-10T17:58:00.008-03:00</published><updated>2010-06-10T18:35:30.574-03:00</updated><title type='text'>Marina</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://fc05.deviantart.net/fs32/f/2008/232/e/f/in_bed__by_zoeelyn.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 561px; DISPLAY: block; HEIGHT: 391px; CURSOR: hand" border="0" alt="" src="http://fc05.deviantart.net/fs32/f/2008/232/e/f/in_bed__by_zoeelyn.jpg" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;E quando das volúpias abrasadoras restaram apenas as brasas, fez-se silêncio. Não que fôssemos de muita conversa. Bastava ela abrir a porta e partíamos logo para as vias de fato. Porém, naquele momento em que cada um se vira para um lado da cama para contemplar a fugacidade do sexo, a atmosfera ganhava um ar lúgubre quase palpável. Clamava pelo decoro da verbalização. Embora talvez um pouco hermético, sou um bom samaritano... Abriria, embora não sem desprazer, as cortinas para o diálogo. E só isso bastava: ela o manteria sem exigir interlocução.&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;?xml:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Acha que isso está certo? Nós... &lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Fácil. Já era capaz de senti-la se munindo de argumentos. Pigarreou, erguendo o lençol numa austeridade de fêmea ressentida. A simples interrogativa que eu dissera ocultava um acervo de julgamentos silenciosos que, se outrora tecia um palco pecaminoso propício para a consumação daquele erro, agora era apenas sujeira a enfiar por baixo dos tapetes já imundos. Fingi um bocejo despreocupado. Marina sustentava de pé a nudeza desavergonhada. Fitou-me de soslaio por cima dos ombros e, a passos barulhentos, dirigiu-se ao banheiro no aposento ao lado. Podia imaginá-la defronte ao espelho, buscando o amor próprio tão ausente nos traidores. Depois reunindo conchas de água fria para reavivar a face. E para enfim galgar em si mesma e dizer:&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Nem comece com esse papinho, Gustavo. Esse moralismo todo não funciona comigo, você sabe disso. – como eu haveria de saber? Dela eu só conhecia os gemidos entrecortados, a respiração falha e essa falta de pudor bem mascarada. Até nas palavras! – Não estou te segurando aqui...&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Sem fechar a porta, ligou o chuveiro. O som de chuva fraca me desfez do dever de pensar em algo pra falar. E em pensamentos sobre não ter o que pensar, acabei por me perder na pequena trégua que o tempo dava. A falsa chuva então se reduziu a um gotejo e outro. Pensei nela como uma cadela e ri. Algumas cadelas feridas latem, furiosas; outras choram. Mas sempre voltam para o dono. Ela latira e voltava para vestir-se. O cenho todo contraído e as sobrancelhas em finos arcos de ironia cravados na testa. Espreguicei-me em sua cama, ao som de outro bocejo - agora longo e sincero. Eu não poderia me levantar e ir embora, assim de supetão. Era fácil de prever os vômitos de chantagens torpes e as pragas, as maldições. Ela se contorcendo em prantos fingidos como se representasse a vítima de um engodo maligno do qual eu seria o articulador. O único. Não... Preferia suportá-la mais uns minutos (já que poucos minutos se passariam até que ela se convencesse de sua pureza) a sentir o gosto enjoativo da exacerbada emotividade feminina. Ou talvez eu não partiria pois sei que, sem muita cerimônia, desejaria voltar a possuí-la em breve. Naquele instante me parecia uma proposição insólita, mas há muito compreendi as engrenagens da carne.&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Eu não nego que sou pecadora: aceito. – continuou, com azedume, esfarelando um pó meio róseo sobre as maçãs do rosto para amenizar a aparência de notívaga. – Não vou ficar me crucificando por ser, antes de qualquer coisa, humana. O pecado é humano. E se na criação de Deus há espaço para o pecado, irei viver com ele e suportarei as consequências.&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Quanta erudição! Mas não cabia me deixar seduzir pelo arranjo dessa desenvoltura na oratória. É bem verdade que essa ornamentação toda, ao sabor do meu julgamento, expunha com clareza uma fragilidade latente. Que pulsava. E só encontrava em discursos fantasiosos a anestesia para a dor viscerosa. E muito embora isto não comumente se sucede entre amantes: tive uma réstia de piedade.&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Mas você realmente ama o Gabriel?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Claro que amo! – vociferou, num rompante teatral – Até no ato de trair eu estou manifestando meu amor por ele, você não consegue ver? &lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Ora, é evidente que amava! Não amá-lo significaria rever uma série de escolhas feitas ao longo da vida. E se admitir fracassado exige muita força. Exige dissecar cada proposta recusada e projetá-la num futuro que nunca virá. E se for belo: frustra. Exige lembrar das promessas poéticas de amor eterno e as juras tão bem ensaiadas. E se tudo se mostra muito efêmero: frustra. E os frustrados não se importam com o próprio caráter. Ou melhor, se acomodam pela incapacidade de libertação. Eis o ciclo: a traição era apenas um trecho sinuoso.&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Manifestando com mentiras? – pontifiquei, estranhamente protegendo meu irmão.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Vê se tira essas viseiras, Gustavo! – e se ela estivesse tentando ser intelectual com essas metáforas, só conseguia me soar mais patética – Nessas mentiras que eu revelo o desejo de protegê-lo, não percebe? As histórias de amor da vida real são diferentes dos contos de fadas. Se não o amasse caía fora do casamento há muito tempo, nem precisaria mentir!&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Contraditório, eu. Como poderia julgá-la? Se ela, altaneira, não se utilizava dessa incoerência como argumento, certamente almejava o cessar fogo. E o pescoço se virava para os ponteiros, em desalento, mais rapidamente do que os próprios ponteiros seriam capazes de girar.&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Logo o seu irmão chegará com as crianças. – sei que ele demoraria, ainda. Mas era um convite que ela sabiamente elaborara para uma retirada sem vencedores. Deveras convidativo. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Bem, eu vou indo, então...&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Recolhi as peças de roupa espalhadas aqui e ali, vestindo-as sem delongas. E vi, pelas janelas, os anúncios da noite no céu purpúreo. O pôr do sol, que fazia os pontos luminosos acenderem pouco a pouco pelo horizonte de concreto da cidade, mergulhava o apartamento já escurecido em mais penumbra. Num átimo de segundo, contemplei Marina com sua silhueta espavorida curvada no leito de nossa desventura. De olhos fechados e compressos. Estava ao resvalar da própria podridão. Trocamos olhares abissais: nos entendíamos.&lt;br&gt;&lt;br&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Quando posso voltar?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Na terça-feira. Ou na quarta.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Virei nos dois dias.&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;E nos despedimos. Rápidos sorrisos de meio lábio. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-5785566682708873374?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/5785566682708873374/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/06/marina.html#comment-form' title='18 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/5785566682708873374'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/5785566682708873374'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/06/marina.html' title='Marina'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>18</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-9104045894101770894</id><published>2010-06-01T14:46:00.010-03:00</published><updated>2010-12-07T13:30:33.995-02:00</updated><title type='text'>Anita</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/TAVIMX0riXI/AAAAAAAAADc/AmoqD6YZQfg/s1600/champagne_supernova_by_curlytops.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 343px; DISPLAY: block; HEIGHT: 400px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5477863899156679026" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/TAVIMX0riXI/AAAAAAAAADc/AmoqD6YZQfg/s400/champagne_supernova_by_curlytops.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Era do tipo de homem que cataloga, analisa, discerne. Desse tipo raro. Ourives do próprio caráter. Bom em palavras cruzadas, jogos de tabuleiro, desafios de raciocínio. Bom em qualquer tipo de diversão solitária. Também dotado de muita minúcia, devorava detalhes por mais detalhes e mais e mais. Sempre implacável com os erros ortográficos. Ao revisar os textos dos colegas, comprimia a visão e corrigia consigo. Em silêncio. Repudiava o papel de piegas. Apesar de, na maioria dos casos, a crítica que não vinha em palavras mas vinha em olhares debatia áspera nas feições de escárnio dos outros funcionários. Era fácil ler aqueles olhos de pupilas gordas e também as íris. E lá ia Diogo ascender glorioso no palanque dos chatos! E acendia um cigarro e outro. Como bom observador, acabava atuando para evitar atritos – e eis um ponto crucial de sua personalidade, essa coisa de evitar atritos. Então, desenhava um sorriso de complacência. De forte metido a fraco que treme de medo da própria força. E fumava...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não era dos mais modernos. Tinha um carrinho simples. Gostava mesmo é de andar. Ia caminhando para a empresa, nem tão próxima nem tão distante de onde morava. Mesmo nos dias chuvosos. Mesmo nos dias de tempestade. Até mesmo nos dias de folga. Aos passos largos de quem constrói altar para a pontualidade, lia as placas de carro em busca de algum sentido. Lia ao contrário o nome das lojas, os títulos das músicas. Quando encontrava alguma informação escondida, deleitava-se numa diversão infantil e triste. Aquela tristeza amarga de quem não tem a quem compartilhar. E da solidão brota o materialismo funesto dos pobres. Suas gavetas de madeira cara obedeciam a uma lógica fácil e inalienável. Livros pelo tamanho e discos pela ordem alfabética. Remédios – os intocados e intocáveis remédios – dum lado, as fotos de parentes longínquos noutro. Sempre limpas: aquelas gavetas escondidas nos poucos móveis que guarneciam o quarto ao fundo do modesto apartamento. No fundo de si ardia lasciva a saudade. Saudade de algo que nunca viveu – sua amiga, a frustração. A única.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas pra reconstruir aquele encontro, aquela obra megalomaníaca do acaso que unira as duas almas díspares, cabe entender alguns retalhos na cortina vermelha que esconde a peça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre seus ódios e medos. Entre tudo o que odiava e mais que tudo, estavam os erros. Os de qualquer espécie. De qualquer dimensão. E mais ainda dos conformados: de gente que se faz de orgulhosa por errar e revelar o podre. Como se pudesse servir de álibi. Os ourives não aceitam falhas. Eles lapidam, incansavelmente. E eis que um dia, desses bem típicos a princípio, bem rotineiros, Diogo se torna algoz da condição humana a qual procurava evasão. E erra, grotesco. Na sala de estar, a lisura rósea das paredes exibia apenas uma mácula - um prego que sustentava um calendário de padaria. E mesmo assim esquecera do aniversário da mãe. Data assiduamente santificada na família. Lembrou-se na tarde agora atípica, num supetão enraivecido que o fez sacudir violentamente a xícara de chá. Bem que eu achei estranho ela não ligar nos últimos dias! pensou, imaginando formas de se redimir. Fantasiou mentiras. Ensaiou a mansidão da fala e os votos de boa fé, os exauridos. Inútil: alguns erros são simplesmente imperdoáveis. Melhor seria não tentar. Juntou as pálpebras com os dedos, levando a outra mão ao bolso e desligando o celular. E naquele silêncio nasceu o temor. O prurido na consciência. E na garganta uma nódoa viscosa. Não seria capaz de enfrentar aquelas chantagens. A velha aludiria a uma emotividade típica de quem está pra morrer. Não estava munido de paciência. Uma mistura de tédio e medo o invadia. Talvez a mãe também o xingasse. Em marteladas ferozes na casca rija do caráter que ele polia no suor. Não suportava rachaduras. Era essa sua coisa de evitar atritos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Brilhou a lâmpada das ideias: precisava de férias! Talvez não. A verdade é que não. Mas se convenceu disso. Embora não sentisse fadiga, tinha motivos para senti-la. Ora, já se passara quanto tempo desde o último descanso prolongado? Dois anos? Três? Não sabia. E como bom funcionário, direito tinha. Tiraria uma semana. Excitação e euforia se introjetaram naquelas artérias e veias sobressalentes. De um lado para o outro, entre cigarros e fumaça e brasa e cinzeiros e cigarros, esquecera da velha. E dos velhos recentes tempos: do Diogo com postura de velho, jeito de velho, rosto de velho. Mas enfim encontrou a palavra. Almejava no âmago, talvez sem saber, uma metamorfose - e que fosse completa. Que o completasse. Que o transformasse. Uma verdadeira combustão na alma. Pronto. Traduziu o rebuliço e se acalmou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dois dias depois comunicou ao chefe e tirou licença. Voltou caminhando. No ensejo da reforma íntima, começou uma luta voraz contra os próprios símbolos. Os símbolos criados por uma personalidade que ele queria abandonar. O perfil certinho, perfeito, polido, prolixo, mas sempre mal interpretado de outrora: nunca mais! Brindou o egoísmo, o politicamente incorreto. Começou então por ignorar as placas e os letreiros. Mudou o passo, agora numa lentidão de quem não tem compromissos. E não tinha, e se regozijava gargalhando alto. Fez promessas de libertinagem com pecados e futilidades. Coerente, afinal, enterrava ali o fardo de joalheiro de si mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o mundo... O mundo não parecia diferente. Aquele cinza que manchava a paisagem urbana persistia. Tudo era cinza e de concreto, e permanecia. E os folhetos espiralando no vento que alertava o nascer da noite, naquele zumbido fúnebre. Junto com o zumbido dos carros. E as buzinas com sua impaciência retinindo no mármore de qualquer lugar pra qualquer lugar, em qualquer lugar. Ninguém notava aquela metamorfose, como costumam notar nas borboletas. O mundo não parou de girar. Meu fado é não ser notado? perguntou-se em represália.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mundo resolveu dar uma trégua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E enfim, configurando o que seria então o cenário principal de sua trama de existência, eclodiu de súbito um estampido metálico ensurdecedor. Num arco reflexo, protegeu a face nas palmas das mãos e curvou a cabeça. Quando do silêncio borbulharam os murmurinhos excitados, voltou-se para a rua. Um corpo esticado, num banho de sangue. Acidente de moto. Com vísceras à mostra e muita gente olhando. Ninguém agindo. Mergulhou num suspiro demorado, que lhe escapava tímido pela boca e pelo nariz. A verdade era que não se importava. E que se danasse as regras de boa conduta! Ainda não se importava, nunca se importou. Deu de ombros e deu as costas. Mas não completamente, pois aqueles olhos de tâmara o impediram de completar o giro de calcanhar. Aqueles olhos de tâmara...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqueles olhinhos comprimidos em pílulas. Compactos, atentos e estáticos. E seus cabelos, os longos, muito longos, eram os únicos da multidão que se debatiam loucamente contra o vento. Desesperados, alucinados. E lhe beijavam a boca, vibravam no ar, giravam vigiando a nuca e depois precipitavam em cascata sobre os ombros delgados. Segurou-os, agora cativos. Mas ainda na sacudidela. Pulso firme. Diogo, dez passos distante, fulminou-a. Seu corpo se eriçava em uníssono. Ele todo. Não que a silhueta fosse das mais belas. Não era. Viu sardas, pintinhas, cravos, saliências. Também a gordura envergonhada em pontos localizados. Notou a forma como tampava os lábios com a mão... Como se tivesse medo do animal humano. Que mulher diferente! Tinha algo de pura, calma, tímida. Ou somente calma. A verdade é que ela pareceu perceber o fuzilamento visual e retribuiu. Com seus olhos de tâmara. Libertou os cabelos estonteados, em molas. Afrouxou o pulso. Sorriu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele instante, naquele exato instante, se existe alguém sentado num trono manipulando essas gracinhas do acaso, esse alguém se empertigou. Olhou altivo. Resolveu se divertir. Bancar o ventríloquo. Senão, o mundo resolveu dar uma trégua ao infeliz Diogo, impulsionando-o na quebra dos próprios símbolos. Outra hipótese é que tudo não passa de coincidências, efêmeras e casuais. Como a vida. O fato é que eles se atraíram, como os pólos opostos de um imã. Ela, com as mãos mergulhadas nos bolsos de uma bermuda branca, não se moveu. Ele o fez pelos dois. Foi, sem delongas. Ele, outrora desprovido de qualquer impulsividade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começou com o pretexto da preocupação, o falso pretexto. Perguntou o motivo de tanta palidez, se precisava de água, de carona, de qualquer coisa. Ela negou tudo, de menos a conversa fática. Era o seu tom de pele natural! Exibia os dentes grandes. Meio alienada, flutuando no diálogo. Tentou ir mais fundo, perguntou o nome da moça, que lhe parecia poucos anos mais nova. Quatro, no máximo. Me chamo Anita, respondeu, adocicando a voz. Prazer, o meu é Diogo. Prazer. Não houve contato físico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E os carros com suas buzinas. A cidade e o seu cinza. Os folhetos e suas mensagens aleatórias rodopiando aqui e ali. O aglutinado se dissolvia. A ambulância chegou e foi. Acabou a festa. E só restaram os dois, no meio da calçada. Envoltos numa esfera de silêncio. Ele fingia esperar algo, ou alguém, enquanto pensava no que dizer. Ela ainda parecia flutuar, como se visse cores e alegria naquele centro urbano. Foi então que um punhado de gelo se derramou no estômago de Diogo. Essa é uma oportunidade única, não posso deixar escapar! Preciso pensar em algo pra falar. Rápido Diogo. Rápido, rápido! Anita se curvou ao relógio. O silêncio então se ceifou quando o homem, numa postura de quem já não tem mais nada a perder, abriu a tampa dos receios e limites e ferveu as ideias antes submersas no âmago. Embora sempre vivas. Amanhã estou indo viajar, vou pra Búzios. Quer vir? as palavras atropelaram umas as outras. Quis fechar os olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tá doido? Não tenho dinheiro! Nadinha nadinha, em risinhos, mostrando o avesso dos bolsos. Realmente vazios. Uma brecha... Encontrou a fresta e foi, sem olhar pra trás. Eu pago tudo, não se preocupe! Vamos de carro e vai ser tudo tranquilo, assegurou, sem pensar muito. Búzios tinha sido o primeiro lugar que viera na mente. Teria que pesquisar o caminho. Impulsos. Impulsos encarcerados ao longo de toda uma vida. Ajustou os óculos na base do nariz. E viu, pelas lentes de vidro grosso, os olhos de tâmara se esvaziarem. E germinaram olhos de damasco, faiscantes. De fogo, brasa vermelha. E crepitava. Queimando na órbita. Digeriu as informações em poucos segundo. Enfim, escapuliu um gritinho de excitação, meio débil: então eu aceito! Despediram-se com meros arqueares de sobrancelhas e ela pediu para que a esperasse ali, no dia seguinte. Ele concordou. E partiu. Sem toques. Lembrou-se de sorrir, ao vê-la diminuindo no horizonte vertical.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Destrancou as portas do singelo apartamento com certo receio. Sem saber de que. Com firulas em meu próprio lar? murmurou para si. Uma pequena abertura na janela revelou a lua. A lua e sua benção de prata. Por segundos, pôs-se a admirar as nuvens convergindo para a iluminação. E os segundos convergiram em minutos. E as nuvens convergiram até se fundirem em trevas. E depois eram apenas nuvens. Uma lufada gélida adormeceu-lhe a face, com o sopro inebriante da noite. Assustou-se, num calafrio exagerado. As mãos em concha em frente à boca. Baforadas quentes... Foi à cozinha. O coração zumbindo, a pulsação rente ao pé da orelha. Havia algo naquele silêncio que o irritava. Como se fosse espiado, condenado, julgado pelas paredes anormalmente quietas. Aquele silêncio anormalmente doloroso. Esqueceu-se da fome e se jogou no divã da sala de estar. Conferiu o celular: nada. Procurou afastar resquícios de saudade da mãe, de altruísmo e culpa. Um toque de dor no peito. Encolheu-se. Se a dor fosse a consequência daquele caminho, estava disposto a enfrentá-la. Disposto a vencê-la, fazer dela cicatriz. E entre os pululantes pensamentos que circundavam o vazio daquele cataclismo interior, dormiu. E depois acordou. E enfim dormiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes permanecesse dormindo, e dormindo pra sempre. Pois aquela realidade tão bizarra precisava ser mantida; cada minuto de hora, prolongado; a ilusão, alimentada. Diogo se mergulhava, pela primeira vez, na vibração de um calor interno que nunca degustara. Nada fazia muito sentido, e mesmo assim fremia a cada sensação nova. Movido por esse desespero fulminante de quem se despe de uma personalidade que passara a sufocar, rompeu os grilhões da lógica e da boa fé. Pelo menos em sonhos. Bastou um toque num botão para gerar um titilar nunca tão áspero. Que o acordou, que o colocou de pé no resvalar da manhã. E mais que isso: que o fez emergir daquele poço de fantasias. E revestir-se e enraizar-se definitivamente nas vestimentas de outrora. A campainha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu filho! Que saudades! Desculpa te acordar, mas vim de tão longe pra te ver... Só faltou você lá no sítio no dia do meu aniversário. Mas não vou te xingar, tá? Sei que você não gosta... Meu Deus! Que aparência é essa, meu querido? Parece tão pálido. Vem, me dá um abraço. Hum... Como senti sua falta! Vamos, sente-se aqui: me conta como vão as coisas na firma, nos seus namoricos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E correspondeu a cada palavra com sorrisos sinceros e afagos verdadeiros. E isso o corroia. Vergonha inata aos covardes. Procurava não imaginar aquela moça esperando-o. Curvando-se ao relógio: os cabelos debatendo-se freneticamente. Levaria muitas coisas para a viagem? Muitas malas? Fingiu duvidar que ela apareceria, e convenceu-se. E entre os atritos tantos que já evitara, eis o maior. E se tentasse relembrar sua aparência, só lhe viria uma neblina disforme, e aqueles olhos... Ora de tâmara, ora de damasco. Anita! Num suspiro de derrota consentida, olhou para aquelas memórias como um adulto vê, resignado, as peripécias de uma criança. O espírito revoltoso de um jovem. Arrastando-se, assim viveu, entre encontros e tarefas e correções e críticas e futilidades e formalidades e cigarros e lágrimas, lágrimas, lágrimas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mesma abertura na janela. O sol a pino, a benção de ouro. Havia luz para todos. E as nuvens, ainda assim, eram somente nuvens. Nada mais. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-9104045894101770894?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/9104045894101770894/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/06/era-do-tipo-de-homem-que-cataloga.html#comment-form' title='24 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/9104045894101770894'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/9104045894101770894'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/06/era-do-tipo-de-homem-que-cataloga.html' title='Anita'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/TAVIMX0riXI/AAAAAAAAADc/AmoqD6YZQfg/s72-c/champagne_supernova_by_curlytops.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>24</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-7365577383518876997</id><published>2010-05-20T22:04:00.004-03:00</published><updated>2010-05-20T22:13:27.007-03:00</updated><title type='text'>André - Parte IV</title><content type='html'>&lt;a href="http://d.yimg.com/gg/u/cbd89a97005f276eeddedb5f9d37c6327e32edf5.jpeg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 481px; DISPLAY: block; HEIGHT: 500px; CURSOR: hand" border="0" alt="" src="http://d.yimg.com/gg/u/cbd89a97005f276eeddedb5f9d37c6327e32edf5.jpeg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Senhor padre, por acaso sabe onde o dono desses materiais de pintura mora?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Do lado da quitanda ali na esquina, meu filho...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Muitíssimo obrigado! Informação realmente valiosa!&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;?xml:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;De súbito, como as lembranças que espreitam na mente até o momento oportuno de fazer valer sua existência, lembrei-me de uma música do Teatro Mágico que ouvira na casa da Thaís nos momentos áureos que me pareciam bem mais áureos naquelas divagações do que realmente foram. &lt;em&gt;Basta as penas que eu mesmo sinto de mim, junto todas, crio asas, viro querubim.&lt;/em&gt; O verso regia a triste melodia que me conduzira até a basílica naquele momento. Um anjo que remodelava o seu caráter para fazer valer sua justiça. Mas as asas eram vermelhas. Asas de um querubim caído.&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;E de fato eu fui à busca de meu algoz, na enfadonha tarefa de vencer minha letargia. Uma tela estava lá, erguida numa haste da madeira. Em branco. Seu artista, como previsto, ausente. Se ele roubara o que há de mais precioso para mim, que mal há em tirar algumas partes dele também? Se de fato Deus existe, Ele haveria de entender a minha lógica. De entender a minha dor. Mas Deus não interpela por seus filhos... Carreguei os utensílios até a igreja e recebi, com o usual sorriso de bom samaritano, as úteis palavras do clérigo.&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Toda aquela munição de informações e energia me amedrontou. Os passos, agora tímidos, conduziam-me a reflexões de impulso. Onde haveria de estar a felicidade se, mesmo aquela que preenchia o ar com juras e confissões de amor poderia provar o veneno da traição? Humanos podres! Fadados aos sentimentos efêmeros, a amores inconstantes e alicerçados em interesses fugazes! A eternidade de um amor seria uma triste utopia ou um mero egoísmo? Se eu pudesse me livrar daquela dor de alguma maneira... Ou melhor, se eu pudesse transferir para ela cada fagulha de desespero!&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Vi-me já na quitanda. Uma casinha simples de alvenaria antiga, duas janelas e um jardim mal aparado. Retesei. A sensação do fim iminente me inundava num alívio extremamente doloroso. O fim... Lutava na busca de um preço que eu não seria capaz de suportar. A submissão, embora inaceitável, parecia tão menos cruciante!&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Você pode se elevar até o céu. Basta você querer...&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;E pela primeira vez aquele timbre ácido penetrava em meu ouvido. Era ele! Podia reconstruir na mente cada detalhe de sua silhueta. Queria agredi-lo, matá-lo! A ideia de derramar o sangue de um artista que não entendia o valor do amor me parecia assustadoramente convidativa.&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Já está feito. Prontinho!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Que maravilha! Lindo, lindo, lindo! Obrigada, mesmo!&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Antes que eu pudesse reagir, a porta de entrada se abriu num ranger metálico. Thaís! O primeiro sentimento que me afugentara fora o de uma saudade lancinante, voraz, que eriçava cada pêlo em minha extensão de pele. O ódio parecia se dissolver nas águas límpidas de sua beleza. Beleza essa reproduzida – e me fere admitir – com maestria num quadro que ela abraçava rente ao peito. Ela e o céu. E eu estava entre os dois, impedindo sua ascensão. Minha musa das tristezas infindas limitou-se a uma surpresa fingida.&lt;br&gt;&lt;br&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- O que está fazendo aqui, André?&lt;/span&gt; &lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-7365577383518876997?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/7365577383518876997/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/05/andre-parte-iv.html#comment-form' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/7365577383518876997'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/7365577383518876997'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/05/andre-parte-iv.html' title='André - Parte IV'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-4727283267293992502</id><published>2010-05-19T18:33:00.010-03:00</published><updated>2010-05-19T20:08:14.154-03:00</updated><title type='text'>Pedro e Liz - Parte II</title><content type='html'>&lt;a href="http://fc01.deviantart.net/fs9/i/2006/145/8/c/walking_room___by_thresca.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 433px; DISPLAY: block; HEIGHT: 500px; CURSOR: hand" border="0" alt="" src="http://fc01.deviantart.net/fs9/i/2006/145/8/c/walking_room___by_thresca.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;É bem verdade que aquela cabeleira curta em chanel, rente aos ombros finos, não denunciava sua idade já superior aos trinta anos. Os lábios manchados de carmesim levitavam calmamente quando a mulher falava, ainda que as ondas sonoras expelidas por aquela boca de polpa carnosa pareciam retumbar durante longos segundos nas paredes do recinto. A vaidade nitente na figura de sua mãe soava ao garoto como uma ironia que aos poucos amargava a garganta, colando-a. Vanda investiu, aproveitando a feição pétrea de Pedro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;?xml:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Meu filho! – os saltos pontiagudos estatelavam no firmamento enquanto avançava. – Como senti saudades! Meu Deus, você está tão bonito! Exatamente como eu imaginava...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Sem se mover um centímetro sequer, o garoto sentiu os seios maternos tocarem sua testa enquanto era revolvido num abraço pouco caloroso. Fechou os olhos e percebeu as próprias mãos, que se negavam à reciprocidade daquele gesto, pendularem melancolicamente. Por mais desmesurada que parecesse a verossimilhança daquelas palavras, cada letra que sua mãe balbuciava lhe soava extremamente patética, desprovida de qualquer significado. Em suas divagações costumeiras sobre um possível reencontro com aquela que lhe abandonara, imaginava-a imersa em lágrimas, implorando desculpas aos quatro ventos e incitando histórias dramáticas que justificassem sua atitude. E o principal: diria que se arrependia muito, muitas vezes. Aquela silhueta, firme e de austeridade assustadoramente familiar, não era capaz de despertar nenhuma sensação naquele instante - nem sequer uma migalha de complacência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Você não está feliz em ver sua mãe depois de tanto tempo? – a chantagem tingida parecia ocultar uma vaidade interior.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Sim, estou...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Que ótimo! Tenho tantas coisas pra conversar com você...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Onde está meu pai? – disse, desafiando as reações da mulher.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Saiu, para que possamos conversar melhor. – murmurou baixo, ao pé do ouvido de Pedro, desenhando um sorriso de indiferença na face.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Sei. Vou deixar minhas coisas no meu quarto e já desço para conversarmos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Tudo bem, meu querido. Quer ajuda?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Não precisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Desvencilhou-se sem contato visual e subiu a passos rápidos a escadaria de uma madeira em podridão iminente. Entrou no quarto, no fim de um pequeno corredor, e fechou a porta num estampido mais forte do que desejava. Ali, naquela atmosfera que era só dele, liberou a respiração controlada que agora precisava da ajuda da boca para expelir aquelas bolhas de ar que outrora aprisionara, embora não sem dor. Grudou as costas na parede e tentou organizar os pensamentos. Não havia nenhum, além da própria ideia de não ter o que pensar. Uma nebulosa vazia confundia-o com uma tempestade de informações que em nada lhe afetavam. Sentou-se na cama, afundando os dedos delgados na cabeleira desgrenhada, num gesto de custosa impaciência, quando sentiu o celular em seu bolso brandir. Era uma mensagem de Diego.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;em&gt;Pedrinho, minha irmã gostou muito de você! Se não tiver nada pra fazer esse fim de semana pula aqui em casa, aí você dorme aqui e vamos ao clube sábado! Responda-me assim que puder. Abraços!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Procurou afastar Liz de sua mente. Em síncope, permitiu-se uma gargalhada histérica por constatar que sua profusão de emoções precipitava em cascata pela moça, mas não pela própria mãe. Não conhecia verdadeiramente nenhuma das duas há mais de um dia, afinal... Agora, com os rios fluindo perenes em seu âmago, uma vergonha mais acolhedora do que ofensiva, bem no abismo daquelas águas geladas, aquecia-o. Pensou nos homens que tocaram sua mãe, nas relações que estabelecera nesses anos. A liberdade da figura materna, que parecia dispensar qualquer nesga de satisfação, negando amortizar a sua ausência, confortava em detrimento de intrigar. Seria, em seus planos de megalomaníacos de evasão, deveras objetivo, e não fingiria a existência de um elo entre os dois. Mas também não exibiria rancor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Voltei, mãe. Pode falar o que queria. – ao fitar o olhar enevoado de Vanda, que se apoiava numa cadeira e encarava o assoalho liso, perguntou-se a cerca de quais assuntos ela conjeturara até então. Seria o flagelo do arrependimento?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Serei direta, Pedro... – entrelaçou os dedos e curvou a cabeça, ocultando parte da face com os cabelos revoltosos que dançavam timidamente. – Nesse fim de semana quero que faça uma pequena viagem comigo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Viagem? – lampejou, perdendo o controle do tom. Sentiu a têmpora flamejar. – Você aparece sem dar nenhuma explicação e quer que eu viaje com você? Por acaso sabe se eu tenho algum compromisso?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Estou doente! – golpeou-o no momento de sua exaltação, deixando que o silêncio anestésico perdurasse por segundos, para então prosseguir. – Tenho algumas semanas de vida e gostaria de passar um tempo com meu filho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="FONT-FAMILY: 'Times New Roman'; mso-fareast-language: PT-BR; mso-bidi-language: AR-SA; mso-fareast-: PT-BRfont-family:'Times New Roman';font-size:12;"  &gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Atônito em suas pálpebras violentamente contraídas, Pedro se odiava por, mesmo diante da possível morte de sua mãe, não possuir sequer uma fagulha de desejo em acompanhá-la. O que mais o assustava era o motivo de tanta negação...&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-4727283267293992502?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/4727283267293992502/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/05/pedro-e-liz-parte-ii.html#comment-form' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/4727283267293992502'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/4727283267293992502'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/05/pedro-e-liz-parte-ii.html' title='Pedro e Liz - Parte II'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-3381546646178083607</id><published>2010-05-09T22:07:00.011-03:00</published><updated>2010-05-11T20:33:40.598-03:00</updated><title type='text'>Sueli</title><content type='html'>&lt;a href="http://artfiles.art.com/5/p/LRG/21/2190/L2GAD00Z/gustav-klimt-mother-and-child-detail-from-the-three-ages-of-woman-c-1905.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 360px; DISPLAY: block; HEIGHT: 450px; CURSOR: hand" border="0" alt="" src="http://artfiles.art.com/5/p/LRG/21/2190/L2GAD00Z/gustav-klimt-mother-and-child-detail-from-the-three-ages-of-woman-c-1905.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Era difícil se concentrar na televisão com aquele berro. Podia-se ouvir, no quarto há alguns metros depois do corredor principal, o berço tremendo de medo na iminência da solidão. A face austera da mãe era incapaz de ignorar o fato. As sobrancelhas arqueadas e a respiração forte denunciavam uma piedade difícil de compreender. O mais velho, após algumas fracassadas tentativas de livrar o irmão, rendia-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;?xml:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Mãe, você não fica com dó?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;A mulher por um segundo ignorou-o. Atentou-se ao fim do barulho, quando finalmente o sono sobrepujou o medo e o bebê mergulhou no universo escuro de seu quartinho. Então, repousou o olhar cálido na outra cria e respondeu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- É claro que fico, meu filho! Mas é necessário. Você custou para dormir sozinho justamente por isso. Todos te bajulavam demais. Parte o coração mesmo, mas logo ele se acostuma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Deu-lhe um meio abraço e puxou-o para perto, desgrenhando sua cabeleira negra e lisa de criança. Antes do fim da novela, ordenou-o que dormisse e, algumas horas depois, ela fez o mesmo, cobrindo a casa com o manto de silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;O neném de traços rechonchudos, careca brilhante e cheiro de sabonete barato, calmamente, ao sabor do tempo, cresceu. Dormia sozinho e sorria muito. Num dia quente, quando brincava no jardim mínimo da área de lazer do prédio, a mulher – já com traços mais severos – observava-o enquanto sua mente vagava em problemas aos montes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Vinícius! Não mate as plantinhas, meu filho...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Não conseguia deixar de rir daquela silhueta serelepe, que se emaranhava entre as folhas e, imitando inocência, levava as mãos às costas e as retirava dos galhos uma a uma. Logo ficava entediado e disparava a correr aleatoriamente. Lá ia Sueli atrás de seu pequeno filhote. Ao fim do dia, ele dormia abraçado ao seu ventre, enquanto ela se perdia naqueles problemas agora em montes maiores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- O Topo Gigio foi à praia, com o calção que ele ganhou... Chegando lá ele gritou: o meu calção rasgou!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Entre adversidades e alguns momentos de paz, a sólida educação se embasou, e aquela atenção precisa não era muito necessária. Já adolescente, o filho mais novo resolvia-se bem no colégio e, de temperamento geralmente calmo, não trazia grandes problemas. No entanto, guardava as coisas para si. Ah, o olhar de mãe...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- O que você tem, Vini?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Sei que tem algo, fale logo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Nada não, mãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Se você não falar eu vou descobrir!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Não se preocupe, não é nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Ao fim das palavras, uma compreensão mútua que excedia os laços de sangue. Aquela face de adolescente, que de maneira clara tivera seus primeiros contatos com a podridão da vida, dilatava-se em suas novas cicatrizes. Queria abraçá-lo e pô-lo pra dormir ao som das mesmas musiquinhas de outrora. Mas, como dizem, os filhos são para o mundo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Olha, Vini, você precisa entender que sua família é a única que está aqui por você. Amigos vão e vêm, e geralmente não se preocupam com você reciprocamente. Tudo tem limite, até a bondade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Sempre emitia feições de que não entendia bem o que a mulher dizia, mas ela sabia que a mensagem estava entranhada no inconsciente. Era boa com o caçula, sem limites. E tinha tantas coisas pra pensar! Precisava trabalhar, cuidar da casa e evitar que a indiferença afundasse sua família. Às vezes se sentia carente, jogando ao ar palavras incisivas para o rapazinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Cada um só sabe pensar em si mesmo, ninguém olha o meu lado!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="FONT-FAMILY: 'Times New Roman'; mso-fareast-language: PT-BR; mso-bidi-language: AR-SA; mso-fareast-: PT-BRfont-family:'Times New Roman';font-size:12;"  &gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Embora o gosto ácido da injustiça jorrava em sua boca, mantinha-a fechada. Abraçava, beijava, cantava, corria... Uma criança, apesar de tudo. Quase adulto, quando as engrenagens da rotina paravam por algum motivo, seu olhar decaía sobre aquela mulher de uma forma diferente. Que grande teor de admiração! Era sua mãe, afinal, na totalidade do significado dessas três letras. E entre pensamentos sobre a não imortalidade daquela mulher, suspirava, abraçava, beijava, cantava, corria... &lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-3381546646178083607?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/3381546646178083607/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/05/sueli.html#comment-form' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/3381546646178083607'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/3381546646178083607'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/05/sueli.html' title='Sueli'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-2709271406902294904</id><published>2010-05-05T19:24:00.010-03:00</published><updated>2010-05-15T13:00:49.483-03:00</updated><title type='text'>Igor - Parte I</title><content type='html'>&lt;a href="http://th01.deviantart.net/fs43/300W/i/2009/137/1/d/Third_Quarter_Moon_by_Starlight_Aurora.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 300px; DISPLAY: block; HEIGHT: 379px; CURSOR: hand" border="0" alt="" src="http://th01.deviantart.net/fs43/300W/i/2009/137/1/d/Third_Quarter_Moon_by_Starlight_Aurora.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Murmúrios inteligíveis. Ergue a mão ao ar e um círculo alquímico projeta-se. Dele, materializa-se um imenso machado que aos poucos toma forma definida. A lâmina adunca, na ponta da colossal haste de ferro que repousa no ombro da mulher, fulgura à luz da lua minguante. A extensão da arma ultrapassa em duas vezes a altura de sua manipuladora. Parece leve. O firmamento racha-se em pedregulhos marmóreos. Eleva-se uma tímida poeira. O coração sente misericórdia: fita as silhuetas que se aproximam com lufadas de tédio. Retesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;?xml:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Ande logo com isso, Olga... Preciso de mais tempo aqui!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Por cima do ombro, vê um jovem de corpo esguio, de cócoras entre os estilhaços do assoalho. Conhecido há muito! Ramon, por trás dos óculos de telescópio, revira líquidos em frascos disformes. Uma caixa com vidrarias ao lado. As cores bruxuleiam. Concorda com o homem e se volta as suas vítimas. Os corpos sem vida, cerca de trinta deles, arrastavam-se no ritmo da falsa respiração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Pff... Não fique falando como se eu realmente precisasse de você!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Os fios negros, longos, escondem um meio sorriso. Sarcástico. Os cabelos, depois, flutuam. Gira o calcanhar e impulsiona o punho direito, desferindo a rotação para a extremidade inferior do machado. A placa de ferro rasga o ar, emitindo zunidos de corte. Um bocado de carne morta padece ao chão. Os pescoços tombados, em minutos, erguiam-se novamente. Mesmo sem membros. Ao fim da circunferência, Olga equilibra o peso com a outra mão. Brada alto. Exibe a fúria salivante e desfere um golpe vertical. Uns desalmados partem ao meio, e a lâmina, meteórica, afunda-se no mármore. A fissura impede a recuperação completa da postura de batalha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Já falei pra não sair lutando que nem uma idiota!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;À direita da mulher, um zumbi aproveita-se de sua vulnerabilidade. Já na iminência de ser mordida, surge Ramon. Inclina o corpo para trás e desfere um chute certeiro no maxilar já entreaberto. A silhueta mole rola alguns centímetros. Seus irmãos se aproximam mais rapidamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Intrometido... Eu também sei lutar sem meu machado!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Que seja, que seja. O fogo grego está pronto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Olhares de compreensão. Colocam-se de costas unidas. Olga retoma a defensiva com sua arma colossal. O amontoado de mortos vivos os circundam numa massa cinzenta de raio cada vez menor. Massa ondulante. Cinza. Fétida. As expressões se contraem em seriedade. Na aproximação certa, o grito:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- &lt;em&gt;Ora, lege, lege, relege, labora et invenier!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Ore, leia, leia, releia, trabalhe e encontrarás. Depois de expelidas pelos lábios finos do homem, surge em suas mãos o símbolo da borboleta. A transmutação. A metamorfose almejada pela alquimia. Com o frasco de líquido carmesim em mãos, lança-o.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Hora da limpeza! É melhor você sair de perto, hein?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Aderiu, após recolher a vidraria. Os zumbis pareceram ganhar expressão. O sangue da moça queimava em resposta ao estupor. A face: rubra. Um ataque certeiro fez o machado romper o cristal do tubo de ensaio, livrando o fogo vermelho-amarelado. Cria-se luz! A lâmina, num incêndio vigoroso, troveja na noite silenciosa, lacerando o tecido daquelas criaturas maculadas. Gritos de vitória! A bela mulher urra desferindo poucas investidas. Mas de alcance assustador! Ora pulava descrevendo meios círculos no ar, ora espalhava a flama em pequenos tornados. Agilidade sobre-humana. Completo frenesi. Vencê-la, naquele instante, parecia impossível. Aos poucos, as dezenas tombam em cinzas sagradas. O suor da vitória goteja. Fresco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Muito bom, Olga, muito bom!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Dos escombros, o sorriso sincero traz a imagem da bonança. Ramon atira um pote com um líquido borbulhante, esverdeado. Um convite à revitalização.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- É, eu sei. Temos que seguir por aquele corredor até o pátio principal. Os outros devem estar com problemas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Sim, vamos! Se os enfeitiçados chegarem a machucar o Igor, capaz que a cidade seja destruída...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Bebe em goles rápidos. Não havia tempo: o risco era real.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-2709271406902294904?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/2709271406902294904/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/05/igor-parte-i.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/2709271406902294904'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/2709271406902294904'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/05/igor-parte-i.html' title='Igor - Parte I'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-2540964536539484388</id><published>2010-05-03T13:46:00.014-03:00</published><updated>2010-05-04T17:31:16.953-03:00</updated><title type='text'>Mihir</title><content type='html'>&lt;a href="http://th01.deviantart.net/fs39/300W/i/2008/357/2/8/meditate_by_asmo71.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 300px; DISPLAY: block; HEIGHT: 300px; CURSOR: hand" border="0" alt="" src="http://th01.deviantart.net/fs39/300W/i/2008/357/2/8/meditate_by_asmo71.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;em&gt;Nymphaea lotus&lt;/em&gt;. A flor de Lótus: ícone das doutrinas religiosas orientais cuja simbologia evoca as raízes culturais de diversos povos. Flor aquática, dispensa regas e pode ser cultivadas em ambientes diversos, justificando sua abundância em quase toda a Ásia. Ao emergir imperiosa do lodo, personifica a superação de obstáculos preconizada pelo budismo. O desabroche, que se configura em pétalas de brancura inalienável, trazem consigo a mensagem da pureza mesmo diante das inúmeras máculas do mundo, através de canais e práticas espirituais construídas com amor e compaixão - a espada e o escudo de Buda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;?xml:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Mihir, na posição meditativa que homenageia o talvez maior símbolo da religiosidade oriental, sustentava levemente seu corpo infantil numa postura onde suas pernas, cruzadas e entrelaçadas, alicerçavam nos joelhos as mãozinhas de dedos delgados. O assoalho de madeira, que revelava aos fundos do templo um imenso jardim a sua frente, não era sentido pelo garoto. Focava-se na respiração ritmada, buscando o completo vazio da mente. O ar, que de maneira calma percorria suas vias respiratórias e retornava, era como um fluxo de energia pura revitalizando seu interior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Mihir, já é o suficiente... – uma silhueta extensa, de proporções colossais quando comparadas ao menino, trazia em sua pele de chocolate moldada pelo escaldo solar uma expressão de serenidade acolhedora.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Sim, Balamohan. – assentiu num meio sorriso, ao perceber as mãos pesadas de seu mentor desgrenhando sua cabeleira negra. – Mas quero ficar aqui mais um pouquinho, se me permite.&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Farei companhia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;O pequeno indiano, ao abrir os olhos, contemplou a botânica exuberante que o margeava. De pequenos arbustos retorcidos a árvores de copas largas e compridas, o vergel exibia uma miscelânea de espécies vegetais que refletia na abundância de insetos e outros polinizadores. Desprendendo-se da elevação de madeira, Mihir pôs-se a caminhar entre os caules diversos, sentindo aromas ludibriantes que se confundiam nos receptores olfativos do garoto. Um fruto de casca escura, que se dependurava glorioso no pedúnculo esverdeado, chamou-lhe a atenção. Ele já bem sabia que se tratava de um mangostão, fruta exótica comumente às regiões do sudeste asiático, nas zonas tropicais. Mesmo sem fome, colheu-o e retornou ao tablado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Entre todas, trouxe logo a rainha das frutas. &lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Rainha das frutas?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Isso mesmo, ela é chamada assim! O mangostão possui diversas propriedades... – murmurou, acariciando a barba branca como se o ato aumentasse a fluidez de seu conhecimento. – Impede que o corpo acumule muito peso e evita o aumento da pressão sanguínea. Também dizem que previne o cansaço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Arqueou as sobrancelhas num sinal de sincero interesse. Dado o silêncio, abocanhou a rainha sem hesitar. Os dentes afundaram na polpa que era reconhecida por ter o melhor dos sabores. Mentira. A mucosa bucal logo se enrugou em contato com o gosto áspero e sujo. Mihir cuspiu antes mesmo de engolir. Dentro, o mangostão exibia um estofado verde escuro no lugar da textura escarlate comum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Está podre! – exclamou, para depois suspirar pelo canto da boca – Como pode! Tão linda, macia e cheirosa...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- E continua linda, macia e cheirosa. – lampejou, incisivo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Mas de que adianta, Balamohan?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Não seja ignorante! Esses atributos são úteis à fruta justamente para que se aproximem, exatamente como você fez! – virou-se de costas e abaixou o tom da voz – Caso não aprenda a deixar de ser seduzido pelo envoltório externo, pelo charme e pela vaidade, acabará se decepcionando com âmagos podres com cada vez maior frequência.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- A raiva parece me dominar, quando me deparo com essa podridão que existe em todas as coisas do mundo... – sibilou, com as pálpebras caídas e os braços moles. Sentiu que a determinação no controle espiritual através da meditação tinha sido totalmente em vão. O velho percebeu a angústia, voltando a ostentar a aparência receptiva.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Não se sinta culpado por isso, meu caro jovem. Você não é culpado pelo que sente, mas sim pela forma com que age. Se quer evoluir, redirecione esse sentimento para as saborosas frutas que você certamente encontrará e fique grato pelas que já encontrou no seu caminho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;O pescoço se deslocou numa afirmação. Compreendia. Limpou a terra dos joelhos e voltou a se aventurar na mata densa. Sentia fome.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-2540964536539484388?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/2540964536539484388/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/05/mihir.html#comment-form' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/2540964536539484388'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/2540964536539484388'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/05/mihir.html' title='Mihir'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-4645990935531270825</id><published>2010-04-30T12:30:00.015-03:00</published><updated>2010-04-30T18:36:35.254-03:00</updated><title type='text'>Carta para Raquel</title><content type='html'>&lt;a href="http://th01.deviantart.net/fs10/300W/i/2006/093/1/7/goodbye_darkness__by_it_i_laf.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 300px; DISPLAY: block; HEIGHT: 300px; CURSOR: hand" border="0" alt="" src="http://th01.deviantart.net/fs10/300W/i/2006/093/1/7/goodbye_darkness__by_it_i_laf.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Raquel,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Caso essa nota se conclua, saiba que foram muitos os versos inúteis embebidos em lágrimas que se amontoam na lixeira próxima à escrivaninha. Coloco-me aqui, numa tentativa entorpecente de vencer a resignação que me petrifica, só encontrando nessas letras disformes o canal para o alívio intangível. E não me surpreendo se você encarar essa humilhação gloriosa com aquela feição que tanto conheço: a sobrancelha direita erguida em seta; os lábios (e me permito divagar sobre eles alguns segundos), levemente crispados e os dedos mergulhando fundo nos cabelos em intervalos sumariamente periódicos. Saliento uma segunda vez: não me surpreendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas sei que lerá até o fim pelo sabor da curiosidade, embora tema que seu ímpeto comum a impeça de ver o cerne por trás das palavras. Admito que lhe escrevo, nas saliências do silêncio, ansiando vomitar cada angústia que me sufoca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;"Foi apenas um beijo", sou capaz de ouvir-te dizendo. Sim, apenas um. Apenas um. E apenas esse fora capaz de sibilar em minha memória, vívido, durante as tantas noites em que vi o céu em seu parto diário. E no afago dos meus sentimentos, suspirei. Transmutei-me em brasa e renasci. O engomado "não", que dissera sem palavras ou rodeios, de início pareceu charme de moça. Engoli numa deglutição vagarosa, a verdade. E a aspereza na garganta virou nódoa e me calou. Desci veloz a rampa célere que leva ao ódio. Praguejei. Gritei insultos para as paredes e brandi punhos ensanguentados. Blasfêmias a Deus irromperam de minha boca salivante. Calei-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Isso há semanas. Hoje, o tempero da serenidade - trizteza tímida - ajudou a enganar meus pais, que notaram a brusca mudança comportamental. Acalme-se, não disse nada a eles. Mas iremos mudar de cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Já rasguei o contrato com a boa conduta. Não vou desejar que você seja feliz. Quero, em contrapartida, que espume arrependimento por seus orifícios maculados. Acredito numa justiça que te fará algoz de sua covardia e escrava de cada palavra polida, floreada, mergulhada no líquido torpe da mentira. Digo adeus, mostrando que seu espírito efêmero, na somatória das parcelas, ceifou o meu comportamento outrora sonhador. Agora, recolho-me aos pedregulhos da desilusão com um sorriso de meia boca. Buscarei meus fragmentos em outro lugar, onde nem resquícios de sua existência possam se tornar fantasmas. Duvido...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mônica Silveira &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-4645990935531270825?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/4645990935531270825/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/04/carta-para-raquel.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/4645990935531270825'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/4645990935531270825'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/04/carta-para-raquel.html' title='Carta para Raquel'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-6554307418162633858</id><published>2010-04-27T22:32:00.025-03:00</published><updated>2010-04-27T23:21:16.928-03:00</updated><title type='text'>Pedro e Liz - Parte I</title><content type='html'>&lt;a href="http://www.igorspn.xpg.com.br/imgs/mdo/la_mujer_violinista.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 350px; DISPLAY: block; HEIGHT: 285px; CURSOR: hand" border="0" alt="" src="http://www.igorspn.xpg.com.br/imgs/mdo/la_mujer_violinista.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;As perninhas não o sustentavam. Aos risos, caia e retomava a empreitada. Modelado numa massa rósea e perfeitamente lisa, Pedro ainda era um bebê quando a mãe revelara suas duas outras famílias. A criança, diante disso, persistia em seu movimento amebóide, no qual, através do tato virgem, descobria o calor, o frio, a pressão e a dor. A visão, redonda e maligna, se unia à audição submissa e fotografavam juntas o pai aos berros, esmurrando paredes ao sabor da raiva. Vanda, a mãe, fugira.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na boca ágil dos vizinhos: uma hecatombe sem precedentes. Na construção do arquétipo do garoto, porém, o incidente parecia refletir pouco. Dotado de uma polidez maquinal, exibia seus dentes perfeitamente cuidados em todas as situações em que sua etiqueta natural mandava fazê-lo. Manipulando um estrondoso acervo léxico, ressuscitava palavras em desuso e citava autores pouco conhecidos, lapidando intelectualmente seu caráter. Livros pelo tamanho. Discos pela velhice do músico. Firmou-se uma carola bondade esculpida numa exímia educação, vista com antipatia pela maioria. A presença familiar era nula. O pai, ranzinza em sua essência deplorável de traído, embebedava-se todos os dias, vomitando ofensas normalmente incisivas e invertendo os papéis dentro do casebre solitário. Ainda assim, nunca brigavam - Pedro era incapaz de enfrentá-lo. Ou de enfrentar a si mesmo. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;?xml:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Diante disso, numa fuga que ele mesmo não reconhecia, criou um apreço pelo ambiente escolar. A construção de alvenaria que se instalava ao longo de um barranco e vez ou outra entrava em paralisação por semanas era onde aprendia, além do conhecimento científico, o básico das relações interpessoais. Crianças geralmente se unem ao bel do acaso, para saciar as peripécias e atingir um determinado nível de auto-afirmação. Na juventude, as amizades alicerçam-se pelos gostos. Formam-se grupos. E ter uma realidade compatível à de Pedro era incomum. Excluía-se. Acostumou-se, então, a ter convivências rápidas e coleguismos efêmeros, enraizando a funesta retórica em que as pessoas se unem por mera conveniência.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Em certa ocasião, Diego, que lhe ilustrava perfeitamente o perfil de um sujeito extremamente débil e pegajoso, surgiu no colégio com uma ferida no braço esquerdo. Uma nódoa escarlate parecia polida por um medicamento branco, que mergulhava nas marcas profundas que supôs terem sido trabalhadas pela mandíbula de um animal feroz. A simples aproximação do colega o desconcertava. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Veja, Pedro! Meu cão me mordeu... – murmurou, mas parecendo mais feliz do que triste com o incidente.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Legal... – não o encarava, mirando um ponto qualquer no quadro negro.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Ele é grande, todo peludo. Pus o nome de Simba. Vai lá em casa pra você conhecer!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Costumo passar muito tempo estudando... – propositalmente, deixou que o silêncio pairasse para atenuar o efeito das palavras que seguiriam. – E você sabe disso, embora viva chamando...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Estuda nos sábados e nos domingos? Duvido! – como Pedro se calou, continuou na ofensiva. – Você passa muito tempo sozinho, isso faz mal! Já te contei que eu tenho uma irmã?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- No mínimo dezesseis vezes essa semana.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Ela toca violino muito bem. Hoje ela vai apresentar no anfiteatro pra escola toda e você, querendo ou não, a conhecerá!&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Girou o pescoço e focalizou Diego, deixando-se levar por uma comoção repentina. Ele mostrava se preocupar. Isso o amedrontava... Por mais fastidioso que fosse, o talvez único amigo não parecia se importar com seu temperamento seco, vestindo sem nenhuma vergonha a carapaça de um bobo. Quando o sentimentalismo se esvaia, enxergava um ser humano grotesco diante de si, que em sua ignorância o enojava. Não se sentia imundo por se considerar superior.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Inverno, Antônio Vivaldi. Todas as cadeiras do pequeno teatro da escola abrigavam, maravilhados, os alunos de diferentes faixas etárias, mas igualmente surpreendidos. Mesmo diante da falta de estrutura para uma apresentação decente, o som do violino trabalhado em ébano ricocheteava no firmamento e nas pilastras calcárias atingindo com precisão o âmago dos ouvintes. Cada nota entoada dava continuidade infinita há uma série de sentimentos que emergiam das entranhas, impossíveis de serem contidos. A racionalidade de Pedro não o deteve de pensar que aquela música deveria ser destinada a sua pessoa. Imaginou paisagens gélidas, campos cinzentos, a ausência de cor e calor em imensidões sem vida. A estação em que não há frutos ou folhas, onde paira o manto etéreo da morte. Sentia-se nu, como se todas as suas verdades já fossem do conhecimento de todos. Os músculos cediam, frouxos, e era invadido de arrepios sucessivos. Tremores quentes. Estava completamente à vontade. Ao seu lado, paspalho, o irmão vivia uma evidente erupção de orgulho. Invejava-o por não invejá-la, e sentiu pena por ele não possuir algum tipo de talento comparável. E pena de si mesmo.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Incrível, né? – cochichou.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Sim, admito! Qual é o nome dela?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Liz. Ela é irmã só por parte de mãe... – migalhas de frustração eram fáceis de serem notadas, mas Pedro ignorou.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;De feição rígida, impenetrável, a garota que devia ser no máximo dois anos superior aos seus dezessete empunhava o arco como uma guerreira com sua espada. A face pontiaguda ora sorria e ora se enrijecia, como se ela mesma fosse vítima da magia que sua arte conjurava. Os cabelos ruivos dançavam. O vestido de seda púrpura levitava em senóides sucessivas. Mas não ventava. No fim daquela luta que ela travara e vencera, todos levantaram. Muitos aplausos. Pedro se viu incontrolável em sua euforia. O silêncio pareceu um pesadelo. Diego cortou-o. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Vamos lá, quero que ela te conheça!&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Liz exibiu um sorriso travesso ao vê-los, já na rua defronte ao colégio. Tremia, exibindo sorrisinhos tímidos muito semelhantes aos de seu meio irmão. Em contraposição à postura firme de outrora, ostentava uma doçura quase palpável, e fez Pedro rir de sua insegurança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Fui bem, meninos?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Claro mana, foi perfeita como sempre!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Eu também gostei muito. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Você! Você é o Pedrinho que meu irmão tanto comenta? – totalmente desconcertado, o garoto paralisou-se de boca aberta. Pedrinho? Diego pareceu entendê-lo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- É ele mesmo! Tem como você dar uma carona pra ele até ali perto do parque ecológico?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Claro, claro, entra aí!&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Falaram muito durante o percurso. Sobre música, sobre ciência. Até sobre desenhos animados. Sentiu-se totalmente bem, não conseguindo evitar a curiosidade que seus olhos palpitantes possuíam diante da motorista ao seu lado. Liz lhe parecia perfeita; Diego, nunca tão tolerável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Nesse fim de semana posso te visitar, então? – se impressionou com a naturalidade com a qual as palavras vieram ao ar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Tá marcado!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Até lá, amigo do maninho.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Um aceno sincero de despedida. Girou o calcanhar, rodou a chave. Ao adentrar, escutou uma voz feminina desconhecida. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Filho!&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-6554307418162633858?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/6554307418162633858/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/04/pedro-e-liz-parte-i.html#comment-form' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/6554307418162633858'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/6554307418162633858'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/04/pedro-e-liz-parte-i.html' title='Pedro e Liz - Parte I'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-4907891929092593008</id><published>2010-04-19T22:52:00.027-03:00</published><updated>2010-04-26T19:19:08.971-03:00</updated><title type='text'>Murilo</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 300px; DISPLAY: block; HEIGHT: 400px; CURSOR: hand" border="0" alt="" src="http://th04.deviantart.net/fs44/300W/f/2009/068/9/b/Side_view_by_Lonelyisonlyastate.jpg" /&gt;&lt;br /&gt;O trepidar dos passos de um adulto é bem distinto aos de uma criança – isso é, se elas chegam a fazer algum barulho quando andam. Afinal, a maioria pula e corre com os pés nus... Os que usam chinelos, que se dobram em movimentos ritmados de mede-palmos, produzem um som abafado de plástico numa arritmia que denuncia a lógica tão ilógica da infância. Já o sapateado senil, de frequência inviolável, carrega a mácula da artificialidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Calçados novos são piores. E o preto, devidamente lustrado, contrastava com a leveza da vestimenta alva. O estatelar faiscava no firmamento marmóreo da escadaria do hospital. Horácio, cuja feição pétrea se suavizava ao longo de inúmeros suspiros, mergulhava os dedos pálidos na cabeleira grisalha como se pudesse, assim, organizar os pensamentos. As lufadas de vento erguiam o jaleco acima do quadril. Fitou a massa de um cinza escuro logo acima de si: certamente choveria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Doutor Horácio?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ancorado no muro que cerceava o quarteirão, uma silhueta deplorável se entortava ao longo da extensão de uma cadeira de rodas. Mergulhados num sebo pastoso, os fios muito extensos de cabelo desciam em cascata ocultando parcialmente as órbitas profundas, margeadas por um roxo doentio. Sem se impressionar, o médico ergueu as sobrancelhas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- Pois não?&lt;br /&gt;- É que... – respirava forte, levando a mão direita ao peito como quem reúne o último fôlego restante – o controle automático da minha cadeira não está funcionando. Eu só precisava de alguém que me levasse até minha casa, que é bem ali pertinho.&lt;br /&gt;- Claro, sem dúvidas. – Horácio se viu vítima de seu comumente altruísmo antes mesmo de ponderar a situação. Chegaria atrasado em casa, mas ele era o único a quem devia satisfações. Decidiu que acataria o papel social.&lt;br /&gt;- Que maravilha! – dardejou, e os dentes muito grandes se abriram num sorriso de estampada melancolia. – Siga a avenida principal e eu vou te orientando. Em minutos estaremos lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A brisa gélida queimava a nuca. Folhetos espiralavam no ar, rasgando-o em zunidos que por sua vez rasgavam o silêncio. O lixo do dia seguinte já se acumulava. As lojas tentavam resistir. Sentiu com amargura a nostalgia que todo fim de tarde lhe trazia. Os dedos esguios conduziam com certa velocidade a cadeira motorizada pelo passeio lateral. Tantos olhares curiosos, alarmados, amedrontados, familiares... De súbito, uma pequena cratera no assoalho se pôs no trajeto, engolfando uma das rodas e quase chocando o doente ao chão. O ortopedista, num ato de exímio reflexo, segurou-o antes que caísse e acomodou-o com muita minúcia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quanta falta de atenção... Mil perdões! Senhor...?&lt;br /&gt;- Murilo. Não se preocupe com isso, já estatelei no chão inúmeras vezes...&lt;br /&gt;- Hoje estou tão cansado que mal consigo raciocinar. Enfim, que tipo de problema você teve, Murilo?&lt;br /&gt;- Poliomielite, como costumam chamar por aqui. Paralisou quase todo o meu corpo.&lt;br /&gt;- Há quanto tempo?&lt;br /&gt;- Doze anos.&lt;br /&gt;- Hum... Mas você sabe que a vida de um cadeirante, atualmente, quase se equipara socialmente à um cidadão comum, certo?&lt;br /&gt;- Não me interprete mal, doutor... Não reclamei de nada até agora e não quero uma consulta. Sou uma pessoa muito feliz, só estou louco para chegar em casa e abraçar meus filhos. A propósito, lá na próxima direita quero que você vire.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assentiu, manobrando-o para um extenso beco. Horácio se perguntou como podia existir um lugar como aquele, tão próximo de onde trabalhava, mas que nunca vira na vida! Os entulhos se acumulavam em meio aos farrapos que os mendigos usavam para dormir, construindo um cenário que o estapeava em sua condição elevada, revelando uma realidade que ele inconscientemente ignorava. Excretas, sujeiras... Procurou desviar o olhar tímido e covarde. Viu a mão direita do portador de necessidades especiais esticando-se, solicitando em silêncio que parasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Doutor... Deixe-me te perguntar uma coisinha: em sua profissão de médico você já presenciou milagres? – o tom de voz mudara, agora carregado de uma agressividade lasciva e, sobretudo, amedrontadora.&lt;br /&gt;- Ah... Sou cético com essas coisas. Nunca.&lt;br /&gt;- Não se preocupe, agora eu lhe concederei a honra!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levantou-se lentamente, saboreando cada contração muscular. Boquiaberto e com as pupilas violentamente dilatadas, o médico observou atônito o desconhecido equilibrar-se sobre os dois pés como quem possuía total habilidade sobre o próprio corpo. Estralava o pescoço, gargalhando profundamente. As vibrações retumbavam no muro chapiscado e avançavam para o silêncio. Ninguém ouviria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que está acontecendo? Isso por acaso é uma brincadeira? – esbravejou.&lt;br /&gt;- Brincadeira, Doutor Horácio Guedes Paiva? Vou contar o que é brincadeira... Aliás! Vou contar o que é uma completa peça de teatro! Por acaso a vossa senhoria se lembra de uma paciente que veio a falecer no corredor do hospital por falta de atendimento?&lt;br /&gt;- Do que você está falando? Isso não aconteceu! Ficou louco?&lt;br /&gt;- LOUCO? Ela era a mãe de meus quatro filhos! Por acaso essa cadeira que eu roubei do SEU hospital parece uma miragem? – a etiqueta no estofado comprovava a verossimilhança do que Murilo dizia. – Agora eu venho, através de um julgamento abençoado por Deus, aplicar-lhe a punição que cada um daquele INFERNO de lugar merece. Que você sirva de exemplo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estupefato, cogitou por alguns segundos a possibilidade de estar num pesadelo. Um pesadelo onde um homem randômico empunhava uma arma, cravando em cada uma de suas pernas balas que fulguravam uma dor alucinante. Os berros estridentes de agonia e medo não condiziam com um sonho, mas ele ainda tinha fé. A fé descomunal que os céticos manifestam na iminência de morte.&lt;br&gt;&lt;br&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Desfaleceu-se sobre a cadeira de rodas - que agora seria sua - observando o caldo escarlate se misturar à água da chuva, gotejando calmo. A silhueta de seu algoz se reduzia lentamente naquele beco infinito... Rezou para que estivesse sonhando. Mas seus passos nunca mais emitiram som.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-4907891929092593008?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/4907891929092593008/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/04/blog-post.html#comment-form' title='14 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/4907891929092593008'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/4907891929092593008'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/04/blog-post.html' title='Murilo'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>14</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-5362399326204418830</id><published>2010-04-07T21:18:00.012-03:00</published><updated>2010-04-22T12:41:08.831-03:00</updated><title type='text'>Valquíria - Parte I</title><content type='html'>&lt;a href="http://radio-weblogs.com/0108104/images/2003/01/08/favela.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 326px; DISPLAY: block; HEIGHT: 503px; CURSOR: hand" border="0" alt="" src="http://radio-weblogs.com/0108104/images/2003/01/08/favela.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Uma aglutinação cor de barro floculava numa escarpa, pintando com seu vermelho desbotado aquele relevo íngreme e muito acidentado. Tão longe do centro da cidade... Assim era o vale do Tijolinho que, sem acesso decente às estradas, honrava o nome cedido pelos próprios moradores com suas casas de arquitetura simples e deveras frágil. Ao olhar de alguém distante, não se podia precisar se um espaço vazio era uma porta, uma janela, um beco ou um rombo. Tampouco identificar onde começava uma residência e terminava a outra. Sem pavimento. Essas regalias de privacidade do mundo moderno não cabiam ali - região fadada à exclusão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="mso-spacerun: yes"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;?xml:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Entretanto, o estereótipo que os marginais comumente possuem não permitia a realização de um julgamento verossímil de alguns residentes. Valquíria, um relâmpago negro que cujo caráter delicado se cristalizava numa carcaça de beleza, não exibia em seus gestos nenhum sinal de submissão diante das intempéries de uma vida dificultada pelo acaso. Os dentes grandes, de um branco perolado brilhante, revelavam juntamente com sua pele a ancestralidade africana. Estava sempre sorrindo. As linhas pontiagudas do cabelo se espiralavam num coque preso pouco acima do bulbo. Gostava de todos os sons, de todos os sabores, de todos os seres viventes... Gostava de cada detalhezinho e se admirava com a mais simplória manifestação de afeto. Só não gostava da noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Mas era dia. Quatro horas da man&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;hã. Recusou o café e partiu logo para a limpeza. Tudo havia de estar limpo e organizado, mas as manchas escuras insistiam em se alastrar pelas paredes. Quando uma nova rachadura se instalava, suspirava e entristecia-se por segundos. Logo, agradecia pela existência de um lugar para morar e continuava. Limpava, mesmo com pouca água. Mesmo sem pano. Mesmo sem balde. Mas havia uma panela, e ela usaria para buscar mais. Pelos vãos, caminhos de terra, e porventura precisando perpassar pelos casebres alheios, chegara numa cisterna onde um amontoado de pessoas aguardava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Oi Val! &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Val, vou mandar meu filho para você hoje, hein?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Que linda que você tá! Roupa bonita... Dona mãe ta querendo te ver sabia?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Vê se não falta na igreja domingo minha filha... Sonhei coisa ruim!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Murmúrios quentes naquela manhã fria. Ela se aquecia. Cerca de um quarto do vasilhame enferrujado já era o suficiente. Voltou e ferveu-a - comedida, para que não muita água virasse vapor. O cheiro vertiginoso do café engolfava o estômago. Pela janela: o sol a zênite... Recusou também o almoço, agora já exibindo o tão usado vestido com os borrões coloridos de tinta. Um de seus alunos o fizera num momento de abstração profundamente criativa. Valquíria muitas vezes se pegava tentando enxergar cogumelos, chapéus e nuvens naquele mosaico disforme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Exímia professora. Acomodava as crianças, ensinava-as o pouco que sabia rabiscando com um tijolo o único muro cimentado do lote. Mas havia pouco espaço e, também, pouco elas queriam aprender... Iam mesmo pela comida, por um biscoito e pelo café. Ou talvez ali era um bom refúgio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Tia! Tem leite?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Podemos brincar de pega-pega? &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Tia Vaval! Mamãe ontem disse que a gente é pobre porque a gente é preto. Como faço pra ser branco?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Tava com tanta fome ontem que até uns tijolinhos eu comi! Por que eu tenho esse barrigão se eu não como nada de nada?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Como amava as crianças! Não tinha leite, não tinha espaço, não tinha justiça, não tinha verdade. Nem mesmo saúde! E elas riam, gargalhavam com as mais singelas piadas. Brincadeiras de roda, paródias inventadas pela improvisação ou um simples “corre cutia” já marejavam aqueles pequeninos olhares com estrelas iluminadas da mais pura felicidade. Valquíria compartilhava daquele êxtase e por algumas horas reconstruía a experiência da infância. Abraçava-os em punhos fortes de grilhões de aço!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Mas a noite sempre chega. E com ela os pesadelos... Os tão vivos pesadelos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-5362399326204418830?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/5362399326204418830/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/04/valquiria-parte-i.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/5362399326204418830'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/5362399326204418830'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/04/valquiria-parte-i.html' title='Valquíria - Parte I'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-2398056969381025665</id><published>2010-04-06T22:29:00.008-03:00</published><updated>2010-04-07T17:57:48.469-03:00</updated><title type='text'>Ana</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://th09.deviantart.net/fs47/300W/f/2009/199/4/f/4f051d27fa04cdf1a33b1d0652807ac3.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 300px; DISPLAY: block; HEIGHT: 236px; CURSOR: hand" border="0" alt="" src="http://th09.deviantart.net/fs47/300W/f/2009/199/4/f/4f051d27fa04cdf1a33b1d0652807ac3.jpg" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;strong&gt;- Eu nem me importaria se meu cabelo fosse ruim, ia deixar crescer. Não ia cortar de jeito nenhum! Nenhum mesmo...&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Você vai ter tempo pra isso...&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;?xml:namespace prefix = o ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:office" /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Sentia uma veia próxima ao ouvido pulsar freneticamente. Aquelas palavras, entoadas num dramático tom de falso galicismo poético, conseguiam com êxito me fazer tremer. Raiva! Não precisava de toda aquela encenação se tudo acabou bem! As minhas expressões faciais eram tão falsamente plásticas que ele só não notava minha indisposição porque sua mania de autopiedade as interpretava como tristeza. Ainda assim, não o fitava no olho. A testa sempre franzida em três grossas linhas. Folheava a revista fingindo me distrair com as belas paisagens.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;strong&gt;- Engraçado Ana... Nenhum palhaço veio aqui esses dias todos.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;strong&gt;- Palhaço?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;strong&gt;- É! Dizem que eles vêm fazer brincadeiras com quem tem câncer.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Talvez você não tenha ficado tempo o suficiente para que um deles aparecesse.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Câncer! Adorava pronunciar bem devagar cada fonema dessa mácula que ele transformava em triunfo, mesmo após tê-la vencido com o advento da dor e preocupação de vários parentes e amigos. Eu mesma criei manchas púrpuras ao redor dos olhos - não sei se devido às lágrimas ou à insônia. Após essa luta sua silhueta parecia mais fraca, não como a costumeira humildade digna de um vencedor orienta. Não o condeno pela ausência de cabelos ou pela pele exageradamente pálida, mas pela postura que perdera a convicção de um homem e dera lugar a uma criança que vomitava chantagens ininterruptamente. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Estou com sede...&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Tem água bem aí do seu lado.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Se aquela era uma tentativa para que eu erguesse o olhar – o que me veio na mente ao notar que ele não se movia para alcançar o copo -, não funcionou. Não daria o braço a torcer. Uma luta havia se instalado: ele me forçava a adulá-lo ou eu me mantinha fiel a minha personalidade. Deitei a cabeça no estofado e fechei os olhos. Tanto cansaço! Podia senti-lo em cada membro do meu corpo. Seus pais estavam tão alegres... Quando apareceram de manhã, quase me senti doente por estar tão mal humorada numa situação tão propensa à euforia. Talvez eu não estivesse ali por ele, mas para provar a mim mesma que sou uma boa amiga...&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Um estridente despedaçar de vidros me fez interromper estupefata os poucos segundos de meditação. Em síncope, gritei a enfermeira e pedi que recolhesse os estilhaços, sem sequer me lembrar de como me levantara da cadeira.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Eu não sei o que houve, é como se eu tivesse perdido o movimento da mão por um segundo! Será que não estou totalmente recuperado?&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;- Você está bem, não fique imaginando coisas! Palavras negativas atraem energia negativa. Devia estar é feliz por deixar o hospital, e não se lamuriando como se fosse o fim do mundo! Já não basta o monte de pessoas que sofreu por sua causa? Seja menos mimado e encare os fatos!&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Sua reação de surpresa foi como um tapa seco na minha face. Uma nódoa esverdeada escorria pelas narinas. Respirava pela boca, ofegando profundamente. Pedras de gelo inundaram meu estômago ao imaginar que ele poderia ter uma convulsão ou algo igualmente sério. No entanto, seus olhos esbugalhados se alinhavam na direção de outra pessoa: sua mãe, que estava em pé atrás de mim, atônita. Saí em passos rápidos pelos corredores brancos, justificando minha violência verbal em pensamentos confusos - num mesmo gesto de pena e preservação de imagem que eu mesma condenara anteriormente.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Demorei a perceber que gostava muito dele. Não queria aceitar seu sofrimento. Covarde, evitava as palavras para que sua dor não fosse realidade. Ignorar era uma forma de me isolar numa bolha de mentiras confortáveis. O que era pra ser um belo sentimento se transfigurou numa resistência que, alimentada pela falta de diálogo, chegara ao ápice e me fizera perder uma das pessoas mais importantes.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p style="MARGIN: 0cm 0cm 0pt" class="MsoNormal" align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;O câncer voltou, dois anos depois, mais agressivo. Entrou em metástase rapidamente. Perdi uma das pessoas mais importantes.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-2398056969381025665?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/2398056969381025665/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/04/eu-nem-me-importaria-se-meu-cabelo.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/2398056969381025665'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/2398056969381025665'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/04/eu-nem-me-importaria-se-meu-cabelo.html' title='Ana'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-5845572072155512517</id><published>2010-03-28T20:46:00.004-03:00</published><updated>2010-03-30T22:00:53.073-03:00</updated><title type='text'>André - Parte III</title><content type='html'>&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 500px; CURSOR: hand; HEIGHT: 333px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://farm3.static.flickr.com/2267/2266328617_853b23e9e8.jpg" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Querido Diário,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos encontramos. Eu não consigo sequer ordenar os acontecimentos na minha mente, pois até a minha visão está trêmula, embaçada... Sinto frio. Suo. Depois arrepio. Vou até a janela e até a geladeira sem objetivo nenhum. Não há pensamentos formulados, já que não há fórmula para o amor. Sinto-me observada pelas paredes, invejada pelos ursos de pelúcia. Eles me fitam com certa tristeza, como se não desejassem o desabrochar de minha feminilidade. Nem sequer lembro quem me deu essa almofada em forma de borboleta. Tão patética! Atirei-os pelo chão e aqui estou, deitada, rolando sobre mim mesma em risinhos de ansiedade. Não sinto mais cheiro, senão o cheiro dele... Tudo que possui cor parece ter sido criado pelas suas mãos mágicas. Mãos tão lindas! Suas unhas róseas estranhamente nunca se sujavam. Aparadas perfeitamente. As veias abriam caminhos salientes por debaixo da pele. Quis apalpá-las. Ele deixou. Felizmente, havia largado a aliança na bolsa minutos antes. Falamos sobre arte, sobre política, sobre religião. Os assuntos cotidianos, saindo de sua boca, configuravam-se num completo espetáculo teatral. Falava tão baixinho! Num requinte de educação que me fez sentir uma princesa. Não pude controlar o trepidar de minha respiração. Como fui estabanada! Tudo em mim denunciava meu interesse: o batom carmesim - que dava mais carne aos meus lábios secos, a maquiagem feita minuciosamente, os cabelos hidratados num penteado incomum e, sobretudo, minha gesticulação ilógica e a inconstância da minha voz. E não sei descrever bem o momento do beij.............................................................................................................................&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As ondas lambiam meu pé, quando amassei essa página e deixei que o líquido maculado da traição pingasse na areia molhada. Onde estavam as lágrimas para se juntar àquele caldo? Sentia a amargura cáustica espremendo meu peito. Mas não chorava. Meu nome não havia sequer sido citado em suas confissões de vadia recalcada! Que desprezo belamente disfarçado... E eu estava ali, sujo de areia e embebido em ódio. E fiquei. Afundei minha mão na lama que se formava e erguia o punhado marrom e pastoso para depois lançá-lo, até que retumbasse no mar. Nuvens e nuvens e nuvens... Chuva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois do quadro das violetas, muitos vieram. Thaís, que já sucumbia toda a sua suavidade para dar lugar a um temperamento instável, vivia numa realidade intocável a qualquer humano senão ela mesma. Quando ele pintava maçãs, fingia descobrir uma por acaso em seus pertences. Pintou um avião e ela, eufórica, desprendeu horas tagarelando sobre como ele previra a chegada de sua prima que morava em Barcelona. Eu não a beijava mais. Não abraçava. A rigidez da minha face diante de seus devaneios era evidente, o que se somava ao meu silêncio inquebrantável. Ela não notou, ou não se importou. Houve, então, uma tela onde um casal se enamorava no diáfano pôr-do-sol. Tranquei-me no quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Relembrava cada um desses episódios, sem sentir as gotas já fortes salpicarem meu corpo. O celular tocou, e quando o retirei do bolso da bermuda vi seu número brilhar. Brilho que fez nascer um ponto de esperança nas trevas daquela quase depressão. Ela não notava minha existência há semanas... Atendi ali mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;- Alô?&lt;br /&gt;- André? –&lt;/strong&gt; logo senti algo estranho em sua voz, imaginando que fosse a tempestade que se formava causando algum tipo de interferência.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;- Eu mesmo. Aconteceu alguma coisa, Thaís?&lt;br /&gt;- Não é a Thaís, é a mãe dela.&lt;br /&gt;- Ah, pois não dona Sônia...&lt;br /&gt;- Hoje cedo ela disse que sairia para visitar um amigo que morava em frente a basílica e está demorando muito pra voltar. Não atende o celular e, como está chovendo, fico preocupada. Pensei que ela estivesse com você...&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;- Não não. Mas vou procurá-la e levá-la pra casa, fique tranquila&lt;br /&gt;- Então ótimo, estou esperando. Tchau Dedé!&lt;br /&gt;- Até...&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rompi com a letárgica covardia que me envenenava e disparei pelas ruas.&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-5845572072155512517?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/5845572072155512517/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/03/andre-parte-iii.html#comment-form' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/5845572072155512517'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/5845572072155512517'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/03/andre-parte-iii.html' title='André - Parte III'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://farm3.static.flickr.com/2267/2266328617_853b23e9e8_t.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-5416894270960201702</id><published>2010-03-24T18:34:00.006-03:00</published><updated>2010-03-24T18:50:45.540-03:00</updated><title type='text'>André - Parte II</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6qFnwuETQI/AAAAAAAAABA/tPblc8R1jxA/s1600/c42e2f04334c6c063225f31f15dde1f9.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5452317217024920834" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 234px; CURSOR: hand; HEIGHT: 320px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6qFnwuETQI/AAAAAAAAABA/tPblc8R1jxA/s320/c42e2f04334c6c063225f31f15dde1f9.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;O amor... A desconexão completa do humano ao seu lado animal. O elo em correntes de seda, que entrelaça o espírito ao divino. Em sua fragilidade, corrompia-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seus olhos estavam diferentes naquela manhã: vítreos. Bolhas de sabão muito opacas. Pálpebras alertas. Algo havia desestabilizado a suavidade de seus estratagemas, coisa que nem os mais sérios conflitos familiares conseguiam efetuar. Não usava o costumeiro batom carmesim, nem os penachos em brincos de índias. Tremia as costas das mãos. Observei, ressabiado. As nuvens em nódoas cinzentas ameaçavam um temporal. Aproximei-a num meio abraço, enquanto caminhávamos para o ponto de ônibus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;- André... –&lt;/strong&gt; e muito raramente me chamava assim &lt;strong&gt;– ontem, no centro da cidade, descobri um pintor que faz quadros muito bonitos!&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;- Ah é? Mas isso não é bastante comum por ali?&lt;br /&gt;- Pode ser, mas esse rapaz é diferente. Seus quadros são incríveis!&lt;br /&gt;- Você viu mais de um?&lt;br /&gt;- Não, só um... Não seja chato! E você não vai acreditar: ontem ele pintou justamente um céu muito nublado! –&lt;/strong&gt; ergui as sobrancelhas numa evidente feição de deboche que foi ignorada &lt;strong&gt;– Ele meio que se desconecta do mundo, como se estivesse... –&lt;/strong&gt; muita gesticulação &lt;strong&gt;- Sei lá, em transe!&lt;br /&gt;- É... Acho que quem está levemente desconectada do mundo hoje é você.&lt;br /&gt;- Chato! Você vai entender se ver de perto. Vamos lá agora?&lt;br /&gt;- Eu tenho um trabalho de física pra fazer... –&lt;/strong&gt; murchou, e seus olhos se transformaram em pequeninas gotas de decepção. Cedi. &lt;strong&gt;– Mas eu vou, só não posso demorar muito, tudo bem?&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Já a caminho, vislumbrei sua silhueta inclinada no vidro da janela. Respirava tão lentamente! Num vestido de um singelo amarelo, um mosaico de flores em tricô se emaranhava pela rede de linhas. Violetas experimentavam outras cores e se livravam do corpo vegetal que as entranhavam no firmamento. Adormeciam e se precipitavam de acordo com as lufadas de vento. No fim, desfaleciam nos joelhos justapostos. Tão graciosa em sua liberdade... Eu? Prisioneiro dessa mesma liberdade!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá estava o suposto artista-vidente - e não contenho a ironia - nos pés de uma escadaria de igreja. Uma boina à francesa, um sobretudo preto e a grande aquarela com borrões de tinta. Não era difícil ver a excitação no olhar de Thaís. Finalmente ganharam cor e vida. E a cor também manchava a tela retangular. Sentados, senti-me um intruso naquele espetáculo sem sentido. Fitava sua reação, incisivo, ansiando que ela me notasse e questionasse meu comportamento. Esmiucei as possibilidades de discussão e nas formas de justificar meus ciúmes. Cheguei a saborear os argumentos, as frases de efeito. O gosto ácido de uma vitória verbal merecida. Inútil. Ela não se movia. Os ponteiros do relógio no cume da igreja me zombavam. Rezei pelo rugido da tempestade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seus músculos, em conjunto, se contraíram num espasmo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;- Veja, André! São violetas!&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-5416894270960201702?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/5416894270960201702/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/03/andre-parte-ii.html#comment-form' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/5416894270960201702'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/5416894270960201702'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/03/andre-parte-ii.html' title='André - Parte II'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6qFnwuETQI/AAAAAAAAABA/tPblc8R1jxA/s72-c/c42e2f04334c6c063225f31f15dde1f9.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-6087065752930764409</id><published>2010-03-22T17:55:00.011-03:00</published><updated>2010-03-25T09:03:20.126-03:00</updated><title type='text'>André - Parte I</title><content type='html'>&lt;a href="http://th05.deviantart.net/fs70/300W/i/2010/013/7/f/dear_deary_by_ninamokaka.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 300px; CURSOR: hand; HEIGHT: 300px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://th05.deviantart.net/fs70/300W/i/2010/013/7/f/dear_deary_by_ninamokaka.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Quando a depravação da minha alma sobrepujou meus valores morais, roubei seu diário. Tal qual sua face de traços simples, mas de perfeita simetria, as letras ocupavam todo o espaço, como se dependessem dele para o completo vômito daqueles segredos que fervilhavam em seu interior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Querido Diário,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escrevo com o peito estufado, em chamas. A grafia sairá tropeçando em si mesma. O fato é que talvez eu tenha encontrado a fonte de toda a felicidade, a maneira certa de conduzir a vida magicamente. Insisto em escrever dessa forma talvez muito ornamentada para que eu me lembre no futuro da excitação que, agora, ao mesmo tempo em que me inunda de suspiros quentes e profundamente confortáveis, aprisiona meu ser na iminência de um vício intangível. Sem mais rodeios: mamãe, em seu ensejo indomável de consumo, precisou dos meus braços para carregar as inúmeras sacolas que adquiria nas lojas de roupa do centro da cidade. Num momento em que andávamos e ela regurgitava suas futilidades, consegui me desvencilhar de seu pulso de gancho forte e pedi para que me encontrasse no centro da praça, quando terminasse as compras. Sentei-me num banco de madeira e vislumbrei a arquitetura de um gótico moderno que me rodeava. Uma igreja suntuosa, há pouco reestruturada, erguia majestosa circundada de árvores de copas largas, provavelmente até mais antigas. Um cenário muito bonito bem no miolo do complexo comercial. Mas aquilo não era novidade para mim, então logo deixei meu pensamento vagar em outros assuntos quaisquer. Adentrei num destes momentos em que o olhar se cansa de fixar pessoas e objetos e você se permite brincar de focar e esmiuçar as coisas, se esquecer delas e transformá-las em meros borrões coloridos. Permaneci naquele torpor por longos minutos. De súbito me retesei, atônita, precisando pressionar o encosto do assento pra suportar a perplexidade que me abatia. Havia uma silhueta que parecia ter se materializado a partir do ar, bem em frente à escadaria da basílica. Brotou ali, do vazio, como que anunciando a aurora do anoitecer. Naquele instante um elo se formava entre nós, ainda que só eu estivesse verdadeiramente acorrentada...&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Sei que não sou a vítima (embora eu me enxergue assim nas minhas reflexões de autopiedade), mas há um conjunto de fatores que alicerçam meu furto. Para total compreensão, devo relatar – ainda que com uma linearidade duvidosa – os fatos desde o ponto de partida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Thaís, objeto de meu amor puro e fatalmente corrosivo, era uma garota suave. Em tudo era completamente suave. Insisto nesse adjetivo porque Deus o criou com a única intenção de designá-la. Seus fios de cabelo, que atingiam a altura da bacia, flutuavam em perfeitos caracóis, nem sempre acompanhando a direção dos ventos. Olhos pequenos, de um castanho comum. A pele era levemente morena, oriunda da miscelânea de raças efetuada pela genética de seus pais, e salpicada de pequenas pintas aqui e ali. Dentes brancos, grandes. Mas raramente se abriam num sorriso. Preferia fazê-lo apenas com o lábio, suavemente...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só se destacava pelo excelente desempenho no colégio, mas não gostava de todo o alarde que os professores faziam a seu respeito. Falava baixo, num requinte de educação que, naquele primeiro dia que nos falamos, logo me chamou a atenção. Estávamos num ônibus, e eu nem sequer reparei na sua silhueta quando a vi sentada ao meu lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;- Com licença... –&lt;/strong&gt; não era necessariamente tímida, mas não olhava na linha de meus olhos.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;- Claro! Senta aí. Você que é a Thaís, certo?&lt;br /&gt;- Eu mesma. Aposto que algum mela saco de professor andou falando de mim na sua classe, né? –&lt;/strong&gt; e nem falando daquela maneira ela conseguia soar agressiva.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;- Algo do tipo... –&lt;/strong&gt; sorri com sinceridade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sua naturalidade me encantava. Era como se uma jóia raríssima estivesse ali o tempo todo e eu não notara. A partir daquele momento, procurei me aproximar cada vez mais de sua pessoa. Finalmente me olhava nos olhos. Foi fácil, já que era de convivência harmoniosa. Sempre preocupada, parecia que urgia dentro de seu âmago uma necessidade crucial de entender as pessoas. Quando eu aparecia com um mísero corte feito por uma folha de papel, ela já se eletrizava em sua preocupação e logo queria saber todos os detalhes do incidente. Eu gargalhava, feliz e apaixonado, de sua euforia em momentos assim. Aquela atenção especial me cativou, e também me tornou um completo mal acostumado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Criamos um laço de amizade forte. Muito forte. Os sentimentos passaram a se confundir. Existe uma linha tênue entre amizade e o amor puro de intenções conjugais. Até que - e lendo a folha de diário novamente parece que uma faca me dilacera a carne ao reviver aqueles fatos na memória -, ela conheceu um pintor no centro da cidade... &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-6087065752930764409?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/6087065752930764409/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/03/andre-parte-i.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/6087065752930764409'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/6087065752930764409'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/03/andre-parte-i.html' title='André - Parte I'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-7303421514180341512</id><published>2010-03-08T22:46:00.002-03:00</published><updated>2010-03-08T23:04:18.709-03:00</updated><title type='text'>Arthur</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;A estação de trem estava quieta. Meus passos ressonavam e ecoavam naquela paisagem plástica: árvores margeando o firmamento, pássaros dançando no ar e aquele cheiro de jasmim característico. Era um lugar vazio. Um lugar vazio dentro de mim.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Parecia abandonada, como se não tivesse sido usada há anos. As paredes carcomidas e mofadas denunciavam, ao menos, que limpeza não existia. Carregando uma pequena mochila numa sensação utópica de que ali poderia levar coisas para uma viagem, sentei-me num banco parcialmente deteriorado e fitei o horizonte além da trilha. Sentia um frio voraz; o vento gélido cortante paralisava minha face. Levei as mãos à boca e expirei lentamente.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Depois de passar por problemas que tangenciam a vida afetiva, transformei-me numa pessoa rígida e sem muitos vínculos. Não queria carregar o peso de ter alguém, estava cansado das responsabilidades, das cobranças e das chantagens. Queria viver ao menos uma fase de liberdade plena em minha vida. Desconfio que fiquei louco, mas até quanto a essa hipótese eu reagia com indiferença. Saí andando sem propósito numa noite e, ao raiar do dia, me interessei por aquele lugar desértico e por lá fiquei.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Não sei exatamente quanto tempo passou, mas perdi grande parte desse procurando por pistas se aquele lugar era ou não utilizado verdadeiramente. Como era domingo, ficava difícil ter provas, mas reparei que o estado do trilho não parecia dos melhores - não existiam placas informativas e nem sequer uma bilheteria. O chão estava imundo, tudo estava imundo. Eu também.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;No horizonte muito distante eu via penas. Verdadeiras plumas rodopiavam levadas pelo vento. O pôr-do-sol as tingia em cores que variavam em tons do vermelho ao laranja. Não procurei saber a razão daquele fenômeno; afinal, de que adianta saber que as engrenagens giram se elas continuarão girando, de qualquer maneira? Apenas me rendi à beleza e, estupefato, levantei-me. A miscelânea de cores se escondia por trás das nuvens e verdadeiros raios rubros iluminavam cubículos da mata virgem. Os animais não pareciam assustados.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;- Dizem que quando o dia acaba, podemos ver as asas dos anjos... –&lt;/strong&gt; Uma voz feminina e incisiva irrompeu, despedaçando o silêncio. Tremi. Meu coração acelerou como o de uma pessoa em morte iminente. Inicialmente tive medo de olhar pra trás.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;- É uma cena fantasmagórica, porém de uma beleza imensurável. Dizem que não são todos que podem vê-la. – &lt;/strong&gt;Mais calmo, pude reparar na beleza daquele timbre. Parecia uma sinfonia forte e calma, serena e profunda. Não sabia como reagir, mas não virei para visualizar sua silhueta. Caí no banco novamente. As pernas estavam trêmulas. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;- Como será que é ver aquilo de perto? Será que podemos tocar em suas asas? –&lt;/strong&gt; Não conseguia imaginar a que distância essa mulher estava. As ondas sonoras pareciam titubear diretamente na minha mente. Mas, agindo como quem já tinha notado sua presença, fiz de sua curiosidade a minha: eu, que sempre fui tão cético, não duvidava de cada excentricidade que aquela situação exibia. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;As informações não surgiam na minha mente com muita clareza. Eu apenas fitava o cume da serra, perplexo diante do redemoinho angelical que culminara em seu ápice. De súbito, senti a mão absurdamente álgida daquela moça entrelaçar meus dedos. Sem questionar e sem fitá-la, percebi que ela queria me conduzir. Ergui-me e segui com ela, caminhando em linha reta. Ao fundo o som de um trem finalizava a orquestra daquele fim de tarde.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-7303421514180341512?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/7303421514180341512/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/03/arthur.html#comment-form' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/7303421514180341512'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/7303421514180341512'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/03/arthur.html' title='Arthur'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-4484739341322175267</id><published>2010-03-02T20:11:00.004-03:00</published><updated>2010-03-02T20:18:53.878-03:00</updated><title type='text'>Marcelo</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Os pezinhos bateram na tábua corrida, timidamente. A criança entrou, com o papel enrolado entre os dedos sebosos. Eles estavam lá, ocupando divãs distintos. O pequeno menino entendia. Ninguém falava. Ele sabia que escolher uma das poltronas significaria optar por um lado no campo de batalha. Embora a vontade de fazê-lo existisse, não queria se envolver. Sentou no chão e os olhos, desejosos de escapar das pálpebras, fitaram a mulher diante de si. Por um momento a mãe enquadrou-o, incisiva, e Marcelo sentiu que ela lia os seus planos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;- O que você trouxe aí? –&lt;/strong&gt; sua voz arfava, no comumente trepido dos que fingem interesse.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;- É uma prova de matemática... –&lt;/strong&gt; entregou-lhe sem rodeios, movido pelo receio de ser ignorado.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;- Muito bom, meu filho! Você foi brilhante! – &lt;/strong&gt;no fundo repudiava-o por aquele golpe. As nódoas que secavam sua garganta não poderiam ser expelidas naquele instante. Garoto esperto! Ela teria que esperar o filho se retirar para prosseguir. Respirava profundamente e seu sorriso se alongava para depois contrair - gestos de perfeito ritmo que denunciavam sua plasticidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pai não era de muitas cerimônias, e por isso o exímio resultado do filho não o teve como vítima. A face austera, com as saliências herdadas de uma adolescência repleta de acne, contornava-se com as características delineações de quem aprisiona uma honra lacerada. Faixas horizontais acima dos olhos e o suor em ebulição por toda a pele. A mudança periódica de postura no sofá quebrava o silêncio da falsa bonança. Absorto na seleção das palavras mais poderosas, mastigava as unhas como quem busca o cerne de um alimento com muita polpa. Cuspia os fragmentos à longa distância. Abraçando os joelhos, a criança observava como cada pedaço de unha dilacerada era lançado cada vez mais próximo de sua mãe. Mesmo em sua inocência, estava muito claro: provocara-a para a guerra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;- Marcelo, vá para a cama, já está tarde e você precisa acordar cedo.&lt;br /&gt;- Mas pai, amanhã é sábado e são somente oito horas! –&lt;/strong&gt; trovejou, sem entender de onde viera o impulso para tais palavras. Não era costumeiro questionar as ordens de seus pais.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;- O que está acontecendo nessa casa, afinal? Tudo o que eu falo precisa ser questionado? Eu exijo mais respeito, moleque! Vá logo para a sua cama se não quiser me ver mais nervoso!&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Quando sentia raiva, os olhos imediatamente se umedeciam com as lágrimas de quem oprime a própria fúria. Já era sem êxito seu esforço de apaziguamento. Manteve a visão no firmamento e, quase como quem foge da iminência de morrer, entrou em seu miúdo quarto e fechou a porta. Vagava de um lado para o outro, em movimentos repentinos de raiva que lhe custaram alguns punhados de cabelo. Seu peito doía, no compasso facilmente audível da bomba que pretendia estourar sua caixa torácica. Não ouvia vozes, mas sabia que a atmosfera entraria em combustão em poucos segundos. Ele precisava dormir o quão rápido conseguisse. Desfaleceu na cama, cobrindo-se por inteiro e pressionando os ouvidos com as palmas das mãos. Mas é impossível calar a mente. Pôs-se a imaginar quais palavras rugiam nos cômodos de sua casa. Um enorme sentimento de pena de sua mãe invadiu-o por completo. Amava o pai, mas nos momentos mais frágeis era a figura materna que lhe surgia como ícone. Construiu em sua criatividade infantil agressões físicas, morais, apelos de um casamento em migalhas. Narrava para si o epitáfio de sua própria família. Ergueu-se, já em prantos, e deixou uma fresta da luz da copa adentrar em seu aposento. Vivia a cruel dualidade de quem não tem forças para enfrentar as adversidades, mas tem curiosidade para entendê-las e esmiuçá-las para então se martirizar com a verdade. Covardia vaidosa! Mais calmo, tentou confortar-se. Talvez nada estaria acontecendo. Sempre fora um menino sentimental em demasia. A indulgência para consigo veio a se fragmentar, quando as vozes no saguão esbravejavam a destruição quase palpável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;- Você não tem escrúpulos, não tem honra, não tem dignidade! Há quanto tempo está me traindo? Vamos, fale a verdade de uma vez por todas!&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;- Rodrigo, pare! As coisas não precisam ser conversadas dessa maneira!&lt;br /&gt;- De que maneira você quer, então? –&lt;/strong&gt; sons de estampido &lt;strong&gt;– Quer que eu fique calmo em desperdiçar quinze anos da minha vida?&lt;br /&gt;- Me perdoe, por favor...&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Marcelo perdeu a sustentação das pernas, caindo de joelhos. Chorava alto, em berros plenos como de quem sente a dor física de um corte profundo. Clamores que, entretanto, ninguém parecia notar...&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-4484739341322175267?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/4484739341322175267/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/03/marcelo.html#comment-form' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/4484739341322175267'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/4484739341322175267'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/03/marcelo.html' title='Marcelo'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-4406222527916651631</id><published>2010-02-26T21:16:00.002-03:00</published><updated>2010-02-26T21:21:30.101-03:00</updated><title type='text'>Carta para Melissa - Parte II</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Quando as águas me envolveram como um berço, minha amiga, encontrei no silêncio de seu fluir alguma paz. Era como se eu estivesse a caminho de me fundir ao mundo, dar-lhe de volta à matéria que me emprestara nessa vida fugaz. Mas tudo em mim é vaidade. E agora percebo as mazelas desse infeliz atributo: a pessoa vaidosa se mostra, preocupa-se com firulas e mesquinharias. Quer que notem que se veste bem. Quer ser admirada, quer ser bajulada. Não confessa, mas quer. Os casos mais perdidos até confessam. Sempre está se vangloriando de qualidades que ela sabe que não possui... As pessoas ao seu redor respondem com sorrisos falsos, pois os vaidosos não são muito bons para esconder sua alma cheia de futilidades. É o que há de podre no caráter humano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O desespero bateu, e a vaidade convencia meu estupor de que minha existência era relevante demais para se desfalecer naquele momento. Às vezes nossos piores defeitos salvam nossas vidas. Estou sendo dramática, sei disso e peço perdão, mas queria que estivesse ali para visualizar aquela cena deplorável e então preciso te munir de todos os detalhes. Emergi, aos vômitos e gritos. Não demorou até que me tirassem dali e eu fosse encaminhada para o hospital mais próximo. Pensei em inventar alguma história, mas eu estava muito abalada para ter criatividade. Os olhares, daquele momento em diante, desferiam verdadeiros golpes na minha face. Uma mistura de piedade com resguardo. Fui tratada como uma criminosa. Quase matei duas pessoas, afinal...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao acordar, já no leito do hospital, meus pais me inundaram de perguntas, atônitos demais para me permitirem responder. Choravam e se perguntavam onde tinham errado na educação que me deram. Rezaram, num misto de culpa e vergonha. Eu, entretanto, deixei escapar: “O Guilherme já está sabendo que estou aqui?” num claro sinal de que o ocorrido não modificara minha falta de amor próprio. Respirei fundo – ele já sabia e não viria me ver até que seu filho nascesse. Praguejei a existência desse ser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os médicos não faziam rodeios. Disseram que a hipotermia causada pelo acidente afetara o sistema cardíaco do bebê, e que uma cesariana de emergência precisava ser feita naquele mesmo dia. Eu concordei sem refletir muito, embora a insegurança que me dominava fosse quase palpável na atmosfera. Sabe quando você tem todas as evidências que algo acontecerá e mesmo assim você prefere desacreditar? Foi assim, querida amiga, que eu fui levada para o bloco cirúrgico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num piscar de olhos ele estava lá. Um ser humano gerado no meu corpo repousava como um anjo ao meu lado. Meus sentidos se estontearam. Percebi que os médicos sorriam conversando com a nova vovó, que com curiosidade observava minha reação. E era de pura perplexidade! As suas formas diminutas e sua feição de serenidade fizeram as lágrimas despejarem em vistosas cascatas. Como eu quase arrisquei a vida daquela obra maravilhosa de Deus? Quando repousei aquele bebê nos meus braços, o sentimento materno que então estava ausente surgiu impetuoso. Escolhi o nome, Pedro, e fiz mil planos de mãe de primeira viagem. Queria muito que você fosse a madrinha!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guilherme apareceu, mas eu já não estava muito interessada. Combinei os aspectos burocráticos de sua paternidade e evitava vê-lo ao máximo. Mel, hoje percebo, em meio às minhas crises de remorso, que ser mãe era tudo que eu precisava. Existem as dificuldades, com certeza, mas vivo cada dia com o fervor de quem quase já perdera tudo. Nesses dias frequentemente me lembro das pessoas mais importantes que passaram pelo meu caminho. A partir de hoje, prezo cada amizade como um tesouro da vida. Não quero perder ninguém!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espero que tenha se divertido e se emocionado com esse relato. Espero, também, que me perdoe por tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muitos beijos e abraços,&lt;br /&gt;Tina Costa.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-4406222527916651631?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/4406222527916651631/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/02/carta-para-melissa-parte-ii.html#comment-form' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/4406222527916651631'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/4406222527916651631'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/02/carta-para-melissa-parte-ii.html' title='Carta para Melissa - Parte II'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-8420634686300684344</id><published>2010-02-24T18:59:00.005-03:00</published><updated>2010-02-26T19:59:48.189-03:00</updated><title type='text'>Julia</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;E era exatamente dessa forma a grafia, sem o acento agudo. No colégio, os garotos insistiam em pronunciar o nome de maneira errada para irritá-la. Franzia a testa e suspirava, num ritual que mascarava seu desprezo pelos colegas e para si mesmo. Na verdade sentia-se bem os desprezando. Para o bom convívio social do mundo adolescente, porém, preferia considerar-se um ser humano com suficiente piedade alheia. Superficialmente, era a típica menina de traços finos. Exageradamente finos. Lábios de pouca carne, muito róseos, desenhados numa face de maçãs sobressalentes que davam um aspecto escultural para aquele rosto. Os cabelos eram exuberantes, de um bronze opaco que ganhava um tom escarlate debaixo do manto solar. Toda a sua personalidade se atrelava à aparência que, como as esculturas (mesmo as mais admiradas), eventualmente vinham a ruir ou perdiam pedaços continentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vale ressaltar que tivera uma infância cheia de brilho, festas e fotos. Nascera numa família que não era de elite, mas se esforçava para viver a vida mergulhada em regalias materiais. Hoje já não existem famílias numerosas que se agrupam em comemorações exuberantes, mas uns dois ou três tios por ano traziam seus filhos únicos para jantares cheios de polidez e palavras rasas. O brilho era de um amarelo pálido; as festas, de uma monotonia maculada; e as fotos costumavam sumir nas gavetas de mármore. O amor dos pais, protetor às vezes em demasia, ora ou outra irritava. Cresceu se questionando se era amada e protegida por ser Julia Monteiro ou por simplesmente exercer o papel de filha. Estava clara a resposta: a segunda tese. Construiu, portanto, a personalidade da não-personalidade. Julgava-se capaz de agir da forma que quisesse, dependendo da exigência das situações. Não passava de falta de autoconhecimento, entretanto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As crises familiares se davam em gritos baixos, perfídias silenciosas e jantares teatrais. Numerosas empregadas domésticas iam e vinham. As amigas sempre elogiavam a beleza de sua mãe e da casa, ambas de fato impecáveis. Sorria e suspirava. Era quase que uma mania, essa coisa de suspirar. A neblina que porventura oculta a realidade dos olhos das crianças se dissipava com o tempo. A verdade ficava irritantemente diáfana. Ganhou o costume de criar em sua mente situações de conflito, em que dizia as palavras mais abissais, gritava para os pais como o amor deles por ela era falso e cheio de contratos. Um ódio indevassável. Nas viagens imagéticas mais longas, agredia-os com tapas furiosos. Imaginava-se quebrando os móveis, usando drogas e levando homens para casa. Pelo menos, pensava, seria podre para os olhos de todos que quisessem ver. Na prática, embora os olhos se marejassem, apenas suspirava. Hábito amaldiçoado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num momento da vida onde os impulsos corporais sobrepujavam a lógica, entregou-se cruamente ao primeiro amor. Como uma flor de vida perene, abriu-se sem critérios. Expôs o âmago. Afinal, Hector personificava a beleza, o divino. A esperança! Os encontros eram sempre de poucas palavras e muito toque. O tato que encontrava em seu corpo o gozo mais profundo enchia seus sonhos das atitudes mais libidinosas. Dormia fora de casa, habituou-se à família do namorado (tão mais natural e simpática) e amou. Amou sem conhecê-lo. Que não lhe perguntassem a cor preferida do rapaz, ou seu gosto musical; ela não saberia responder. Quando se sentia enjoada de romances e flores, traía, numa tentativa de descobrir o que havia de mais sórdido em si mesma. Era o ensejo puro de se conhecer. Mas permanecia no relacionamento, e mais neblina se dissipava ao longo dos anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mudou-se, e procurava notícias dos pais - agora divorciados - apenas em datas específicas ou quando a situação monetária se mostrava complicada. Ignorava as chantagens da mãe e desligava peremptória quando se prolongavam demais em diálogos fúteis. Sua nova meta era construir uma família que fosse diferente, repleta de amor e sinceridade. Hector concordava, como sempre fazia. As volúpias da vida íntima sem a preservação eram estonteantes, mas não obtiveram resultado. Culminou num sentimento pétreo de martírio que ambos do casal compartilharam. Mais tentativas falhas levaram-nos a um médico especializado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis que a imunologia paradoxalmente se pôs contra a fecundação. A análise clínica demonstrara que o sistema imune de Julia criava anticorpos contra os gametas do parceiro. Não que fosse infértil, mas pra ter um filho com o cônjuge necessitaria de um procedimento laboratorial muito caro. Ele estava determinado. Só ele. Suspirou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conheceu outros modelos. Variedade da anatomia masculina! Sua silhueta mudava drasticamente de forma. A boca estava sempre manchada com batom vermelho e os cabelos não passavam da altura dos ombros. O quadril se alargou, preparando o envoltório da fertilidade. O excessivo sentimento de independência a transformou numa futura mãe solteira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levou os pais ao primeiro exame pré-natal, numa tentativa fracassada de criação de um ambiente familiar. As palavras preenchiam o ar como previamente ensaiado. Os sorrisos, sempre acompanhados de risadas curtas. Risadas que só se ceifaram quando a doutora comunicou, após uma cariotipagem, que o bebê era macho, e nasceria com a trissomia do 21. Mais conhecida como Síndrome de Down.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O diafragma se contraiu num profundo suspiro.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-8420634686300684344?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/8420634686300684344/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/02/julia.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/8420634686300684344'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/8420634686300684344'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/02/julia.html' title='Julia'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-5906679819912392573</id><published>2010-02-21T16:59:00.012-03:00</published><updated>2010-02-21T20:35:12.904-03:00</updated><title type='text'>Victor</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;A mãe foi relapsa. Utilizou-se duas mãos para analisar o xampu que prometia alisamento imediato. Livre, a silhueta diminuta do rapaz podia se desvencilhar daquela multidão. Sua mente infantil não compreendia como tantas pessoas se reuniam num mesmo lugar para comprar coisas tão desinteressantes. Arroz, açúcar, manteiga, óleo... Não fazia sentido. Então, na primeira oportunidade de escape, parou apenas para pensar se levava o carrinho ou não. Balançou a face rosada num sinal negativo para si mesmo, não tinha forças para empurrá-lo. Ainda assim, faria daquilo uma aventura. Seria um herói mesmo sem carrinho. Cogitou dar um beijo na mamãe, mas sabia que fazê-lo estragaria tudo. Colocou-se em posição de largada, contou até três em um segundo e correu. Em seu caminho, pernas surgiam como arvoredos dos quais ele precisava se esquivar de maneira teatral. Contornava-as, passava por entre elas e urrava em vitória a cada progresso. Fez com que as pilastras que o obstaculizavam abrissem espaço para ele. O chão era liso, fácil de atingir a inércia na velocidade. Outras crianças olhavam-no com uma curiosidade que alimentava seu ego já inchado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No instante em que o vento que margeava a rua refocilou-o no suor, banhou-se no alívio da liberdade. Admirou o céu, ergueu os braços e se reconheceu como vencedor. Os meninos da sua idade, em seu julgamento, nem de longe eram tão fortes e rápidos. Franziu a testa imaginando como contaria para seu vizinho, que com seus quatro anos mais velhos sempre tinha histórias fascinantes para relatar. Certamente ornamentaria da maneira mais dramática. Podia dizer que o perseguiram, que ele lutou contra os seguranças corpulentos e desarvorados. Só de imaginar, um sorriso brotava-lhe na feição. Respirou fundo. Suspirou. Olhou ao seu redor. Entrelaçou os dedos por trás da cabeça. Havia um parque no meio da praça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os balanços estavam vazios. No ímpeto, as pequenas sandálias se deslocaram de seus pés. Acomodou-se. O gancho da corrente arranhava na ida e na vinda. Rangido confortável. Bocejou. Estava tudo tão vazio que não tinha muito sentido em exibir sua libertação. Flutuou com os pés em cima da cadeirinha. Abraçou os joelhos e fechou os olhos. O que era aquele sentimento? Parecia que duas mãos fortes espremiam seu coração...Pensou que estivesse sendo punido, mas resistiria. Voltou-se à praça. O calor o irritava muito. Quando ia à praia, sua mãe sempre o impedia de sair correndo ao mar logo quando sentia a areia sobre seus pés para, primeiramente, banhar seu corpo no protetor solar. Procurou afastar a imagem materna de sua consciência e limpou as gotas de suor com as mãos rechonchudas. Criou círculos no chão de terra com seu indicador. O astro-rei, objeto de quase todos os seus desenhos, ganhava vida na arte daquelas mãos. Passaram-se minutos naquele torpor, embora o tempo parecesse paralisado. O badalar do sino da igreja invadiu o garoto com uma nostalgia triste. Abaixo de si, uma sombra humana que tomava grandes proporções fez o seu pequeno sol se transformar numa lua negra. Empertigou-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;- O que faz aqui sozinho, querido? –&lt;/strong&gt; Os cachos loiros daquela mulher mais pareciam douradas serpentinas em infinitos caracóis. Um sorriso pequeno de lábios curvados escondia os dentes. O olhar extremamente redondo envolvia uma pupila negra, como as rosas escuras que havia no jardim da casa do garoto. A casa... Por um instante desejou sua proteção inviolável. Mas era tão bonita, aquela moça! O que é externamente belo já é capaz de encantar a alma de uma criança. Sua mãe às vezes era muito rígida, severa. Não crescera para compreender que a preocupação é a mais tenra expressão de amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;- Não me olhe com essa desconfiança! Venha, há outros brinquedos mais legais logo ali. –&lt;/strong&gt; Entrelaçou seus dedos com aquela pele fria e desconhecida. Tentou romper o elo, mas estava muito fixo. Papai do Céu já pintava o mundo de laranja, anunciando que a noite não tardaria. Victor odiava o crepúsculo. Sem que o pequeno menino notasse, uma forte lufada de ar esvoaçou os grãos do firmamento. O sol se desfez.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-5906679819912392573?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/5906679819912392573/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/02/victor.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/5906679819912392573'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/5906679819912392573'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/02/victor.html' title='Victor'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-7251096022649838212</id><published>2010-02-19T23:18:00.006-02:00</published><updated>2010-02-22T16:14:03.173-03:00</updated><title type='text'>Amanda</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Um simples olhar desnuda. Quando as pupilas se observam o íntimo se revela no instante em que um mar de suposições quase sempre verdadeiras inunda a mente. Porque será que ele está olhando para mim? Será que ele quer conversar comigo? Ou ainda: e se ele quiser sentar perto de mim? Um movimento qualquer de sobrancelha pode significar um convite à amizade ou estampar a indiferença. Preferi não movimentá-la. Sei que, se alma de fato existe, ela se esconde nos olhos... Quando fitei aquela silhueta de uma serenidade assombrosa me retesei na cadeira. Não se tratava de beleza. O rapaz mirava o professor com uma disposição tão curiosa que as conjecturas começaram. Era inteligente, eu aposto! Tinha cara de quem já lera uma gama de livros, muitos dos meus preferidos inclusos. Na última fila de aposentos, via-o pelas costas coçando a nuca com certa frequência. As unhas meticulosamente cortadas, rente à curvatura dos dedos... Tão certinho, o moço. Organizado com certeza. Talvez chato quando invadiam seu espaço. Com o decorrer das aulas trocou algumas palavras com as duas pessoas ao seu lado que eu não me pus a reparar. Sorria de uma maneira infantilizada, dava vontade de abraçá-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em casa me senti estúpida. Amanda, sua imbecil, pensando numa pessoa que você nem sequer conhece só por uma troca de olhares que não preenchera sequer um décimo de segundo? Atrelada mentalmente à aparência de alguém somente pela imagem? Mesquinho demais! Mas eu eventualmente me cansava muito rápido quando me dispunha a autoflagelação e não demorou muito para que eu me flagrasse matutando formas de abordá-lo. Melhor, fazê-lo me abordar. Acordei cedo para passar uma camisa de banda, selecionar uns apetrechos meio nerds e trocar de mochila. Usaria a da época de colégio, cheia de broches e chaveiros. Em um olhar, ele seria capaz de saber tudo o que gosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pela primeira vez não cheguei atrasada e tive a sorte de encontrá-lo num movimento peremptório de sentar-se perto do quadro. Eu jamais o faria em minhas condições normais, mas fui com minha timidez teatral tão bem treinada. Trocamos alguns olhares, mas ele não parecia interessado na ornamentaria que eu preparei para impressioná-lo. Num impulso de soberba soltei o cabelo, acertando-o propositalmente com o emaranhado loiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;- Desculpa!&lt;br /&gt;- Sem problemas... –&lt;/strong&gt; A voz era grossa, mesmo aos sussurros.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;- Às vezes tenho que domar essa juba! –&lt;/strong&gt; Ele deu um riso de meio lábio e se voltou para a Física. Muito inquietante o silêncio de quem não tem o que falar. Não me contentei:&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;- Você é daqui mesmo? –&lt;/strong&gt; Minha voz estava tão plástica! Nem parecia eu falando...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;- Não não, sou do Amapá.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;- Ah... –&lt;/strong&gt; Não fitei-o nos olhos para fingir desinteresse.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;- Você é, não é? –&lt;/strong&gt; Ele falou algo por conta própria, finalmente! Uma sensação de vitória preencheu meu peito e me senti vitoriosa. Manipuladora, forte! Tinha as rédeas da situação mais cedo do que me supunha capaz.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;- Sou o quê?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;- Daqui, oras.&lt;br /&gt;- Ah, sou sim. Você veio só pra estudar?&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;- Sim, repeti o terceiro ano duas vezes. Minha mãe me expulsou de casa e estou morando aqui com meu primo. Enquanto termino o ensino médio, faço o pré-vestibular.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esbocei um raspar de gargantas fingindo interesse. Não era culto. Não da forma como eu esperava. As unhas eram roídas e cospidas, fato que eu não reparei à distância. Ele se coçava tanto que parecia que uma mácula espiritual tomava conta do seu corpo. Sua letra de caderno-de-caligrafia me irritava. Por alguns segundos senti desprezo. Continuamos conversando durante um tempo e eu percebi que era uma pessoa determinada, na verdade eu estava me forçando sem muito empenho para ver algo de bom em Rafael (que disse seu nome antes mesmo de eu perguntar). Para o seu físico corpulento e escangalhado tinha uma personalidade até muito sensível. Falar de problemas logo no primeiro bate papo não é bom sinal, revela uma ingenuidade própria de crianças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quase deixei escapar um “ufa” quando o sinal ecoou. Voltei a sentar nos fundos, e me limitava a erguer a sobrancelha quando os olhares se cruzavam eventualmente nos intervalos. Como eu era patética por achá-lo patético! E mais ainda por não me incomodar com isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelo menos entendi. Fico apaixonada por personagens da minha própria mente, que porventura me pregam peças se escondendo nos olhares alheios. Talvez seja amor próprio, afinal...&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-7251096022649838212?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/7251096022649838212/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/02/amanda.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/7251096022649838212'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/7251096022649838212'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/02/amanda.html' title='Amanda'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-5592483539192165188</id><published>2010-02-18T23:53:00.006-02:00</published><updated>2010-02-21T22:24:34.396-03:00</updated><title type='text'>Carta para Melissa - Parte I</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Ipatinga, 12 de Março de 2009.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Melissa,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei que desde a época do colégio eu só recorro a você quando estou em apuros. Tanto tempo passou, e eu deixei nossa amizade se impregnar com a poeira do esquecimento... Talvez você já nem more mais nessa rua a qual estou endereçando. Talvez nem mesmo no Brasil! Não me importo. Quero sentir a presença da amizade, do ombro cálido que afugenta qualquer mágoa sem requisitar nada em troca. Isso eu só encontro em você, mesmo que na abstração. Meu coração – embora sempre errante – acredita que você lerá.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Quando digo que tenho problemas, você certamente já sabe a fonte. Guilherme. Provavelmente está pensando na minha ingenuidade, em como padeço diante da malícia masculina ou algo assim. Pela primeira vez irei te impressionar, eu acho... Vou contextualizar: desde a formatura estamos juntos, quatro anos completos. Eu acabei por me adaptar ao seu jeito frio e desleixado, pois realmente o amava (ainda não sei bem como conjugar esse verbo). Certas relações somente se prolongam quando você aprende a se acostumar com o outro, embora pareça insensível eu abordar dessa maneira. Porém, a paixão um dia acaba. Os obstáculos não. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Não consegui encontrar forças para voltar a estudar e entrar numa faculdade. Trabalho como vendedora numa loja no centro. Minha avó faleceu, e a ilusória sensação de força que nos acomete nos momentos trágicos fez com que o filme da minha vida passasse rápido demais, abrindo espaço para outros problemas se instalarem. O drama começou quando descobri que estava grávida, e te confessaria se fosse de caso pensado. Enjôos e enjôos e tonturas e fraqueza... Ainda assim, fui pega desprevenida. Pensei em te ligar, mas tenho certo problema com telefones. Não contei para ele nem para meus pais. Algo em mim diz que o Gui pressentia...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Andávamos de mãos dadas. Ele, com a mão livre, segurava o guarda-chuva que sustentava a tempestade que castigava. O calor daquele sentimento podia disfarçar as lufadas gélidas de vento. Ou talvez essa cena melodramática seja fruto de minha mente que, como sempre, tenta me colocar na cômoda posição de vítima. O que importa é que era como um quadro. Um casal e a chuva. Um casal debaixo de um guarda-chuva. Um quadro tão sensível que em questão de segundos se desfaleceria.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Hesitou quando chegamos no portão aqui de casa. Sua face rígida parecia mais severa do que de costume. Tinha tanto tempo que não me manifestava irritadiça diante de seu conservadorismo que por um segundo me assustei. Os dois corações dentro de mim pareciam sincronizados, batendo fortemente. Guilherme não sabia da gravidez, mas havia algo de repreensivo eu seu olhar semicerrado. Mel, eu juro, ficamos nos olhando durante minutos! E então veio o ultimato. De sua boca as palavras saíram cruas, sem polidez, sem ornamentos. Suspirou e falou bem baixo “sinto que nosso amor acabou, e eu não estou disposto a viver com você mais” Eu queria chorar, fazer cena, encarar aquilo como uma costumeira briga entre namorados, mas não consegui. Você sabe que eu sou boa para dramatizar, mas meu talento me desapontou naquele instante. As lágrimas foram as gotas de chuva que salpicavam meu rosto. O homem do qual eu havia convivido por quase meia década virou as costas, e eu senti parte da minha história jogada no lixo do tempo como um brinquedo velho que se descarta. Deixou a aliança e levou o guarda-chuva.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Não consigo expressar como minha mente ficou confusa. Não queria usar a gravidez como álibi, mas precisava arrumar uma forma de abordá-lo a respeito disso. Minha família me questionava o que havia acontecido e eu fui evasiva, pois confesso que existia no fundo da minha alma uma fagulha de esperança de que tudo ficaria bem. Os dias foram passando e me mostrando o contrário. Sentia uma falta da presença do Gui que sugava minhas vontades. Fiquei apática, odiando a vida. Percebi que enalteci demais suas características ruins e pus de lado sua compreensão, a forma como ele sempre cuidava de mim quando, por exemplo, eu adoecia e a ira que o possuía quando alguém mexia comigo. Tente entender, era como se um pedaço da minha existência se descolasse. E então só restou solidão e angústia.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Quando repentinamente as lágrimas brotaram em cascatas violentas, bati a campainha de sua casa e contei-lhe sobre a criança. Gesticulava, pedia desculpas, proferia palavras de amor que nem cabiam num momento como aquele e me vi cobrando proteção. Ele foi generoso, e seu altruísmo me fez sentir ódio! Disse que ficaria ao meu lado, que assumiria a criança e a amaria. Eu queria que ele falasse sobre nós! Gritei coisas que nem lembro direito e saí de lá correndo, para me punir pela minha mesquinharia no meu quarto.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Agora vem a parte que, se você ainda morasse aqui, seria capaz de me bater. Entrei em depressão, e no dia que a gestação completava 3 meses pulei no rio doce. É, Mel, cheguei no ápice da insanidade. Tentei me matar.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-5592483539192165188?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/5592483539192165188/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/02/carta-para-melissa-parte-i.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/5592483539192165188'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/5592483539192165188'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/02/carta-para-melissa-parte-i.html' title='Carta para Melissa - Parte I'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-7617460911139714659</id><published>2010-02-17T19:33:00.001-02:00</published><updated>2010-02-17T19:35:18.705-02:00</updated><title type='text'>Alexandre</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Abri a porta num supetão enraivecido, ainda que não possa definir aquela sensação que me dominava como simplesmente raiva. Rangeu estridente, rasgando o atroz silêncio da madrugada como quem anuncia o desfalecimento de uma alma que se esvai de um corpo deteriorado. Olhei para a patética sala de estar. Os móveis que a guarneciam se distribuíam toscamente: o sofá torto, a mesa com cadeiras desfalcadas e os quadros empoeirados. Pratos, talheres, vasilhas e panelas se juntavam num motim em cima da mesa, refletindo não só uma ausência de limpeza, mas a exteriorização dos meus próprios anseios. Arremessei a arma no sofá, cuspi a mucosa úmida no estofado e me dirigi à cozinha.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Uma geladeira em cor pálida de musgo, um fogão pequeno e uma pia carcomida pelo tempo. Rachaduras desenhavam mapas nas paredes e no teto, onde plantas de pequeno porte criavam relevo com suas raízes tímidas. Agindo sem o controle de minha mente, liguei a torneira e me coloquei a observar o fluxo de água, trêmulo. Alternava a vazão da corrente, dos pingos de chuva às torrentes mais fortes. O titilar das gotas regiam a única sinfonia daquela noite. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Um sentimento de compressão no peito me retirou o ar, como se pedras de gelo inundassem o meu interior. Meus olhos giravam na órbita e eu tateava o azulejo enlameado da pia em busca de nada. O gotejar sereno se modificou num zumbido intenso, paralisando meus membros junto aos ouvidos e eriçando os pelos do meu corpo. Girei em torno de meu eixo em busca de alguma explicação visual, e me abstive em frente à torneira. A água estava rubra como sangue talhado, com a viscosidade de uma ferida gangrenada. Nada continha o jato escarlate.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Duvidando da minha própria sanidade irrompi pela casa e adentrei em meu quarto. Estava tudo vazio, apenas as camas e as paredes que tinham rombos circulares de tamanhos variados. Alguns pareciam feitos à mão; outros, esculpidos por balas de escopeta. Eu não tinha matado ninguém. Ninguém além de mim mesmo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Há cinco dias atrás um revólver que parecia de brinquedo surgiu embaixo da minha cama e estranhamente cada dia ele se posicionava em um lugar – Na mesa do escritório, na janela, dentro do vaso de plantas sem vida... Outrora o carteiro o trouxe. Tentei levá-lo para outros lugares fora da casa e ele sempre reaparecia. Minha irmã conheceu-o naquele dia.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Sentei na cama e, debruçado sobre o joelho, retomei o controle da respiração e procurei me acalmar. Foi quando, na inércia da tranquilidade, senti a sola do pé umedecida pelo líquido agora violáceo que se esgueirava pelo meu aposento. Em frenesi, corri até o sofá cambaleando e empunhei minha defesa - a única coisa que me traria paz para me retirar daquele pesadelo descomunal. Necessitava de emitir o som, observar o dilacerar da carne.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O disparo se efetuou, rasgando o atroz silêncio da madrugada.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-7617460911139714659?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/7617460911139714659/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/02/alexandre.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/7617460911139714659'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/7617460911139714659'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/02/alexandre.html' title='Alexandre'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-198654464144905969</id><published>2010-02-09T18:58:00.003-02:00</published><updated>2010-05-23T14:16:14.484-03:00</updated><title type='text'>Orquídea</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;As gramas mal aparadas faziam daquele jardim um lugar ainda mais bonito e heterogêneo, sempre amontoado de insetos e pássaros em busca do âmago das flores. Gostava dali, pois era de uma falsa naturalidade muito aconchegante. Deitei-me e procurei ignorar a coceira que fornicava minhas costas. Com os braços estendidos e as pernas flexionadas, passei as falanges por entre as gramíneas arrancando as pontinhas já afiadas, lançando-as uma a uma novamente no acolchoado verde. O céu de um azul claro que muito me agradava exibia nuvens livres e velozes, que pintavam formas desconexas a cada segundo naquele manto divino de beleza inalienável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ócio não deveria ser bem vindo, já que precisava entregar vários trabalhos da universidade e à noite havia marcado um jantar com a nova namorada para conhecer seus antiquados pais. Ainda assim, vestia o pijama costumeiro e fingia ignorar os convites para o almoço. Essa sobrecarga de afazeres surtiu em mim um efeito antagônico ao esperado, afinal, nada disso parecia ter muita relevância naquele instante. Subitamente senti uma movimentação estranha na perna; uma formiga em sua ingenuidade de mera operária prendeu-se nos pêlos de meu calcanhar e me fez admirá-la pelas tentativas determinadas em se desvencilhar daquele emaranhado que, na visão daquele diminuto ser vivo, possivelmente se assemelhava a um verdadeiro labirinto. Depois de poucos segundos, cutuquei-a de volta ao firmamento. Certamente a esmagaria caso estivesse simplesmente caminhando num cômodo da casa ou mesmo na rua. Puro capricho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As árvores assobiavam e se inclinavam em resposta ao vento, numa harmonia rítmica que não me surpreenderia se fosse copiada por alguma bela música já existente. Foi então que inclinei a cabeça e vi, no fundo do pátio, próximo a um balanço oxidado, um vaso que exibia uma majestosa orquídea. A miscelânea de cores em suas pétalas tornava-a um destaque iminente naquele cenário de natureza artificial. Os insetos se banhavam em seu pólen colorido e descobriam no âmago protegido pelas sépalas o regozijo da vida. Não havia flores ao redor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E tudo aquilo, e eu, viemos da mesma matéria. Pensar em evolução fazia minha mente entrar num estupor que, se por um lado eu me sentia ávido pelo conhecimento, por outro parecia adentrar no vazio da insignificância. Nunca fui uma pessoa muito religiosa, preferi as explicações pautadas pela ciência, muito porque elas não exigiam que eu acreditasse nelas. Muitos falam que há falta de fé em mim, mas pensando melhor, para acreditar na evolução não é preciso muito mais fé? Pensar que todos os seres existentes hoje possuem um ancestral comum, e que as diferenças entre todos são derivadas, entre outros, da conjunção do ambiente com os fatores genéticos? É difícil aceitar isso vendo uma sequóia gigantesca, com seus ramos habitando tantos seres diferentes entre si: louva-deus, barbeiros, bem-te-vis, hemiparasitas, fungos e outros milhares de seres vivos infinitamente pequenos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui até a orquídea e alisei-a com o indicador. Trazendo-a ao nariz pude perceber uma fragrância suave, possivelmente mais uma estratégia adaptativa para atrair os polinizadores. As coisas pareceram frias e mecânicas demais. Arranquei algumas pétalas e lancei-as ao orvalho, observando o rebuliço das vespas e besouros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um convite mais irritadiço para a refeição irrompeu da cozinha. Suspirei, procurei afastar aqueles pensamentos da minha mente e voltar a viver o mundo tão focalizado em mim mesmo, já que era tão mais fácil aceitá-lo.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-198654464144905969?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/198654464144905969/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/02/orquidea.html#comment-form' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/198654464144905969'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/198654464144905969'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/02/orquidea.html' title='Orquídea'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-7608045796166783072</id><published>2010-02-08T21:54:00.003-02:00</published><updated>2010-03-02T20:47:43.726-03:00</updated><title type='text'>Rosana</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;Os vizinhos provavelmente se empertigaram com o estampido provocado ao fechar a porta. Já era madrugada. Muito embora esse pensamento me ocorresse naquele momento - eu não me importava. Cravei meus dedos no pulso de Rosana com fervor. Ela sorria. A pele de um moreno que me remetia à madeira bem lustrada era como um convite. Seu corpo todo me chamava em uníssono. Mas havia silêncio. Um silêncio de compreensão mútua. Era como se aquela mulher previsse e desejasse cada um dos meus movimentos. Desejo cru. Quando a virei para mordiscar a nuca escondida pelos longos cabelos de caracol, ela envolveu meus braços sobre sua cintura, ensinando-me como explorar cada ponto sensível em seu abdômen. Respiração descompassada. Não poderia deixá-la com o controle, essas coisas devem se alternar. Girei-a e colei nossas faces confrontando os lábios sedentos. Senti sua língua ganhando vida e desejando explorar o além-boca. Não permiti. Avancei primeiro, desbravando aquela cavidade que me confundia as sensações. Era paladar? Tato? Sei que era dança, em passos que pareciam ensaiados por toda uma vida de paixões intermináveis. A música de suspiros – agora menos envergonhados - nos conduziu ao sofá. O leito da consumação. E cada peça de roupa que eu descolava de seu corpo, ora com a mão, ora com os dentes, era como estar cada vez mais próximo de encontrar o âmago daquela personalidade que me enfeitiçava. Ela compreendia, sabia o poder que detinha. Libertava-me da carcaça. Ali, eu me configurava como um verdadeiro animal. Corpos nus em contato, livres de preceitos, entregues à condição biológica de instintos e impulsos. Rosana... Nem despida me parecia frágil! Sua forma não era seca. Era professora, não modelo. E na maneira como ela exibia sua intimidade residia grande parte do meu êxtase. Fitava-a em sua condição primordial, analisava suas máculas e cada imperfeição era capaz de lançar ao ar sinceros gemidos de prazer. O divã não suportava aquela explosão de sensações. Tombamos, sem dor, no tapete ao seu lado. “Não se mova”, ao pé do ouvido. Beijei, mordi, lambi, arfei, senti o suor brotando de suas contrações agora violentas. O cheiro... Na tentativa de oferecer um antro de prazer, fui vítima de minha própria ambição. As volúpias eram mútuas. Diante disso, o tempo parecia nos dar uma trégua. Na atmosfera, o prelúdio do ato que no pensamento fingia se esconder. O seu ventre pulsava. A anatomia se mostrou receptiva ao permitir o encaixe perfeito. As zonas de maior prazer em contato. Em atrito. A dança em seu clímax. A sinfonia de uma sexualidade sem falsos pudores, apalpada e degustada para que se retirasse dela o que havia de mais hedônico. Os movimentos não-ritmados das peles em chamas. As vogais entoadas aos gritos! Onde dois se fazem um. E se fazem dois, e se fazem um... &lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-7608045796166783072?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/7608045796166783072/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/02/rosana-conto-unico-de-paragrafo-unico.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/7608045796166783072'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/7608045796166783072'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/02/rosana-conto-unico-de-paragrafo-unico.html' title='Rosana'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-9121492281269965014</id><published>2010-02-05T18:39:00.002-02:00</published><updated>2010-02-09T19:00:18.184-02:00</updated><title type='text'>Conto sem título</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;E nos meus olhos sua imagem se configurou num quadro de outono. Sua aparência, antes mesmo da beleza, emanava algo de sagrado. Voluptuoso. E quando a solidão das noites quentes me abraçava em seus ventos de amor, era a sua silhueta de gestos simples e sorrisos cálidos que moldava cada um dos meus pensamentos. Quando as incertezas sobre o futuro criadas pelo platonismo de meu sentimento inundavam o íntimo, as batidas aceleradas em meu peito regiam a única sinfonia que quebrantava o silêncio nas trevas. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Não me esquecerei daquela tarde primaveril que foi palco do nosso primeiro encontro. Seu sorriso de um amarelo claro distribuído em dentes grandes não tão alinhados revelava uma timidez estampada numa feição esguia, de traços suaves e não muito decididos. Para compensar sua falta de jogo de cintura, falei sem parar sobre assuntos pouco interessantes. Contei sobre o passado, sobre os amigos, sobre os casos de outrora e sobre sonhos. Muitos sonhos: de constituir família, criar bebês que correriam em jardins verdejantes e viajar muito. Disse muito, e a resposta vinha em sorrisos grandes e amarelados. Aquele mistério me corroia. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Insistia que sua vida não tinha nada demais. Que viera de uma família de classe média e que trabalhava na redação de um jornal. Vestia-se muito bem, e estranhamente evitava o contato por telefone e encontros em lugares fechados. Culpava o cigarro. Com o tempo, depois de várias indagações repelidas por respostas curtas e diretas, a doença do amor manifestou um sintoma grave: a desconfiança. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Sem controlar meus atos com precisão (ao menos eu prefiro crer que foi assim), vi-me vagando pelas ruas e espionando sua vida. Não levava muito jeito para aquilo, bastava que virasse o rosto e eu estaria à mercê de seu julgamento. De alguma forma, por sorte, consegui espreitar até a casa em que morava e esperei do lado de fora, em busca de brechas para que eu digerisse mais informações sobre sua vida pessoal. A residência era simples e tão pacata que me lembrava por completo a vítima de minha espionagem. Uma casinha exatamente como aquela que as crianças desenham ao ingressar nas escolas, com apenas duas janelas e uma porta. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Alguns minutos se passaram e então um ruído ensurdecedor irrompeu daquele casebre. Um som pesado, encabeçado por uma voz que parecia possuída, fazia tremer o firmamento até os limites da rua. Nunca havia dito nada sobre o seu gosto musical aparentemente tão excêntrico em nossos poucos encontros. Aquilo perdurou por alguns minutos e os vizinhos, um a um, se prostravam enraivecidos na porta de seus aposentos, aos cochichos. Nenhum deles parecia realmente disposto a impedir aquela música que, embora eu não conseguisse sequer entender o que o vocalista balbuciava, parecia agressiva e num volume demasiado alto para as quase meia-noite que se completavam. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Bati na porta, com força, pois o interfone parecia inútil. Depois de alguns segundos, a música se encerra e o rangido da porta revela a mesma face esguia de horas atrás. Não me questionou como havia conhecido o lugar onde morava, mas deu um sorriso de meia boca muito diferente do costumeiro que me paralisou. Ao fundo, na casa, reparei que os cômodos pareciam pintados à tinta preta e não reconheci nenhum móvel, a despeito do meu campo de visão ser o suficiente para uma caracterização simplória de uma residência qualquer. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;- Por acaso se perdeu? –&lt;/strong&gt; vociferou, como se houvesse raiva naquela expressão serena. Algo me fez parecer que não me reconhecia, mas não falei nada. A síncope que me afugentara fazia com que meus pés tremessem e meu desequilíbrio era explícito. O sorriso de meia boca persistia.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Corri e não olhei para trás. Em casa, lavei o rosto e subi para o meu quarto, que estranhamente estava mais desarrumado do que de costume. Não me importei, apenas queria dormir para esquecer aquele estranho episódio. No meio da madrugada, o titilar estridente do telefone me colocou de pé na mesma euforia em que eu havia chegado. Eu não tinha dúvidas a respeito de quem estava do outro lado da linha, ainda que fosse alguém que não gostava de comunicações por telefone e que nem sequer sabia meu número. &lt;strong&gt;- Estou esperando você voltar. –&lt;/strong&gt; foram as últimas palavras.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-9121492281269965014?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/9121492281269965014/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/02/conto-sem-titulo-parte-unica.html#comment-form' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/9121492281269965014'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/9121492281269965014'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/02/conto-sem-titulo-parte-unica.html' title='Conto sem título'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4585322353412018914.post-8835735562073299162</id><published>2010-02-04T19:49:00.002-02:00</published><updated>2010-03-03T21:45:13.659-03:00</updated><title type='text'>Zachariah</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;A água cai fria. Sopros molhados divergiam das nuvens que se aglomeravam numa colcha negra. Zachariah fumava, imerso em pensamentos. O carro, de um preto luxuoso que repelia toda a luz, seguia suas ordens contornando as sinuosas curvas da cidade. Viagem a trabalho! Uma gota de suor brotava logo acima dos olhos e desenhava um caminho tímido em volta de seu nariz, titubeando salgada nos lábios ressecados. Se ao menos pudesse escolher outra pessoa para fazer aquilo... Não, ele tinha sido requisitado. Se fugisse, enfrentaria sérias consequências. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;– Sei muito bem que não é o tipo de coisa que você faria, Zach. Mas você sabe que essa é uma situação excepcional... Muitas vidas certamente serão poupadas. –&lt;/strong&gt; balbuciou Esther, abrindo uma fresta do vidro para que a fumaça do cigarro escapulisse. Sua voz, porém, não arrancara nenhuma mudança de expressão no companheiro. Voz que por um momento soara plástica e desinteressada. Ela não entendia nada, afinal. Não era ela que poria de lado sua ética de profissional e sua fé em nome de uma chantagem! Cravou os punhos com mais força no volante. Pulverizou o cigarro nos dedos. Um suspiro morno revolvia seus pulmões e era exalado pela boca. Um sopro de silêncio. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Trancou a porta do carro sem entusiasmo. Fitou a lataria fosca, conferindo como estacionara. Esther olhava-o com aquela preocupação doentia que o fazia desejar que a menina sumisse. Cerrou o olhar apreensivo e se dirigiu ao casarão no fim da rua. Pilastras ornamentais, alvas e com trepadeiras jovens alicerçavam o que mais parecia uma mansão grega. Aquele luxo o enojava. Janelas do tamanho de portas se gabavam do interior da casa, estampando para quem ousasse olhá-la uma riqueza agressiva, que deixava claro em cada móvel não ter sido fruto de histórias familiares honestas. Seus passos eram lentos, a respiração arfava em chiados de angústia. A companheira resmungou duas palavras que o doutor confirmou sem se preocupar sobre o que se tratava. A campainha era estridente, como se precisasse ecoar em todo o bairro para avisar que chegaram visitas. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;– Doutor Zachariah! Por favor, entre. –&lt;/strong&gt; a voz de tenor, falsamente receptiva, quebrara o silêncio. A porta ainda estava fechada. Empurrou-a lentamente e viu a silhueta de seu algoz bem diante de si. Olhos que se comprimiam em linhas finas, imitando a boca de um rosa doentio salpicada de cascas. O cabelo grisalho crescia tímido. Havia uma aura maliciosa que facilmente se detectava, contornando o fanfarrão. Esther vislumbrava aquela atmosfera de nobreza mórbida com sua usual displicência. &lt;strong&gt;– Não faça tantas delongas, sua paciente está logo no fim daquele corredor. –&lt;/strong&gt; o velho bradava. Queria correr. Suas pernas pareciam não respeitar seus impulsos de fragilidade. Seguiu, sem triunfos.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4585322353412018914-8835735562073299162?l=mantrasdeoutono.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/feeds/8835735562073299162/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/02/zachariah-parte-1.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/8835735562073299162'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4585322353412018914/posts/default/8835735562073299162'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mantrasdeoutono.blogspot.com/2010/02/zachariah-parte-1.html' title='Zachariah'/><author><name>Guilherme Navarro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/11718183911443019101</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://1.bp.blogspot.com/_qc68FRqABbQ/S6quXCkEMEI/AAAAAAAAABo/Mkk36sCldFU/S220/mimimi.JPG'/></author><thr:total>4</thr:total></entry></feed>
